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segunda-feira, 14 de outubro de 2024

 Aguas  de Antonina e de Paranaguá.


Conheci os pavores do mar

E as alegrias em velejar,

Pois naveguei pelos mares,

Não pelas palavras.

 

Sob os céus diversos,

Em caminhos de água salgada,

Descobri a história no horizonte,

Não na tinta e nas páginas.


Atravessei outros contos,

Apreciando o vento e as águas,

Porque naveguei pelos mares,

Mas não sob o sol das palavras.


Escrito por:  Cecilia Ferreira Leal.

sábado, 21 de agosto de 2021

     Superar os nossos fracassos e os momentos difíceis da vida é sempre um aprendizado, difícil, mais a gente supera e vamos vivendo a vida ao nosso modo, com nossos valores, transformando a nossa vida passo a passo, dia após dia. Superar o fácil não tem mérito, é obrigação; vencer o difícil é glorificante, pense nisso!

Prof. Lourdes Duarte

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

A grande volta ao mundo com o menor dos barcos por JORGE DE SOUZA

Fonte: https://historiasdomar.com/a-grande-volta-ao-mundo-com-o-menor-dos-barcos/
A grande volta ao mundo com o menor dos barcos

Quando decidiu construir um barquinho (um “barquinho” de fato, de apenas 11 pés e 10 polegadas ou míseros 3,6 metros de comprimento), o francês radicado na Austrália e que já havia vivido no Brasil na infância, Serge Testa não tinha se¬quer um projeto no papel. Só a vontade de dar a volta ao mundo com ele e, com isso, também bater o recorde da circum-navegação do planeta com o menor barco da História – que, até então, pertencia a um barco de 18 pés e 4 polegadas.
Para bater aquela marca, bastaria construir um barco uma polegada menor, mas Serge foi bem além (ou melhor, bem abaixo) disso: seu barquinho teria quase seis pés a menos, o que, no caso, representava uma brutal diferença.
O objetivo era torná-lo o mais leve possível, para ganhar velocidade, e com capacidade para abrigar apenas o que ele, de fato, precisaria naquela longa jornada. Ou seja, um lugar para dormir, ainda que sem poder me mexer muito, um espaço para estocar água e comida, um rádio, um fogareiro, um sextante, um kit de primeiros socorros e um aparelho sinalizador de emergência, para o caso de algo dar errado na viagem, embora ele confiasse bastante na resistência do seu barquinho. Nem banheiro teria – só um balde para atender as suas necessidades, quando não fosse possível recorrer diretamente ao mar, sem intermediários.
Antes disso, Serge havia começado a construir outro barco, bem maior, de 33 pés de comprimento. Mas logo percebeu que não só não teria dinheiro para equipá-lo, como não precisava daquele espaço todo a bordo. Um dia, olhando para um pequeno bote numa marina, Serge concluiu que um veleiro daquele tamanho bastaria. Nele, caberia tudo o que ele precisaria. Menos, é claro, conforto.
Me¬ses de¬pois, seguindo apenas a sua intuição, brotou da garagem de sua casa uma micro em¬bar¬ca¬ção de alumínio com uma apa¬rên¬cia tão incomum que foi batizada de Acrohc (al¬go co¬mo “Coi¬sa”) Aus-tra¬lis – um nome esquisito para um barco ainda mais estranho no seu minúsculo tamanho.
O veleirinho de Serge era tão acanhado que só o peso do seu corpo já fazia o casco adernar até o convés quase tocar a água. E ele só podia navegar sentado, com as pernas dentro da cabine e o restante para fora, ou deitado dentro dela, já que todos os comandos eram internos, para permitir comandar o barco de dentro da cabine – uma maneira de aumentar a segurança, já que, em caso de mau tempo, bastava fechar a cabine e transformar o barco numa espécie de rolha.
A viagem começou em 9 de junho de 1984, em Brisbane, na Austrália, para onde Serge havia se mudado com a família. E logo no primeiro trecho, com um ciclone pela frente. No 44º dia da travessia até a Ilha Cocos, no meio do oceano Índico, os ventos mudaram de direção, o mar engrossou, as ondulações se transformaram em um festival de muralhas d´água desencontradas e o Acroch passou a ser sacudido como se estivesse dentro de uma máquina de lavar roupas. E com Serge trancado dentro dele.
Para se proteger dos solavancos, que vinham de todos os lados, Serge escorava o corpo com o travesseiro e rezava para que ambos (ele o barco) aguentassem. Algumas ondas vinham com uma rapidez alucinante e cuspiam os dois de uma crista para outra, enquanto Serge se perguntava quanto tempo suportaria aquele inferno.
Ambos, porém, não só sobreviveram aquele acidental teste inicial, como, a partir de então, Serge passou a ter certeza de que ele e seu barquinho estavam realmente preparados para a longa e imprevisível jornada.
Rapidamente ele se acostumou a ter a companhia apenas de si próprio, dia após dia, e sabia que nem teria escolha, porque mesmo que conhecesse alguém interessante em alguma escala da viagem, não haveria espaço para outra pessoa a bordo. Nem bote salva-vidas o Acrohc Australis tinha, porque o tamanho do barco não permitia.
Serge também aproveitou o trecho inicial da viagem para testar a capacidade do seu organismo de absorver pequenas doses diárias de água salgada, para o caso do seu estoque de água acabar durante as travessias..
O Acrohc Australis possuía um tanque de 100 litros de água e Serge levava outros 100 litros em galões. Isso dava ao velejador uma autonomia de cerca de 100 dias no mar, desde que ele consumisse, no máximo, dois litros de água por dia. Para cozinhar e tomar banho, só água do mar e quando ele permitisse isso, porque o veleirinho sacudia tanto que tudo a bordo tinha que ser feito com apenas uma das mãos – porque a outra era usada para se segurar, o tempo todo.
Além disso, ao chegar à Ilha Cocos, após oito semanas no mar, Serge teve quase que reaprender a caminhar e reativar os músculos das pernas, porque o tamanho do seu barco não permitia que ele desse mais do que um passo.
Mesmo assim, ele chegou sentindo falta apenas de um cigarro e uma cerveja gelada, luxos que o Acroch Australis não permitia. Até porque sua cabine era úmida feito uma caverna, por conta da condensação da própria respiração do navegador, que, por causa do tamanho reduzido do barco, passava 90% do tempo dentro dela. Era um desconforto só.
Mas o pior ainda estava por vir. Na travessia seguinte, entre a Ilha Cocos e Madagascar, uma explosão no fogareiro gerou um princípio de incêndio na apertada cabine do barco. Na ânsia de apagá-lo, Serge viu as chamas tomarem conta do seu cabelo e da longa barba que tantos dias de mar cultivara, obri¬gan¬do-o a se atirar na água para apagar o fogo no próprio corpo.
Em seguida, ainda mais apavorado, ele tratou de alcançar o barco, que seguiu avançando, empurrado pelos ventos. O fogo só foi dominado quando Serge, esbaforido, assustado e queimado, conseguiu voltar a bordo e passou a jogar baldes e mais baldes de água dentro da cabine – que, com isso, ficou completamente inundada. Foram preciso vários dias de sol para tudo voltar ao normal, sem falar nas queimaduras de velejador, que só foram tratadas quando ele chegou a Madagascar.
O trecho seguinte da travessia, entre a África e o Brasil, também começou da pior maneira possível. Para vencer com seu pequeno barco o cabo da Boa Esperança, onde o Índico encontra o Atlântico e gera ondas do tamanho de pequenos edifícios, Serge viveu dias de extremo desconforto, acentuado pelo frio congelante das correntes marítimas que vêm da Antártica e ali desembocam.
Açoitado dia e noite por monstruosos vagalhões de água muito fria, o casco de alumínio do Acrohc Australis se transformou numa espécie de caixa frigorífica, enquanto sacudia não apenas para frente, para trás e para os lados, mas também para cima e para baixo. Diversas vezes, o veleirinho de Serge inclinou tanto que encostou o mastro no mar, ao mesmo tempo em que era martelado por montanhas de água gelada, gerando um barulho ensurdecedor dentro da cabine-sarcófago, onde ele passou dias trancado.
Serge sofreu tanto para dobrar o histórico cabo africano, sobretudo com o frio, que decidiu mudar de rota: não mais avançaria para o Sul, na direção do Cabo Horn, onde as águas do Atlântico se misturam às do Pacífico, nas cercanias da península Antártica (portanto, águas ainda mais geladas), mas subiria para o Norte, rumo ao Canal do Panamá, onde a travessia para o maior dos oceanos é bem mais tranquila e segura – embora igualmente tensa para um barquinho tão pequeno.
No caminho, ele fez escalas nas ilhas de Santa Helena e Ascenção, antes chegar a Natal, na costa brasileira, 52 dias depois de começar a cruzar o Atlântico. Desta vez, a travessia foi tranquila, salvo a intensa movimentação de navios em certos trechos. Mas Serge jamais abriu mão de dormir as noites inteiras, para descansar, a despeito de não haver ninguém lá fora para vigiar o mar e de sequer usar luzes de navegação, porque, segundo ele, elas de nada adiantariam frente aos gigantescos navios – e ainda consumiriam toda a energia da única bateria que o Acrohc Australis tinha.
Mesmo sabendo dos riscos de ser atropelado no mar, Serge tinha confiança na resistência do seu barco e na capacidade dele de continuar flutuando mesmo após ser atingido, graças a meia dúzia de compartimentos estanques espalhados pelo pequeno casco. Além disso, considerava que seu barco, por ser muito leve, não ofereceria nenhuma resistência a um eventual impacto, sendo apenas afastado, em vez de esmagado. Pelo menos era nisso que ele acreditava.
No Canal de Panamá, Serge esteve literalmente muito perto de comprovar isso, quando se viu lado a lado com gigantescos navios dentro das eclusas. Perto deles, o Acrohc Australis parecia uma canoa. Tão acanhado que não havia como seguir o protocolo de levar um prático a bordo. A solução foi prendê-lo a um veleiro maior e usar o mesmo prático do outro barco.
Foi, talvez, a primeira vez que um barquinho tão pequeno cruzou o mais famoso canal do mundo. Tanto que, ao chegar à entrada do canal e comunicar, pelo rádio, os dados do seu barco, Serge teve que frisar que se tratava de uma embarcação de 12 pés e não 12 metros, como habitualmente era interpretado por quem estava do outro lado.
Da mesma forma, quando ele dizia de onde estava vindo e para onde estava indo com aquele barquinho, sempre havia uma constrangedora pausa na conversa, porque era difícil acreditar naquilo. Desde o início, responder aos incrédulos interrogatórios das pessoas durante a viagem tornou-se uma gostosa rotina para Serge, que, com isso, foi colecionando amigos e admiradores a cada escala.
Quando, porém, estava sozinho no mar, Serge passava o tempo conversando mentalmente consigo mesmo, admirando uma paisagem que raramente mudava e, eventualmente, pescando, para aumentar a quantidade de comida a bordo. Fisgava atuns e dourados com frequência, embora, muitas vezes, tivesse que disputá-los com tubarões maiores do que o seu barco, na hora de recolhê-los. Às vezes, vinha só a cabeça dos peixes.
Mas jamais passou fome. Chegou a ter comida estocada para ficar um ano inteiro no mar, apesar do trecho mais longo da viagem ter sido os dois meses que gastou para vencer a distância entre Galápagos e as Ilhas Marquesas, na Polinésia Francesa, já no Pacífico, no caminho de volta para casa.
Aquela foi também a primeira vez que Serge usou um equipamento de navegação de verdade, um Satnav, que permitia navegar com a ajuda de satélites, comprado no Panamá, porque, até então, ele usava apenas um pré-histórico sextante para determinar sua posição no mar – e raramente errava, apesar da dificuldade em mirar o horizonte a bordo de um barco bem menor do que as ondas.
Na Polinésia Francesa, Serge recebeu a visita de um de seus irmãos, mas como era impossível dormirem os dois no barco (e os parcos recursos da viagem não permitiam excessos, como quartos de hotéis), a solução foi alugar um carro e transformá-lo, também, em dormitório. Nenhum problema para quem se habituara a viver em espaços bem menores.
Já, na escala seguinte, nas Ilhas Cook, Serge foi recebido com certa preocupação. Dois anos antes, passara por ali o americano Bill Dunlop a bordo de um barco ainda menor que o seu, o Winds Will, de apenas 2,7 metros de comprimento. Com ele, Dunlop pretendia bater o recorde da travessia do Pacífico com o menor dos barcos, depois de já ter feito o mesmo no Atlântico. Mas não conseguiu. Partiu de lá e nunca mais foi visto.
Já Serge seguiu em frente, sem maiores problemas. Até que, três anos depois de ter partido de Brisbane com o firme objetivo de rodear o mundo com um barco menor que um automóvel, retornou à mesma cidade com o globo inteiro no currículo e o recorde da circum-navegação do planeta com o menor barco de todos os tempos garantido, o que perdura até hoje.
Na Austrália, Serge foi recebido como uma espécie de herói e o seu minúsculo barco levado para o museu de Queensland, bem perto de onde ele havia partido para a histórica travessia, e não muito distante onde ele vive até hoje. E ainda navegando. Mas, agora, só com barcos de tamanho convencional. Seu incrível recorde, no entanto, permanece.
Foto Reprodução/Serge Testa

Fonte:   https://historiasdomar.com/a-grande-volta-ao-mundo-com-o-menor-dos-barcos/




sexta-feira, 15 de setembro de 2017

DOS ALPES A SERRA DO MAR Por Sensei Aldo Lubes

DOS ALPES A SERRA DO MAR
Atendendo ao pedido do Sr. Edson Capinski, Diretor Administrativo da Federação Paranaense de Karatê, da qual sou Presidente, estou fazendo um relato de minha vida desde que cheguei ao Brasil. Na verdade, o pedido foi feito pelo Sr. Guy Sahry, faixa preta de karatê shotokan, com o qual nós e filiados de nossa Federação tivemos a oportunidade de fazer um intercambio técnico de karatê no ano de 2007, aqui em Curitiba, capital do Estado do Paraná. O curso foi muito bom, visto a capacidade técnica e didática do Professor Guy, que é francês e atualmente vive em Paris.
Não sei dizer se este relato poderá ajudar em alguma coisa, além de que nunca me passou pela cabeça fazer uma auto-biografia, naturalmente, meu relato estará de acordo com o questionário que me foi apresentado e também no que diz respeito a minha vida dentro das artes marciais; primeiro o Judô e depois o Karatê. Talvez eu me torne um pouco monótono e repetitivo, desculpem-me, pois não sou escritor. No entanto, tentarei ser o mais claro e objetivo possível.
O meu nome completo é Lubes Lamarca Aldo Nicola Michele (o Lamarca é sobrenome de minha mãe). Aqui, sou conhecido como Aldo Lubes. Nascido no dia 09 de maio de 1939 em Turim (Torino), em uma cidade ao norte da Itália, capital do Piemonte (aos Pés dos montes); os Alpes. Meu pai se chamava Giuseppe Lubes e minha mãe Rosa Lamarca. Alguns meses após meu nascimento iniciou-se a segunda guerra mundial, fato que influenciou muito em minha formação, pois minha infância e desenvolvimento ocorreram neste período.
DOS ALPES A SERRA DO MAR
Questionário:
1 – O Senhor sente saudades da Itália, dos costumes, do povo?
Neste ano de 2008 (janeiro), faz 50 anos que cheguei ao Brasil. Voltei à Itália para rever os meus familiares cinco (5) vezes, mais precisamente em 1972, 1982, l984, 1990 e 1994 e sempre fiquei na casa da minha irmã, juntamente com a nossa mãe e meu irmão mais velho. Minha mãe e meu irmão já são falecidos, mas ainda tenho minha irmã que continua morando em Torino e alguns sobrinhos e tios. Mesmo depois de cinqüenta anos sinto saudades da Itália, principalmente do lugar onde nasci; dos meus parentes e principalmente da minha irmã, cujo nome é Itália. Quanto aos costumes italianos, eles são muito bom por causa das tradições de cada região, tradições estas seculares, e o povo se comporta conforme suas tradições. Creio que deve ser assim também na França e em qualquer outro lugar do mundo. Lembro de um ditado italiano que diz: ”País que você vai, costumes que você encontra”, e a eles deve se adaptar e é o que fiz aqui no Brasil. Mas, a Itália está sempre em meu coração.
2 – Como foi chegar ao Brasil depois da Segunda Guerra Mundial? Houveram muitas dificuldades? Quais?
Cheguei ao Brasil no fim de janeiro de 1958, em pleno verão, na cidade do Rio de Janeiro. Tinha embarcado em um navio chamado Andréa Costa que saiu do porto de Genova. Nesse período estava muito frio em Torino em decorrência das nevascas que haviam acontecido alguns dias antes. Lembro que era madrugada e fomos a pé até a estação para pegar o trem que me levaria para a cidade de Genova, quem me acompanhava era minha mãe, meu irmão e minha irmã. O nevoeiro era muito intenso e a visão não alcançava além de 4 ou 5 metros, mas chegamos na estação no horário. Quando chegamos em Genova, eu me encontrava muito tranqüilo, afinal, tinham me dito que ficaria somente um ano no Brasil para ajudar o filho do marido da minha mãe e aqui devo fazer um esclarecimento. Meu pai faleceu em um bombardeio aéreo em 1940 quando eu tinha um ano de idade, deixando minha mãe viúva e com três filhos, Nicolino com 14 anos, Itália com 10 e eu com um ano de idade. Todo europeu que viveu durante o conflito da Segunda Guerra Mundial pode imaginar as dificuldades que minha mãe e meus irmãos passaram para sobreviver a guerra. Eu creio que não senti muito, pois era muito pequeno e eles faziam de tudo para que nada me faltasse. Além de que, não tinha nenhuma outra experiência de vida e achava que a guerra era o dia a dia do mundo; as dificulades eram fatos normais e eu aceitava tudo de bom grado. Em 1948 minha mãe casou-se com um primo dela, originário da mesma cidade dela, também viúvo e com três filhos. Foram aí que as coisas começaram a se complicar, pois a família aumentou e o meu padrasto achava que todos deveriam contribuir para ganhar o pão de cada dia. Assim, aos 10 anos de idade comecei a trabalhar como ajudante de qualquer coisa que aparecesse (oficinas mecânicas, carpintaria, bares, restaurantes, etc.). Enquanto isso, os anos passaram, meu irmão casou, minha irmã também e assim as filhas do meu padrasto. O filho de meu padrasto tinha emigrado para o Brasil já fazia alguns anos, e juntamente com outro italiano, tinha aberto um bar noturno no Rio de Janeiro, no bairro de Copacabana. De repente, eu estava sozinho morando com a minha mãe e o seu marido. Então, meu padrasto me convenceu a ir para o Brasil para ajudar o seu filho, e lá eu deveria permanecer um ano e voltaria para a Itália. Desta forma, vim para o Brasil, mas as coisas não eram bem assim, pois o filho de meu padrasto não era como eu imaginava e não precisava de minha ajuda. De fato que, tudo não passou de um acordo entre ele e seu pai para eu sair de casa, pois tinha me tornado um peso. Ele também não estava a fim de se responsabilizar por mim, e então tive de me virar sozinho encontrando trabalho em um restaurante como ajudante de doze garçons. Passado seis meses, encontrei o filho do meu padrasto em uma Rua de Copacabana; ele me perguntou como estava. Disse-lhe que estava muito bem, trabalhando e morando num quartinho de empregada em uma casa de família, e que logo, economizando, devolveria o dinheiro que tinha gasto para pagar a minha passagem. Ele me respondeu que afinal eu estava tranqüilo porque eu sabia que se me acontecesse alguma coisa, ele, como responsável de minha vinda ao Brasil, deveria resolver. Para não criar-lhe nenhum tipo de responsabilidade, fiz a minha mala e me mudei para a cidade de São Paulo sem conhecer ninguém e sem falar o idioma Português, mas aí a estória é outra, além de que há muitas coisas para contar. Enfim, esse foi o motivo pelo qual vim para o Brasil.
Em 1972, depois de 14 anos, voltei à Itália. O marido de minha mãe tinha falecido e minha irmã me escreveu que somente o meu retorno poderia fazer com que ela se recuperasse da decepção do matrimônio e da perda do marido, que no testamento lhe deixou como usufruto o pequeno apartamento que tinham adquirido com a herança que minha mãe tinha recebido na morte da mãe dela (minha avô) e na morte dela seria dividido com os filhos dele. Isso deixou minha mãe transtornada e decepcionada.
Fiquei três meses na Itália morando com a minha mãe e quando vi que ela tinha se recuperado retornei para o Brasil. Na Itália não tinha mais espaço para mim; encontrei alguns amigos, mas todos já estavam estabelecidos e outros tinham se mudado. A rua onde tinha passado a minha infância brincando com os meus amigos tinha mudado; haviam asfaltado, pois antes era de pedra polida e também havia prédios que não existiam na época. O choque foi muito grande visto que eu não havia acompanhado estas mudanças, e nas minhas lembranças tudo era imutável. Quando vi aquilo a decepção foi muito grande. No Brasil eu já tinha construído alguma coisa, como o Dojô que abri em l965, e que tinha deixado arrendado, filhos e muitos amigos que tinha feito através do Judô e Karatê.
3 – As Artes Marciais lhe ajudaram em superar as dificuldades?
As artes marciais me ajudaram muito e, como disse anteriormente, as dificuldades nunca foram problemas para mim, mas somente desafios que eu tinha que superar, afinal, só podia contar comigo mesmo. Ao retornar ao Brasil me dediquei aos estudos e conclui o curso de Educação Física. As minhas participações nos campeonatos foi um fator positivo que me fortaleceu, além de que, aprendi a me conhecer melhor, mantendo mais serenidade, tendo paciência nas derrotas e humildade nas vitórias. A relatividade das derrotas e vitórias me manteve sempre lúcido, coerente e inteiro.
4 – Como foi em 1964 seu relacionamento com Minoru Kamada?
Quando era garoto sempre tive muita disposição para as lutas, meu tio (zio Michele), irmão da minha mãe, era sócio do Partido Comunista Italiano, que tinha um centro esportivo. Ele me levava para participar dos treinamentos de boxe e da luta japonesa, que assim se chamava naquela época. Naquela época, eu devia ter mais ou menos de 13 para 14 anos e gostava muito de ir lá. Quando cheguei ao Brasil, não encontrei nenhum centro esportivo público, só havia clubes sociais e para ser sócio tinha que ter uma renda considerável além de que devia ser indicado por outro sócio. Nessa época eu estava morando em São Paulo e trabalhava em um restaurante italiano como garçom. Um colega de trabalho me levou em uma academia de judô, me matriculei e continuei os treinamentos nesta arte. Em 1960 vim para Curitiba como gerente de um restaurante italiano. Queria continuar com os meus treinamentos de Judô e então conheci o Sensei Minoru Kamada, 7º. dan de judô do Instituto Kodokan de Tokyo. Além do judô, o Sensei conhecia várias outras artes marciais japonesas. Sensei Kamada havia chegado ao Brasil mais ou menos no mesmo período em que eu e tinha muita dificuldade com o português. Eu, no entanto, tinha um pouco menos por tratar-se de uma língua latina, mas assim mesmo não conseguia me expressar corretamente.
O Dojô de sensei Kamada era freqüentado por muitos alunos de origem japonesa e me parecia haver certa disposição por parte deles em lutar comigo, como se eles quisessem ver se eu agüentava as surras que me davam para que eu desistisse de treinar, pois todos eram veteranos e graduados faixas pretas do nidan ao sandan. Quando o Kamada sensei foi contratado para ministrar aulas neste Dojô eles já eram os instrutores. Mas, isso foi muito bom para mim, afinal, não seria por causa de algumas quedas que eu iria desistir, pelo contrário, aquilo era como um desafio e me fortalecia cada vez mais. Sensei Kamada simpatizou comigo pelo meu empenho, talvez tenha sido também por ser novo no Brasil e por termos passado, e ainda passávamos pelas mesmas dificuldades de adaptação. Como meus horários no restaurante não condiziam com os horários noturnos do Dojô, eu ia de tarde e encontrava o sensei muitas vezes sozinho. Ele ficava me explicando a divisão do judô até o Atemiwaza e me dizia que nesta técnica deveria aprender um pouco de Karatê. Um sábado à tarde, dia que encontrava todos os judocas veteranos, o meu judô funcionou; as centenas de uchikomi que tinha feito sob a orientação do sensei deram resultado. E assim, convivemos junto por quatro (4) anos; melhorando o nosso português e nos entendendo melhor. O Sensei tinha servido como oficial na 2ª. Guerra Mundial, precisamente na Manchúria e em uma conversa de Bar eu lhe disse que não tinha conhecido meu pai, pois tinha morrido em um bombardeiro aéreo sobre a cidade de Torino, mas se o tivesse conhecido gostaria que fosse como ele. Em 1964 ia acontecer as Olimpíadas de Tokyo e o Judô se apresentaria como esporte olímpico, então, Sensei Kamada resolveu voltar para o Japão para ver o Judô nos jogos e também porque as coisas não estavam muito bem financeiramente para ele aqui, além de que, tinha saudades da família. No último dia de treino, ao terminar a aula, Sensei Kamada, após a saudação tradicional, pediu a todos os alunos que aguardassem em Zarei e foi trocar de roupa; ao retornar, veio com o seu kimono (judogui) dobrado e disse alguma coisa em japonês para os meus colegas nisseis que anuirão com a cabeça e emitiram vários AI,AI,AI, que significava SIM em japonês, então me chamou e me deu o seu kimono, fiquei surpreso e comovido e ao mesmo tempo orgulhoso, mais de que quando tinha conquistado o meu primeiro dan de faixa preta. Com a partida do Sensei o dojô fechou e ficamos sem lugar para treinar, o kimono que eu tinha recebido estava pendurado no armário e quando olhava para ele, parecia que era o Sensei me olhando e me incitando a usá-lo. Até que tomei a decisão de abrir um Dojô e convidei dois SEMPAI meus para serem os professores, pois a minha graduação era muito pequena (SHODAN), eles eram SANDAN e tinham sido alunos do Kamada Sensei, e assim, em junho de 1965 inauguramos o Dojô Kodokan em homenagem ao Sensei Minoru Kamada. O kimono que me foi dado pelo Sensei usei por muitos anos, mas, quando cheguei ao 4º. dan não tinha mais condições de ser usado de tantos remendos feitos nos rasgos que aconteciam nos treinamentos e nas competições. Então, o encostei e hoje se encontra pendurado na sala do meu Dojô, uma relíquia viva da presença do Sensei Kamada.
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5 – E Juichi Sagara, seu professor por quase 20 anos, o que ele mais marcou no Senhor?
Um mês após ter aberto o Dojô Kodokan conheci um rapaz que vinha de São Paulo e estava cursando medicina na Universidade Federal do Paraná, era faixa marrom de karatê Shotokan e tinha sido aluno de um professor japonês que ficou aqui no Brasil por algum tempo e depois foi para a Inglaterra, o nome dele era HARADA (aluno de Hiroshi Noguchi). Assim, abrimos uma seção de Karatê no Dojô, orientada pelo Celso Charuri, era este o nome do faixa marrom. O meu interesse principal era aperfeiçoar as técnicas de atemi waza do judô. Celso era muito bom, mas, por ser faixa marrom, não podia graduar ninguém, o que para mim não tinha importância. O Kihon era muito duro e extenuante e por quatro anos fiquei treinando com o Celso e sempre usando a faixa branca, até que o Celso concluiu o curso de medicina e retornou para São Paulo. Em um campeonato de judô, realizado em Curitiba em 1969, em que eu participei como ”civil contra as forcas armadas”, conheci o Sensei Juichi Sagara, que tinha vindo neste campeonato para fazer uma demonstração de Karatê, juntamente com a equipe dele. Após o campeonato lhe pedi para ser seu aluno. Visto isso, me fez fazer uma prova com a sua equipe, a qual ficou satisfeita e fui aprovado da faixa braça para faixa marrom. Em 1970, fui a São Paulo para assistir o 1º. Campeonato Paulista de Karatê, a categoria era Open Shobu Ippon. Eu tinha ido para assistir, pois nos sabia o regulamento, mas um dos assistentes do Sensei Sagara me desafiou, dizendo que se eu era faixa marrom, deveria participar. Então, deram-me um kimono. Olhando as primeiras lutas, percebi que os árbitros, todos japoneses, eram muito condescendentes com as faltas cometidas pelos atletas, não se usava nenhuma proteção e o toque de mão ou de pé não era moderado, pelo contrário. Hoje em dia, com o regulamento da (Federação Mundial de Karatê) W.K.F., todos os atletas daquele evento e eu incluso, e também de todos os outros campeonatos que participei, seríamos desclassificados. O regulamento que usavam era da I.A.K.F., que era integrado somente por professores do estilo Shoto-kan, e eu dancei conforme a música. Naquele dia, fui vice-campeão em kumitê e também vice em kata. Sagara sensei ficou satisfeito, pois tinha participado pelo seu Dojô, e desta forma, começou a minha caminhada no karatê-dô. A cada quinze (15) dias ia a São Paulo, viajando de noite e chegando de manhã (Curitiba –São Paulo, mais ou menos 400 km.), treinava o dia inteiro; levava comigo dois kimonos, pois suava demais e precisava trocá-lo; a noite, exausto e com os kimonos ensopados de suor, voltava à Curitiba. O meu relacionamento com o Sagara Sensei era muito bom; ele era uma pessoa muito boa e compreensiva e sempre me acolheu na sua casa, tratando-me como um hóspede. O nosso relacionamento se prolongou por quase 20 anos. Depois, as minhas atividades administrativas me obrigaram a me afastar da convivência com ele, pois tinham me convidado para ser o Diretor Técnico da Confederação Brasileira de Karatê, e para que não houvesse comentários de preferência devido a rivalidade que havia entre os estilos de Karatê. Parei de ir treinar no seu Dojô e a nossa amizade esfriou um pouco, mas sempre mantivemos uma atitude de respeito um com o outro.
6 – O Senhor foi Diretor Técnico da Confederação Brasileira de Karatê (C.B.K.) durante muitos anos. Quando ocupava este posto, qual foi sua maior prioridade em relação ao Karatê do Brasil?
Aqui no Brasil, por causa da grande imigração japonesa, o intercâmbio técnico cultural do karatê ocorreu graças a intervenção da ligação dos emigrantes praticantes de karatê com o seu pais de origem, isso oconteceu com todos os estilos aqui praticados. No passado houve um grande vai e vem de professores japoneses de vários estilos vir ao Brasil ministrar cursos de karatê. Eu, por ser doutrinado dentro do estilo Shotokan, só participava dos cursos ministrados por professores desse estilo, tais como: Nakayama, Kanazawa, Assai, Okazaki, Yahara, Ossaka, Yokomichi e tantos outros, cursos muito válidos na ótica do karatê marcial, mas a minha visão ampliou quando fui para a Itália e tive a oportunidade de treinar, como visitante, no Dojô do professor Shirai em Milão e em um Dojô de Turim que freqüentava sempre que ia para a Itália, cujo nome era Doju-kay, onde tive a oportunidade de conhecer atletas de karate muito bons. Sempre que tinha possibilidades voltava à Itália para rever meus familiares e levava comigo o kimono para treinar. Isso acontecia mais ou menos a cada 4 anos. No Dojô Doju-kay os professores que eu encontrava eram sempre diferentes, mas todos com uma bagagem técnica muito boa e similar. Lembro os nomes dos instrutores da Doju-kai, professores como Fassoni que ouvi dizer, mas não tenho certeza, faleceu em um acidente automobilístico, Nieddu, Zava, que na época fizeram parte da seleção italiana. Recordo que o último treino foi com os professores, Napolitano e Rizzoli. Tais treinamentos foram bom suporte para a minha aprendizagem do karatê. Todos com uma escola de karatê semelhante, mas com o estilo pessoal distinto, o que não ocorre aqui no Brasil, em que predomina o talento pessoal e não há uma escola comum a todos.
A vinda ao Brasil para ministrar cursos de karatê do professor Antonio Oliva (Espanha) e professor Rafael Ortega (França), deu uma clareada sobre a visão do Karatê Esportivo Internacional, mas isto foi muito pouco, e não se deu o devido valor aos cursos ministrados, especialmente pelos atletas, que já tinham participado de eventos internacionais, dizendo que o que tinha sido ministrado era já do conhecimento deles. Não entenderam que os professores Oliva e Ortega só indicaram o caminho e que nos tínhamos que fazer este caminho trilhando-o. Os cursos tiveram um desenvolvimento bom no inicio, mas depois, retornou-se a seguir a escola dos sucessos individuais locais, que não é uma escola padrão. Essa é a minha opinião!
Em 1983 esteve aqui no Brasil o Professor Takagi, que era o secretário geral da W.U.K.O.; ainda não existia a Confederação Brasileira de Karatê e o karatê era um Departamento Especial da Confederação Brasileira de Pugilismo, que por ser a mais antiga Confederação de lutas do Brasil reunia todas as Artes de lutas e todas deviam se afiliar a ela até conseguirem a emancipação se assim o quisessem e que aconteceu com o Karatê em 1987. Mas, retornando ao Professor Takagi, um grande professor que foi aluno do professor Funakoshi, e professor do Nishiyama e Nakayama, expoentes do karatê Shotokan. A Confederação de Pugilismo marcou uma reunião em São Paulo com todos os professores representantes dos estilos de karatê praticados aqui no Brasil e com os dirigentes das Federações a ela filiadas, eu estava presente como presidente da Federação do Paraná. O professor Takagi pediu que o Brasil se desfilasse da I.A.K.F. e fizesse a sua filiação a W.U.K.O, para dar força ao trabalho de uma organização que fundaria a Federação Mundial, sendo que o Brasil participaria de Campeonatos Internacionais por ela organizados, e isto fortaleceria o pedido feito ao C.O.I. de participar como esporte Olímpico. Lembro que perguntei se nós podíamos estar filados com as duas organizações, mas ele foi categórico dizendo que tanto Nishiyama quanto Nakayama eram contrários ao ingresso do karatê como esporte olímpico e nós tínhamos de escolher um ou outro. A maioria escolheu a W.U.K.O. e assim ocorreu o desligamento da I.A.K.F e O Brasil começou a participar nos Campeonato Internacionais organizados pela W.U.K.O. Eu tinha ido para a Itália em 1982 e estava mais ou menos ao par da situação do karatê fora do Brasil, coisa que os nossos professores não divulgavam. Em 1986 fui ao Rio de Janeiro onde se encontrava a sede da Confederação Brasileira de Pugilismo e pedi para realizar o Campeonato Brasileiro de Karatê e um Torneio Nacional em homenagem a um grande professor do estado da Bahia, falecido prematuramente em um acidente automobilístico, professor Denílson Caribe e utilizando o novo regulamento que era agora shobu-sanbon. O Torneio era aberto e participou um número muito grande de atletas vindo de todas as partes do Brasil. Os atletas foram divididos em três categorias e isto serviu também como seletiva para os atletas brasileiros participarem do Campeonato Mundial que se realizaria na Austrália. Naquele dia, 15 de agosto de 1986, Curitiba foi a capital do Karatê Nacional, utilizando o novo regulamento de arbitragem. O senhor Fauzi Abdala João, que se tornaria o vice-presidente da C.B.K. e que já era um esperto articulador político, na época era vice-presidente da Confederação de Pugilismo e ambicionava ser o presidente da futura Confederação Brasileira de Karatê, mas eu na época não percebia isso, também porque o meu interesse era o esporte karatê. Foi uma boa lição para mim para discernir quem estava realmente interessado no desenvolvimento do karatê de forma educativa e esportiva e quem estava interessado mais em um negócio de aproveitamento pessoal e regional. Nessa época, o senhor Edgar hoje presidente da C.B.K., ainda não existia, mas estava já de tocaia, esperando para dar o bote. Lembro que naquele dia os representantes do estilo Wadô-Ryu queriam que o filho do Mestre Otsuka, que estava no Brasil para dar cursos, pudesse se apresentar e dar uma demonstração de karatê Wadô, aproveitando-se do grande número de participante e público para fazerem a divulgação do Karatê deles (propaganda);não permiti por achar que aquele não era o momento, pois estávamos trabalhando pela união de todo o karatê e não a evidência de um único estilo em um Campeonato Nacional. Esta minha atitude me criou alguns problemas de relacionamento com estes professores, mas nada que pudesse mudar o meu ponto de vista. Com a realização deste campeonato e o seu sucesso começaram as articulações para fundar a C.BK. e em 1987 se fundou a diretoria provisória da Confederação Brasileira de Karatê e que deveria trabalhar para a fundação definitiva da entidade. Eu fazia parte da diretoria provisória como tesoureiro (sem finanças), e o Fauzi como presidente. Quando da eleição definitiva, concorreu o Fauzi e o Marcelo Arantes, um médico de Belo-Horizonte/Minas Gerais, praticante de karatê Goju-Ryu. A votação foi aberta e o Marcelo Arantes ganhou com a diferença de um voto, o meu voto que foi decisivo, pois fui o último a votar. Acredito que o Fauzi nunca esqueceu disto. Passado quatro (4) anos e esgotado o mandato do senhor Marcelo Arantes, primeiro presidente da C.B.K., houve uma nova eleição, em que o Senhor Edgar Ferraz de Oliveira, da Bahia e o Senhor Fauzi Abdala João, também da Bahia eram candidatos. Pela insistência de um ex-dirigente da Federação Paulista, aceitei em fazer chapa com os dois no cargo de Diretor Técnico, digo insistência porque eu não queria e indiquei outra pessoa, pois não gostava muito dos candidatos pelas atitudes arrogantes e sem humildade que tinham, mas as insistências foram tantas que acabei aceitando. Nas poucas vezes que tinha encontrado o Senhor Edgar, ele como presidente da Federação Paulista e eu como presidente da Federação Paranaense, nos campeonatos que participavam as nossas entidades, já tinha notado que era uma pessoa com um discurso levado mais para os negócios e não tanto para o esporte, e depois, havia muitos comentários sobre as noitadas etílicas que ele fazia, e isso não era do meu agrado. Mas, no fundo eu não o conhecia muito e não queria fazer idéias preconcebidas a seu respeito. Agora, com o Senhor Fauzi devia ter cuidado, sabia do rancor e espírito vingativo que o seu coração cultivava. O Fauzi nunca praticou karatê, a Federação Bahiana, da qual foi o fundador, como homenagem, o graduaram com o 8º. dan de karatê, sem nunca ter treinado karatê na vida, também atleticamente não tinha condições de praticar nenhum tipo de esporte, mas gostava de se envolver politicamente com as artes marciais. Lembro-me que uma vez me disse, dando risada, “eu nunca treinei karatê, mas mando no karatê brasileiro com a minha caneta”. Por causa das insistências dos meus amigos que diziam que a minha presença seria um ponto de equilíbrio na balança, acabei aceitando em trabalhar com os dois. A dupla Edgar e Fauzi foi eleita e eu os acompanhei como Diretor Técnico. A minha primeira iniciativa foi sugerir uma seletiva para formar a seleção brasileira e que deveria ser aberta para todo o Brasil, visto um Campeonato Sul-Americano que iria ser realizado no Brasil, exatamente em São Paulo. Muitos atletas de várias regiões do Brasil compareceram a seletiva que foi marcada em uma cidade do interior de Minas Gerais (São Lourenço), uma pequena cidade de difícil acesso para o resto do Brasil, mas, assim mesmo, compareceu um enorme número de candidatos, viajando até dias para estarem presentes ao encontro. Mas, o conselho de treinadores, viciados em escolher os atletas que eles achavam que tinham as melhores condições técnicas e, contrários em realizar a seletiva com medo de que os seus pupilos não fossem escolhidos, boicotaram a seletiva dizendo que se não se formasse a seleção com os atletas por eles indicados não participariam do Sul-Americano. Era o primeiro evento em que o Senhor Edgar, como presidente da Confederação, estaria realizando a nível Internacional, com isso, ele se assustou e pensando que sem o apoio dos técnicos o Brasil não venceria a competição, o que seria ruim para a sua imagem e contrariando o meu ponto de vista, que era favorável a realização da seletiva em vista do grande número de candidatos que tinham comparecido e em respeito a eles, pois eu achava que devíamos realizar sem medo da chantagem dos técnicos. No entanto, com uma atitude covarde o Senhor Edgar concordou com os técnicos e a seletiva não se realizou. Muitos achavam que eu iria desistir de ser o Diretor Técnico por causa daquele entrave, mas não, aquilo foi o ponto que me deu esclarecimento da necessidade de continuar para colaborar com a justiça dentro do karatê e tentar mudar aquele tipo de atitude. Em 1992 resolvemos fazer um encontro chamado “Torneio dos Campeões Master” que se realizou na cidade de São Paulo e era exclusivo para atletas que tivessem sido campeões nos seus estados e tivessem mais de 35 anos. Os estados que participaram foram: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Brasília e Paraná, utilizando o regulamento da I.A.K.F. no shobu ippon e W.U.K.O. no shobu sanbon, categoria Open. Eu tinha 53 anos e pensei então em participar para ganhar o respeito dos mais veteranos no meu cargo de Diretor Técnico da C.B.K., e sozinho representei o meu estado (Paraná). Meu filho Daniel que tinha sido campeão Brasileiro e tinha participado no Mundial do México foi o meu técnico. O Edgar era bem mais novo do que eu e dizia que tinha treinado com o Professor Sagara, apesar de que nos 20 anos em que treinei lá nunca o vi nas minhas idas a São Paulo, além de que também se vangloriava de ter uma técnica superior, especialmente no mawashi-gueri. Era só conversa, porque do dizer ao fazer tem uma diferença enorme, ainda mais ainda quando há um adversário na frente querendo fazer a mesma coisa. Enfim, Edgar não participou e manteve-se na postura de presidente, que era mais interessante e seguro para ele. A competição foi muito boa, salvo a arbitragem equivocada de um professor japonês que tinha vindo dos Estados Unidos para dar um curso de Shito-ryu, de nome Myky, do qual tenho uma péssima lembrança. Para mim o resultado foi bom, pois ganhei o Kata, fui Campeão no shobu-sanbon e 3º. lugar no shobu-ippon, classifiquei o meu estado em 3º. lugar sozinho. Mas, o melhor resultado foi que ganhei o respeito dos karatecas mais veteranos e que ainda não me conheciam, a aceitação deles me ajudou muito em meu trabalho. Isso, acredito, doeu profundamente para a dupla baiana. A Bahia é um estado maravilhoso, com ótimos karatecas, pena que a perseguição que o Senhor Fauzi fez para impor o seu ponto de vista com a força da caneta fez com que muitos se afastassem. Muitos foram os comentários de que “o cotovelo” dos dois doeu muito com o meu bom resultado no campeonato. Mas, eu não percebia o ciúme, estava empenhado em fazer um bom trabalho como Diretor Técnico. O que relatei acima é para se entender como começou a estrutura do Karatê Brasileiro; dividido e com pouca união. Nas minhas andanças pelo Brasil, como atleta e técnico da seleção paranaense, pude verificar que a maior dificuldade no Brasil era o seu tamanho, um país continental, com culturas e tradições diferentes em cada estado. A primeira sugestão que dei foi para que se realizassem Campeonatos Regionais, visto as grandes distâncias que se encontravam as capitais de cada estado e que impedia a participação de muitos praticantes de karatê pelo alto custo dos deslocamentos, que dependendo do lugar de realização do campeonato levavam até dias (ônibus), para comparecer ao encontro, sendo que muitos nem viajavam por motivos econômicos. Deve-se entender que o karatê é puramente amador, só se pratica e só se participa de competições por o amor, (AMA-DOR), a maioria dos atletas participa às próprias custas ou com ajuda do “PAI-TROCÍNIO”, muitas vezes são atletas com emprego e que não conseguem licença para se afastarem do trabalho ou ainda estudantes que não podem se ausentar do estudo com o risco de serem reprovados. Então, a única maneira seria a de dividir o Brasil em quatro regiões: Norte, Nordeste, Centro e Sul, adotando o sistema de eliminatória dupla, em que o atleta só seria eliminado quando fosse derrotado duas vezes. Este tipo de sistema foi instituído para compensar o desgaste das grandes distâncias. Os nossos árbitros não estavam habituados com o novo regulamento e cada um arbitrava com a experiência pessoal adquirida no regulamento do shobu-ippon; se o atleta fosse eliminado na primeira luta por algum erro do árbitro era uma cascata de reclamações, então a eliminatória dupla era um paliativo com a segunda chance que o atleta recebia. Isso satisfazia os participantes e graças a este sistema as reclamações diminuíram e muitos atletas tiveram a chance de serem recuperados na repescagem, tornando-se até campeões. Desta forma, o número de atletas participantes triplicou e também o trabalho. A minha participação foi intensa, pois deslocava-me de sul a norte do Brasil e assim acabei conhecendo todos os cantos deste grande pais. As atividades aumentaram ainda mais com a inclusão das categorias menores (mirim, infantil, infanto-juvenil e juvenil). Mas, o mais importante era que todo o Brasil estava participando e isso foi muito gratificante. Por alguns anos este sistema foi adotado e deu um bom resultado. Mas, a presidência da CBK, não estava satisfeita porque tudo isto implicava em gastos, e tais gastos não eram “bom para o negócio”, filosofia essa por eles adotada, primeiro os negócios. Com o aumento do numero de participante, categorias de peso e classes, o número das medalhas tinha triplicado, apesar de que os participantes pagavam e pagam as próprias despesas e mais a taxa de competição, e o estado que promove o evento paga todas as despesas de estada e alimentação de todo o staff da C.B.K. (30 pessoas), mas as despesas das medalhas, segundo eles eram grandes e então se reduziu para uma única região, ou seja, um turno único para todo o Brasil, apesar de que, a receita maior da C.B.K., não era esta, mas sim os exames de faixa. No entanto, nenhum estado sabe quantos exames são feitos anualmente no Brasil porque no relatório técnico anual o presidente não informa a assembléia. Eu mesmo, no período em que fui o diretor técnico, sempre me foi escondido o número de aprovados, vale dizer, que a taxa de exame e altíssima, e é daí que vem a maior receita da C.B.K. Todas as minhas viagens a serviço do karatê da C.B.K., tinha que financiar antecipadamente, e depois, a duras penas através de comprovantes me era feita a devolução. No início da administração Edgar \Fauzi, a C.B.K. não tinha recursos e pelos primeiros dois anos paguei do meu bolso as viagens que fiz para realizar os Regionais, creio que eles viciaram, mas quando as coisas começaram a entrar nos eixos, graças as taxas de competição, parei de usar o meu dinheiro e nem pedi de volta o que tinha gasto. No meu coração há um sentimento de dívida e gratidão com o Brasil, terra que me acolheu e onde criei os meus filhos e achava que devia retribuir da melhor maneira que me fosse possível, e é o que ainda faço hoje. Para mim, as coisas eram e são muito simples, nos devíamos fazer um trabalho honesto dando oportunidade a todos de desenvolver as suas qualidades técnicas dentro dos princípios filosóficos do karatê. Encontrei muitos professores e atletas que tinham este comportamento e isso me deu ânimo para o trabalho. O que não combinava, era a atitude dos dirigentes, a começar pela dupla da C.B.K., pois com o tempo, percebi que nenhum dos dois tinha interesse em desenvolver o karatê, mais sim, seus interesses maiores que eram a parte financeira. A cabeça pensante era o Fauzi, que chegou ao ponto de mudar os estatutos da entidade quatro vezes para atender as suas conveniências pessoais. Os estatutos eram aprovados em assembléia sem que os dirigentes das federações tivessem oportunidade de fazer uma leitura prévia; essa aprovação era sempre por aclamação e aberta em que o Senhor Fauzi usava sempre a seguinte frase: ”QUEM ESTIVER DE ACORDO FIQUE COMO ESTÁ, QUEM FOR CONTRÁRIO LEVANTE”, e imediatamente, APROVADO. Isso dito de forma autoritária, e claro que ninguém se levantava. Foi aí que percebi como agiam, pois caso alguém discordasse era marginalizado e perseguido até que abaixasse a cabeça e depois era reintegrado como se lhe estivessem fazendo um favor. Esta é a cultura do “coronelismo” que é praticado em todas as camadas sociais, herança, talvez, do período de escravidão no Brasil.
As divisões regionais tinham feito sucesso e isso durou oito anos até que o Senhor Edgar, em conluio com alguns presidentes de federações, que também tinham interesses pessoais, pois os seus Estados se encontravam no centro do Brasil, propuseram a retirada dos regionais e voltaram a fazer os campeonatos em um turno único, de preferência nos Estados centrais. Isso foi aprovado em assembléia, no entanto, deve-se entender que devido ao tamanho do Brasil, todas as assembléias são feitas na cidade de São Paulo e muitos presidentes, devido a distância e gastos não comparecem, mesmo que os assuntos sejam de interesse de seu estado, ou por entender que sabendo antecipadamente que a presença deles não alteraria o resultado deixavam e ainda deixam de comparecer. O Senhor Fauzi tinha uma penetração muito grande na região Norte-Nordeste, conseguida através de pequenos favores que ele havia feito no passado quando era vice-presidente da Pugilismo e agora como vice-presidente da C.B.K., estes favores eram cobrados, ele pedia aos presidentes das Federações procurações para poder representá-los nas assembléias, cujas procurações eram dadas as pessoas do seu grupo, que naturalmente, votavam sempre a seu favor, ainda mais que ele pedia sempre que as votações fossem abertas e usava sempre a frase ”QUEM ESTIVER DE ACORDO........................... “.Eu não podia fazer nada, não era presidente não votava, era o Diretor Técnico da entidade, no entanto, estas atitudes me desagradavam muito e que desencadearam vários atritos com os dois, visto já ter percebido qual era o esquema dos dois; não querendo mais fazer parte disso, resolvi sair, mas alguns presidentes me convenceram em continuar, dizendo-me que eu era o baluarte do karatê brasileiro. E assim, continuei, mas, esgrimindo com os dois, em contrapartida, eles deixavam a minha vida dura e faziam o possível para que eu desistisse, para que depois pudessem alegar que eu tinha abandonado o cargo e que eles não tinham culpa. Continuei segurando a peteca, como se diz aqui no Brasil. Mas, de repente aconteceu um fato novo no meu estado e a pedido dos filados tive que assumir novamente a presidência da Federação Paranaense. Na Assembléia anual de 2006, como presidente da minha federação e como manda a LEI, pedi a vista dos documentos comprobatórios dos gastos da C.B.K. E aí, iniciou-se outra batalha, negaram-se em apresentar os documentos e eu fui exonerado do cargo de Diretor Técnico. Fui processado no Tribunal de Justiça Desportiva da C.B.K. com a alegação de que a minha carta de repudio a minha exoneração foi ofensiva e então recebi uma suspensão de 180 dias, em que não poderia representar a minha Federação e nem dar aulas de karatê. O nosso advogado, que é um aluno meu faixa preta e conhece o caminho do karatê e das Leis da sociedade, Dr. Milton Miró Vernalha, entrou na justiça me defendendo e conseguindo uma liminar revertendo a situação. A C.B.K. se pronunciou dizendo que não poderíamos recorrer a justiça comum sem antes esgotar os recursos no Tribunal deles (conforme estatuto da C.B.K.,que foi elaborado pelo Senhor Fauzi), dessa forma desfiliaram a nossa Federação dos quadros da C.B.K.. Isso também foi revertido na justiça comum e fomos reintegrados em aguardo do julgamento final. Depois disso veio a BOMBA, descobrimos que o Tribunal da C.B.K. era falso, pois para aprovar o tribunal usaram assinaturas de presidentes de federação, atletas e árbitros, recolhidas, possivelmente, em alguns campeonatos e feitas montagens e mais tarde lavradas em atas, como se estas pessoas estivessem presentes no dia da assembléia da indicação dos nomes dos auditores. Descobrimos isso quando conseguimos uma cópia e verificamos os nomes, sendo que até a assinatura do meu filho e de um aluno meu constava na folha dos árbitros, claro que com a pressa de formar o Tribunal, que deveria me punir, acredito não terem percebido que constava o nome do meu filho e que a suposta reunião foi realizada em São Paulo. Naquele dia, tanto meu filho como o meu aluno se encontravam em Curitiba. Entrei em contato com os presidentes das federações comunicando este ato desonesto e que as assinaturas deles tinham sido usadas para falsificar os documentos do Tribunal, eles admitiram de não ter assinado nada no que se referia ao tribunal, mas estavam com medo das retaliações com as suas federações que com certeza viriam. Atitude essa covarde e indigna de praticantes, com um karatê verdadeiramente minúsculo, contrário ao espírito do karatê, que deve lutar em favor da justiça. Mas lembro que um jornalista esportivo norte-americano escreveu que “O ESPORTE NÃO FORMA O CARATER, MAS O REVELA”. O primeiro princípio dos lemas do karatê diz: ESFORCAR-SE PELO APRIMORAMENTO DO CARÁTER. Alguns dirigentes do karatê brasileiro nem sabem o que isso significa, salvo alguns, mas estes também demonstraram-se covardes por não reagirem aos abusos cometidos pela C.B.K. Acredito que o comportamento dos dirigentes e professores mais antigos tem uma influência muito grande na formação da juventude, mas entristece-me dizer que essas pessoas não enxergam além do seu pequeno mundo, com minúsculos sucessos obtidos através de tramas políticas; não pensam no futuro do karatê, o qual será representado por estes jovens formados dentro dos princípios educativos do karatê, mas com o péssimo exemplo dos seus dirigentes. O Karateca treina para se defender de ataques de socos e pontapés e quando ataca o faz de forma limpa, como manda o caminho do karatê, mas o karatê não ensina como se defender da falsidade de pessoas que dizem treinar essa arte marcial, mas o usam para os seus negócios escusos, aproveitando-se da inocência e fraqueza de muitos de nossos praticantes. O verdadeiro praticante de karatê que segue o “ Caminho das Mãos Limpas” não esta acostumado a esses comportamentos, pois habituado a jogar limpo, quando pego desprevenido, sai derrotado.
7 – O que o Senhor pensa da estrutura atual do Karatê na América do Sul e mais particularmente no Brasil?
O que comentei no questionário anterior já esclarece com referência a esta questão, o que deve ser feito é que é muito difícil. O perfil do dirigente deve ser o de um karateca que tenha percorrido o caminho do karatê, de forma honesta e com amor, o qual deve circundar-se de pessoas do mesmo calibre. O karateca gosta de lutar e não gosta de se envolver na política, mas se ele quiser mudar este tipo de coisas e se quiser um futuro vitorioso para os jovens karateca, deve continuar lutando. Se não pode mais fazê-lo no tatame, deve assumir uma posição política e lutar contra as injustiças, especialmente quando isso acontece dentro do mundo do Karatê. Se não o fizer haverá sempre algum “Mandraque” com um discurso muito bonito, mas no fundo querendo somente um negócio; vai mandar em você e se por acaso você for uma pessoa vaidosa, ele te prometera alguns Dans (não se surpreenda, sabemos que isso acontece) e se você aceitar, estará perdido. Na época da ditadura, fui instrutor em uma instituição militar por vários anos, corria um ditado entre eles que dizia: “O guerreiro é duro que nem macarrão, depois que entra na panela amolece”.
8 – O Senhor acredita que possa existir uma “escola brasileira” de Karatê como existe no Japão e na Europa, mais particularmente na Itália, França, Espanha e Inglaterra?
Dentro do karatê esportivo, na modalidade de kumitê, visto a mudança continua dos regulamentos de competição, pode acontecer que se desenvolva um karatê com uma escola especifica do país por causa das modalidades de luta originarias destes países. Mas, a iniciação será sempre dentro da cultura japonesa que é o país de origem do karatê - .Kihon, Kata e kumitê. Aqui no Brasil, alguns atletas treinam Capoeira que é a luta brasileira, mas não dá certo na luta de karatê. As lutas devem ser treinadas conforme o seu país de origem, devendo até se aproximar no seu modo de pensar, mas sem perder a própria identidade. Pode existir o karatê feito por brasileiros, mas não o karatê brasileiro, como não terá uma Capoeira francesa ou um Savate brasileiro.
9 – A Itália é campeã do Mundo em Kata por equipe e no individual com Luca Valdesi, o que o Senhor acha disso?
Em 1998, no Campeonato Mundial realizado aqui no Brasil, Rio de Janeiro, tive a oportunidade de conhecer o Diretor Técnico da Federação Italiana, professor Píerluigi Aschieri, que me disse que os katas na itália eram inclusos nos treinamentos de ginástica rítmica, e separados dos atletas de kumitê, parece que deu certo. Realmente os katas são muito bonitos na sua plasticidade, mas para o meu gosto, acho que perderam na marcialidade, especialmente os Bunkai, que são muito teatrais e não refletem a realidade da situação.
10 – O senhor organiza cursos?
Eu sou professor de Educação Física e hoje estou aposentado pela Universidade Federal do Paraná. Organizei muitos cursos de extensão universitária, convidando colegas meus, especialistas em várias áreas desportivas como ministrantes, especialistas em condicionamentos físicos, preparação psicológica, socorro de urgência, professores de karatê que aqui estiveram para ministrar cursos de kihon, kata, kumitê e também de arbitragem. Eu mesmo ministrei vários cursos de karatê em vários estados brasileiros, mas, principalmente, no meu estado sempre que me convidam. O meu Dojô recebe a visita de muitos praticantes de karatê, que aqui vem treinar, e que vale salientar, muitos são de estilo diverso do meu.
11 – Com a idade adquirimos sabedoria e uma visão mais justa sobre o mundo. Qual é sua opinião a este respeito, em particular no que diz respeito às artes marciais?
”Prima vivere, poi filosofare”,(antes viver, depois filosofar). Não sei se o que já vivi é suficiente para poder filosofar sobre o mundo. Mas, acredito que temos dois mundos; o nosso mundo pessoal, próprio, e o mundo que nos circunda. Sobre o meu mundo pessoal, posso interferir para ser mais feliz, pensando em valores positivos e esquecendo os pontos negativos como: a inveja e o rancor, afinal, como diz o ditado ”águas passadas não movem moinho”. No mundo exterior, o que nos circunda, pouco posso fazer, pois sou apenas um grão de areia no deserto ou ainda uma gota de água no mar. O que eu fizer mudará pouquíssimo e o mundo continuará. Mas, aqueles que no mundo exterior estão próximos de mim, talvez eu os possa influenciar com bons exemplos dentro da postura do Karatê. Assim, quando tenho a oportunidade de fazer a abertura dos campeonatos de Karatê, sempre digo aos jovens participantes que a melhor técnica para serem vencedores e aquela que eles devem cultivar, não é Tsuki ou o Keri, mas o Caráter, a Sinceridade, o respeito, a Persistência e o Autocontrole, que são os princípios do KARATE-DÔ.
As artes marciais e em particular o karatê são uma ferramenta muito boa para o aprimoramento do indivíduo; os códigos de ética dos antigos guerreiros japoneses não creio serem anacrônicos; são parecidos aos códigos dos antigos cavaleiros medievais e que ainda se cultuam na Europa nas festividades regionais. Mas porque só nas festividades? Por que não ter este comportamento no dia a dia? Este é um tipo de educação, que acredito, deve ser perpetuada com os devidos ajustes ao momento que vivemos.
12 – Na França, as promoções de graduação são disciplinadas pela Comissão Especializada de Dan e Graus equivalentes – CSDGE da Federação Francesa de Karatê e Disciplinas Associadas conforme na Lei No. 2000-627 de 6 de julho de 2000 relativa à organização e a promoção das atividades físicas e desportivas do Código do Desporto Francês. O que o Senhor acha disso?
Acho que foi uma grande conquista da Federação Francesa em conseguir que o karatê e outras disciplinas de luta tivessem o reconhecimento oficial do Código do Desporto Francês. Sinto não conhecer o código e nem a LEI para poder opinar melhor a respeito.
13 – Na França, já há 4 anos o Karatê está oficialmente aberto aos Deficientes, o Senhor pode dizer-nos se a CBK conseguiria implementar um programa assim no Brasil?
No Brasil, ocorre em alguns lugares, por iniciativa particular de alguns professores, a tentativa de ministrar aula de Karatê para deficientes da síndrome de Down, mas é algo sem acompanhamento especializado. A C.B.K. tem o interesse maior em realizar campeonatos, o que implica na cobrança das taxas de competição e registro de faixas, especialmente do grau (DAN). Apesar de que, todas estas taxas deveriam ser revertidas na organização e desenvolvimento do Karatê, mas não é o que acontece. O que podemos notar é que a CBK preocupa-se apenas com os assuntos particulares de seu presidente. Da maneira que é administrada hoje a C.B.K., não creio que este sentimento de solidariedade para as ditas pessoas especiais encontre abrigo.
14 – E o Karatê Mundial, olímpico ou não? Qual sua opinião sobre isso?
Com a fundação da Federação Mundial de Karatê (W.K.F.), o Karatê fez grandes passos pela unificação, mas as divisões ainda persistem por causa dos estilos. Cada estilo tem as suas tradições e devem ser respeitadas, mas todas têm em comum o desenvolvimento do cidadão de forma sadia, na mente e no corpo. O que divide mais o karatê e que distingue esta diversidade são os Katas, o que não ocorre com o Kumitê. O Kumitê une os karatecas, mas o Kata os divide. Campeonato de Kata em que todos os estilos se apresentam juntos não é uma forma correta de verificar qual atleta é o melhor, pois cada estilo tem conceitos diferentes de como deve ser executada uma técnica. Então, acredito que se continuar desta maneira nunca vai haver união dentro do Karatê. Assim, na minha modesta opinião acho que deveria a F.M.K. organizar os campeonatos de Kumitê e deixar de fazer os campeonatos de Kata, os quais deveriam ser organizados pelos estilos: Shotokan, Gojuryu, Wadôryu e Shitoryu. Cada um faria os seus campeonatos na ótica do seu estilo e o atleta vencedor seria o campeão Mundial ou (Municipal) do seu estilo. Não tem razão em dois atletas de estilos diversos se confrontarem para ver quem é o melhor. Mas como, se os dois usam armas diferentes. Quem sabe, assim, todos ficariam satisfeitos e acabariam as divergências.
Nos campeonatos internacionais, as disputas de kumitê por equipe são realizadas antes das disputas individuais valendo uma única medalha. Em maio do ano 2000, fui o representante do Brasil no cargo de chefe da delegação Brasileira, então, no congresso técnico argumentei que as disputas individuais deveriam acontecer primeiro, uma vez que todos os paises participantes formavam as suas equipes com os melhores atletas das categorias de peso. Acontece que nem todos os paises participam com a equipe completa; uns com três, outros com quatro e poucos com cincos. Por exemplo, naquele ano Curaçao participou com três atletas na equipe, um deles machucou e não pode mais participar das disputas individuais na categoria em que ele era o favorito, um excelente atleta negro, chamado Leite. Eu havia argumentado no dia anterior que isso podia acontecer e que devia ser evitado, pois uma medalha da Equipe vale tanto para o atleta como uma medalha conquistada no individual; representar o seu país na equipe é uma honra e o faz com orgulho, mas a medalha individual para um atleta é muito importante, além de que o país também fica prestigiado da mesma forma. Tanto o presidente da P.U.K.O, Sr. Millerson, como também o Diretor de árbitros, Sr.Julius Thires, disseram-me que concordavam comigo, mas este era o regulamento da F.M.K., e eles não podiam mudá-lo. Creio que um regulamento é feito de forma genérica e deveria, dentro do possível, ter uma certa flexibilidade, conforme a realidade do lugar e com a concordância da maioria. Fique claro que não estou me referindo ao regulamento de arbitragem, mas sim a organização da competição. O Sr. Thires, que era naquele dia o diretor da competição, não queria que os técnicos estivessem ao lado das mesas de controle acompanhando os seus atletas porque eles interfeririam no julgamento dos árbitros e incentivariam em voz alta aos seus atletas; o que é proibido no regulamento de competição por tirar a tranqüilidade do árbitro no seu julgamento. O que eu concordo com o regulamente nesse tipo de proibição. No entanto, argumentei que se o regulamento fosse infringido deveria se punir o infrator e não proibir a entrada dos técnicos, porque desta forma a disciplina e o respeito ao regulamento nunca seria alcançado. A maioria concordou comigo e os técnicos puderam acompanhar seus atletas. Todos os técnicos tiveram um comportamento correto; claro que era com o receio da punição que seria revertida contra o seu atleta. O arbitro não deve ser rigoroso nem condescendente; ele deve ser Justo, doa a quem doer; deve ser corajoso mesmo que isso lhe provoque inimizades. Mas, que amigos são estes que te oferecem amizade se você os favorece? Assim, é melhor ter inimigos; com eles se aprende mais. Um ditado italiano diz: ”MUITOS INIMIGOS, MUITA HONRA”; se ninguém fala de você, ou dizem que você é um sujeito bonzinho, é porque você não existe, pouca interferência você faz no progresso das coisas. Deve-se encarar o inimigo como instrutor; com ele você aprende. O amigo não te critica, ele gosta de você, mesmo com as tuas falhas, este é o amigo e deve ser mantido bem perto do coração. Mas, pensar com o coração não ajuda o desenvolvimento de uma organização.
O Karatê olímpico é o sonho de todo karateca que tenha sido atleta e daqueles que ainda o são, mas é um assunto muito complexo. Eu acho que os Mestres representantes dos estilos estão equivocados com a perda da marcialidade do karatê ao se tornar mais um esporte olímpico. Visto os regulamentos esportivos da modalidade de Kumitê, vemos que muitas técnicas, pela sua periculosidade, não são permitidas. Então, nos Dojôs continuar-se-á a ministrar o Karatê marcial e nenhum estilo será afetado pela inclusão do Karatê como esporte olímpico, pelo contrário, eu creio que o número de adeptos aumentará por ser os Jogos Olímpicos uma vitrina mundial do desporto. Agora, lutas nas Olimpíadas já existem muitas, então, o Karatê deveria se apresentar com um regulamento diferente. E os pensadores da F.M.K. devem ter o cuidado de não apresentar mais uma luta. O Kata não creio que será aceito, apesar de que, pode vir a servir como abertura, mas não como disputa. Já dei a minha opinião a respeito e reafirmo o que acho, é de interesse dos estilos. O Kumitê, em minha opinião, deveria se apresentar por Equipe e não individual. As outras lutas marciais já se apresentam individualmente, claro que no individual o número de medalhas é maior, mas nas lutas de kumitê por equipe as lutas são individuais; em número de cinco no masculino e três no feminino. Como fazer para aumentar o numero de medalhas? Vamos supor que em uma disputa final por Equipe o resultado seja de três a dois, quem teve três vitórias será a equipe vencedora, então, premiará três medalhas de ouro para a equipe vencedora e duas para a equipe perdedora. A equipe deveria ser formada pelos campeões de cada categoria individual e as medalhas seriam somadas para os Países participantes. Espero que essa minha sugestão os faça pensar a respeito, pois é isso que eu desejo. PENSEM.!!!
Acho que cheguei ao final do questionário que me foi apresentado; não foi fácil; tive que refrescar a memória; muitas coisas aconteceram e que eu já tinha esquecido, mas valeu a pena, mesmo que algumas lembranças me entristeçam um pouco.
Espero que o que relatei seja útil e possa servir para alguma coisa. Continuo o meu caminho, que deve ter sido traçado por alguém, não sei por quem, mas foi um bom caminho.
ALDO LUBES
Professor de Educação Física, da Universidade Federal do Paraná
Faixa Preta de Judô, 4 Dan-pela Confederação Brasileira de Judô.
Faixa Preta de Karatê, 8 Dan-pela Confederação Brasileira de Karatê