PIQUENIQUE ILHÉU.
Se o Oscar era o raro tipo de pessoa que, mesmo podendo seguir o caminho paterno para uma vida folgada e respeitada, preferiu viver apertadamente em meio às pessoas simples do litoral, já o Ernest tinha com ele, em comum, pouca coisa além do apego às atividades marinheiras e a origem germânica bem caracterizada no aspecto físico de ambos. Com a diferença da magreza tranquila do Oscar contrapondo-se à robustez dinâmica do outro. Este, o Ernest, pareceu-me sempre um exemplo clássico do que se pode chamar, no termo inglês que melhor o tipifica, um dedicado self-made man.
Começando por baixo no comércio de certas peças automotivas e industriais, transformou-se, ao longo do tempo e de muita aplicação em sua atividade, num dos maiores, senão o maior importador nacional no ramo específico que adotou. Já muito rico, e portanto não precisando disso, expandiu suas atividades para o setor naval de recreio. Creio que o fez nem tanto para ganhar mais dinheiro, mas pela citada atração em relação às coisas do mar.
Numa das viagens feitas à Alemanha para firmar contratos de importação, adquiriu os moldes de algumas lanchas que faziam sucesso na Europa e começou a construí-las aqui, num estaleiro que montou junto ao Estuário de Santos. Logo de início, uma grande embarcação de sessenta pés, que, contou-me depois, exigia onze mil horas-homem de trabalho. Em sua maioria consumidas depois da da laminação do barco em poliester reforçado com fibra de vidro, tipo de contrução usualmente chamada “de plástico”.
Eu, muito naturalmente, perguntei um dia se não lhe tinha ocorrido utilizar a mão-de-obra da laminação, que em meu entendimento ficaria ociosa ou semi-ociosa durante as demais fases da construção do barco, na feitura de embarcações menores, que não exigiriam esse acabamento tão demorado.
Sim, esclareceu, desde o início ele pensara nisso. E até escolheu um projeto de uma pequena lancha de quinze pés de comprimento, que também estava tendo muito êxito em águas mediterrâneas. Passou a produzí-la, para aproveitar aqueles funcionários específicos no que eles sabiam fazer melhor.
Só que, explicou, a tentativa revelou-se um aborrecimento constante. Um cliente queria a direção a bombordo, outro preferia a boreste. Havia os que exigiam uma caixa para iscas vivas aqui ou ali, outros pediam uma modificação no parabrisas, outros ainda preferiam desenhos de faixas e tons diferentes no casco ou no interior. Cansou logo disso, acabou abandonando os moldes do pequeno barco, e procurou utilizar aquela mão-de-obra cara, especializada em laminação, nas demais tarefas exigidas nas embarcações maiores, mesmo que em prejuízo.
As lanchas grandes, aqueles verdadeiros iates que fabricava, para os interessados nelas havia uma fila de espera de cerca de dois anos, contou. E não era permitido aos que as encomendavam opinar sobre o complexo arranjo interno, nem sequer sobre a motorização ou o equipamento, que eram escolhidos e fornecidos por ele mesmo. No máximo, podiam sugerir a côr dos interiores e o estilo dos móveis à sua arquiteta encarregada do setor. O resto saía tudo de sua cabeça, de sua grande experiência náutica, era padronizado, não lhe dava trabalho. E nem por essa rigidez diminuía a fila dos ansiosos futuros compradores. Sem propaganda alguma além daquela feita pelo desempenho e acabamento das próprias lanchonas já entregues.
Tinha mais. Ao invés de estar se aporrinhando para obter um lucro diminuto com a venda das lanchinhas de quinze pés, se havia necessidade de dinheiro telefonava para algum dos compradores de seus iates, e pedia o aporte de mais uma parcela do preço, presumìvelmente uma quantia fabulosa. Sem qualquer dificuldade, ao máximo no dia seguinte esse numerário já estava à disposição em sua conta bancária.
E terminou com aquela frase, aquela frase meio dura mas verdadeira, quase lapidar: “Se você quer ganhar dinheiro na vida, trabalhe com quem tem dinheiro. Se trabalhar com quem não tem, dividirá sua pobreza”.
Não aproveitei o conselho amigo do amigo. Continuei a dedicar os anos mais produtivos de minha vida profissional, aqueles anos que deveriam ser os mais lucrativos, a vender, com ganho modesto, os bons motores marítimos que representava, e demais implementos náuticos profissionais, aos pequenos pescadores da região. Homens simples do mar, que não tinham nada a dividir comigo senão o prazer do convívio. Não me arrependo do caminho escolhido, mas também não esqueci jamais aquela sua frase, repetida por mim ocasionalmente.
À época dos fatos contados atrás, que quebraram de forma tão contundente a paz centenária de Barra do Sahy, eu costumava sair para o mar, ocasionalmente, na lancha desse mencionado amigo, ele também ex-aluno de meu cursinho de mergulho na ACM paulista. Durante certo período o Ernest foi companheiro constante nas incursões de caça submarina nas ilhas do litoral paulista e nos campeonatos da modalidade, e iria mais tarde me ajudar, apenas em seu início mas de forma importante, na formação do pequeno clube náutico que idealizei criar em Ubatuba.
Sua própria lancha nesse tempo ainda não era uma daquelas luxuosas e modernas que depois fabricaria, mas um bom barco de madeira construído pela Carbras-mar, com pouco mais que metade do tamanho delas, e evidentemente nenhum luxo desnecessário. Baseado no Iate Clube de Santos, no Guarujá, nele fomos, já no final de semana posterior ao intenso tiroteio narrado, mergulhar na Ilha do Montão de Trigo. Nada nos levava à proximidade, cerca de seis ou sete milhas marítimas, do vilarejo praiano em que ocorrera o recente acontecimento guerreiro, além da vontade de visitar mais uma vez a bela ilha e seu rico pesqueiro.
O Milton Medeiros completava a tripulação. Companheiro na equipe de natação do clube Pinheiros, nós no entanto haviamos por bom tempo nos defrontado nas disputas universitárias, em particular na tradicional competição anual que reunia sua faculdade e a escola em que eu estudava. Também motociclista, e agora já médico recém-diplomado, a amizade formada levou-me certa ocasião a convidá-lo a dividir comigo os custos de meu pequeno apartamento na Consolação, no trecho dessa rua para além da Paulista. Um trecho arborizado e pouco transitado, onde essa via, movimentada e cheia de comércio até atingir a grande avenida, inicia a descida em direção aos Jardins, e se estreita e acalma nos pequenos prédios de moradia que a ladeiam ali.
O amigo revelou-se um bom companheiro de moradia. Dividíamos também interesses pouco comuns à nossa idade. Coisa rara, e até esquisita em se tratando de rapazes solteiros, um assunto comum antes do sono não era o papaguear sobre as qualidades e “possibilidades” das garotas que conhecíamos, eram as dúvidas que me apareciam sobre os aspectos fisiológicos complexos da matéria que ensinava em minhas aulas de mergulho. Dúvidas que ele próprio esclarecia, ou buscava no dia seguinte a solução junto a um ex-professor da faculdade, que havia sido chefe do setor de escafandria do programa submarinista "U" alemão durante a última Grande Guerra.
Em não poucas ocasiões varávamos a noite lendo em voz alta, um para o outro, trechos de obras primas da literatura, como o conteúdo daquela edição rara de “Os Sertões” que me foi presenteada por um tio. Ou a ouvir boas gravações de óperas leves ou de música clássica, enquanto disputávamos partidas de poquer madrugada a dentro.
Tais interesses eram também estranhos junto à piscina do Pinheiros, nos intervalos dos treinamentos. Num ambiente esportivo de ponta era raro encontrar quem falasse de outras coisas além da atividade praticada ali. Mesmo assim, foi naquela mesma beira de piscina que um nosso colega de equipe e amigo, o jovem mas já intelectualizado Roberto Schwarz, hoje um dos maiores críticos literários brasileiros e confidente de nosso último Presidente, me introduziu à beleza dos escritos de Rainer Maria Rilke. E lá também tive com o Schwarz longas conversas sobre outros assuntos ainda menos leves, como aquelas em que discutíamos a existência de preconceito anti-semita no Brasil. Eu recém-saído da leitura do "Protocolos dos Sábios de Sião", na versão torta na qual Henry Ford tentou vingar-se de seus concorrentes, os donos judeus da General Motors. Um tiro que lhe saiu pela culatra.
O Milton, com seu caráter meio taciturno que lhe valeu a alcunha de Panca, não mostrava uma pendor especial para a caça submarina, mas aderiu a nosso então pequeno grupo de mergulho. E naquela madrugada descemos a Serra do Mar e encontramos o Ernest já ultimando os preparativos para a excursão em sua lancha. A viagem até nosso primeiro destino foi tranquila como usualmente, e bem mais rápida do que as que fizera em anos passados em minha canoa "Poisé". O dia amanhecera com um sol radioso, a água estava cristalina no Montão de Trigo, e os peixes foram embarcados na medida esperada.
Chegou a hora do almoço, e resolvemos comer na As Ilhas o repasto que o Ernest sempre se esmerava
Lá encontraríamos bom fundeadouro, com a vantagem de ter a pequena praia, sempre então deserta, à nossa inteira disposição, coisa que não existe no Montão de Trigo. Mas, estranhamente, percebemos já de longe uma movimentação na ilha.
Mal havíamos ancorado, uma grande canoa, saída da praia, aproximou-se de nosso barco. Um remador à popa, e sustentando-se de pé à proa, altaneiro, com seu imenso chapelão de palha a proteger o rosto sardento .... o próprio Oscar, o personagem central da Batalha do Sahy!
Com pose de almirante de esquadra, gritou em nossa direção, convidando-nos a ir à terra, onde um grupo que trouxera do Guarujá preparava um grande churrasco. Logo imaginei, era muita coincidência ele atrair esse pessoal de fora justamente na semana seguinte à batalha. Decerto a intenção fora fazer uma ação de presença, mostrar uma posição de força junto aos desafetos, aquela família de invasores de terra de Barra do Sahy, de onde haviam saído há pouco.
Eu conferenciava com meus colegas, a decidir se iríamos mesmo à praia, quando, repentinamente, uma enorme embarcação militar, com sua côr cinzenta, dobrou a ponta da ilha que antes a ocultava. Quase um pequeno navio, fora talvez colocado pela Marinha à disposição das forças policiais de São Sebastião. Decerto algum dos inimigos do Oscar conseguira chegar por mar até a distante sede do município, e narrou, certamente com exagêros, a intensa refrega acontecida em sua praia na semana anterior. A bordo, um sem fim de policiais militares, em seus uniformes característicos e fortemente armados, deixavam claro que a situação era grave.
Em instantes, sem ancoragem prévia nem qualquer conversa, o barco militar encostou na canoa do Oscar, que foi preso, algemado e conduzido para a praia junto com o canoeiro. E nós ficamos ali na lancha, ainda pasmos, a procurar entender a situação. Decidimos que eu e o Milton também desembarcaríamos, para dar apoio ao Oscar, e o Ernest, mais precavido, inclusive mais exposto pela sua nacionalidade alemã, permaneceria a bordo.
Quando chegamos à praia o clima era de extrema tensão. PMs armados por todo lado, cercando as famílias que preparavam o tal churrasco. Mulheres e crianças gritando, os pais tentando acalmá-las. E, gritando mais forte ainda, um branquelo alto e parecendo jovem para o cargo, o delegado de São Sebastião. Exigia que o Oscar e os demais lhe entregassem as armas, supostamente as armas que teriam sido usadas na Batalha de Sahy.
E o Oscar, ainda algemado, explicando, e logo eu o ajudando nisso, que aqueles cidadãos presentes integravam apenas um grupo de famílias, um grupo familiar pacífico que viera fazer piquenique na ilha. Nada a haver com o pessoal que participara dos acontecimentos bélicos do continente na semana anterior, esses haviam retornado logo depois para São Paulo. Mas nossas explicações sequer eram ouvidas, o homem estava possesso.
O tal delegado, cada vez mais irritado, determinou então uma vistoria geral na pequena ilha, a ver se achava o "depósito de armas". Alguns PMs encaminharam-se para a direita, outros para a colina à esquerda, e outros ainda, armados também até os dentes, foram enviados para o matinho atrás da cabana de pesca coberta de sapê diante da qual, junto à areia da praia, havia sido preparada pelos churrasqueiros uma longa mesa tosca de bambus, muito improvisada, onde se desenvolvia a comilança abruptamente interrompida..
Logo os policiais enviados pelas trilhas da ilha voltaram de mãos abanando, para frustração maior do delegado. Faltavam apenas aqueles dois que foram à descoberta do arsenal no mato atrás do casebre. E então eles também retornaram. Dois PMs baixinhos, atarracados, cara feroz, suas ameaçadoras metralhadoras Ina em posição de combate, aquelas armas inconfundíveis com seu grosso cano protetor todo furadinho. Em sua volta e atrás deles, alvoroçadas, um grande bando de galinhas caipiras. Vendo aqueles estranhos invadirem seu capinzal, pensaram ser os tratadores que o Oscar enviava à ilha regularmente, para distribuir um pouco de milho a elas, e acompanharam os policiais em seu retorno à praia, cacarejando alto, esperançosas.
A situação era tão ridícula, a cena dos dois PMs com suas metralhadoras e suas galinhas foi tão cômica, que todos puseram-se a rir, até mesmo alguns dos policiais cairam no riso. Menos o delegado, que, furibundo, não queria dar-se por vencido. Cada vez mais nervoso, ordenou a captura de todos os homens, de todos os piqueniqueiros do sexo masculino. Seriam levados a São Sebastião no barco, aprisionados, para lá responderem a processo pelos eventos recentes de Barra do Sahy.
E aí foi uma gritaria geral. Aqueles homens simples e inofensivos do Guarujá correndo para o arvoredo que cercava a praia, policiais correndo atrás deles e ameaçando atirar, e as esposas e crianças correndo também, procurando defendê-los. Um pandemônio. Um dos primeiros a ser apanhado foi o Zeca da Padaria, o já mencionado amigo fiel do Oscar. Foi nesse ponto que a situação engrossou para valer.
Ao vê-lo algemado, sua esposa desesperou-se. Em gravidez adiantada, esqueceu sua situação peculiar. Quase histérica, bateu-se, contorceu-se ante os policiais que procuravam dominá-la. E sùbitamente, inesperadamente, a coisa aconteceu. Naquele empurra-empurra, valendo-se de um cochilo do delegado, num gesto rápido puxou o próprio revolver dele, preso à cinta num coldre. E apontou-o à cabeça do homem, quase encostando o cano da arma nela, gritando que ia matá-lo, ia matá-lo, não permitiria que seu marido fosse preso e levado para longe da família.
Foram longos instantes de terrível suspense. A mulher a cada momento mais enraivecida, sacudindo a arma na cara do delegado, e ele mudo, gelado, mais pálido eu nunca vira ninguém antes. Os policiais em volta, sem saberem o que fazer. Atirar ali numa senhora grávida seria desastroso, as consequências imprevisíveis. A tensão aumentava, só tendia a aumentar, e o desfecho seria trágico.
Foi quando achamos que devíamos intervir. Eu e o Milton, como estranhos à situação, estávamos em posição melhor para dialogar com ela. Fomos falando em tom calmo, procurando tranquilizá-la. Mentimos, garantimos que seu marido não iria preso, afinal não havia razão alguma para isso. E finalmente o Milton conseguiu que ela lhe entregasse o revólver, logo passado a um dos policiais.
O delegado permaneceu imóvel, parecia estar ainda
Meu amigo voltou depressa com a maleta, aplicou-lhe injeções calmantes. Tomou-lhe o pulso, mediu seus batimentos, confortou-a com a segurança da profissão. O marido dela veio a seu lado, acalmando-a. Aos poucos ela foi se distendendo. Por precaução, foi mantida deitada na mesa, em repouso, até que voltasse completamente ao normal, talvez uma hora depois.
Foi então que, passado o susto, o Milton, sempre tão contido, explodiu. Nunca imaginei que ele pudesse falar tão grosso com uma autoridade policial. Gritou ao delegado que ele era um inconsequente, um imaturo, que sua prepotência colocara em risco todo um grupo de pacíficos cidadãos. Assegurou que a coisa não ficaria assim, que ia denunciá-lo perante seus superiores e encaminhar representação à Associação Paulista de Medicina.
Disse mais, se a senhora houvesse perdido o nascituro, ou se ocorresse nela qualquer sequela posterior, em consequência da atuação desastrada do delegado, ele próprio se encarregaria de buscar na Justiça sua punição. E o delegado a ouví-lo, sem qualquer reação, parecendo ainda aparvalhado com o risco real do qual escapara.
Não conheço ao certo todos os detalhes desse final de tarde n´As Ilhas. O Ernest, vendo a situação acalmada, resolveu voltar logo a Santos. Tinha um compromisso
Tanto ele quanto meu ex-sócio na terra disputada tiros, o Maneco, foram absolvidos, por terem exercido um direito que a Lei permite, usar a força imediata contra o esbulho. A seu favor, pesou o tal Interdito Proibitório concedido prèviamente, que coibia a seus oponentes a entrada na área invadida, objeto de todos esses acontecimentos. E proibia também, evidentemente, que fosse posto fogo na casinha que eu tão diligentemente construíra.
O delegado, soube mais tarde pelo Oscar, foi removido do posto. Não sei se por sua atuação infeliz, mas pouco tempo depois foi designado para outra cidade.
Como já dito, depois de vender minha parte na sociedade pensara estar a salvo nesse imbroglio, inda mais que fôra perfeitamente contrário à expedição punitiva que o Oscar e o Maneco armaram
Ao fim, a própria parte contrária não se opôs à exclusão de meu nome no processo, confirmando a intervenção a meu favor feita pelo advogado de meus amigos. E não acompanhei o desenrolar dos fatos judiciais posteriores, mas algum tempo mais tarde descobriria que talvez tenha ficado um pequeno resquício dessa situação toda, a empanar minha posição de honesto cidadão brasileiro.
Autorizado pelo Maga (Magalhães - Confraria do Mar)













