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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

PIQUENIQUE ILHÉU - Contos do Maga

PIQUENIQUE ILHÉU.

Se o Oscar era o raro tipo de pessoa que, mesmo podendo seguir o caminho paterno para uma vida folgada e respeitada, preferiu viver apertadamente em meio às pessoas simples do litoral, já o Ernest tinha com ele, em comum, pouca coisa além do apego às atividades marinheiras e a origem germânica bem caracterizada no aspecto físico de ambos. Com a diferença da magreza tranquila do Oscar contrapondo-se à robustez dinâmica do outro. Este, o Ernest, pareceu-me sempre um exemplo clássico do que se pode chamar, no termo inglês que melhor o tipifica, um dedicado self-made man.

Começando por baixo no comércio de certas peças automotivas e industriais, transformou-se, ao longo do tempo e de muita aplicação em sua atividade, num dos maiores, senão o maior importador nacional no ramo específico que adotou. Já muito rico, e portanto não precisando disso, expandiu suas atividades para o setor naval de recreio. Creio que o fez nem tanto para ganhar mais dinheiro, mas pela citada atração em relação às coisas do mar.

Numa das viagens feitas à Alemanha para firmar contratos de importação, adquiriu os moldes de algumas lanchas que faziam sucesso na Europa e começou a construí-las aqui, num estaleiro que montou junto ao Estuário de Santos. Logo de início, uma grande embarcação de sessenta pés, que, contou-me depois, exigia onze mil horas-homem de trabalho. Em sua maioria consumidas depois da da laminação do barco em poliester reforçado com fibra de vidro, tipo de contrução usualmente chamada “de plástico”.

Eu, muito naturalmente, perguntei um dia se não lhe tinha ocorrido utilizar a mão-de-obra da laminação, que em meu entendimento ficaria ociosa ou semi-ociosa durante as demais fases da construção do barco, na feitura de embarcações menores, que não exigiriam esse acabamento tão demorado.

Sim, esclareceu, desde o início ele pensara nisso. E até escolheu um projeto de uma pequena lancha de quinze pés de comprimento, que também estava tendo muito êxito em águas mediterrâneas. Passou a produzí-la, para aproveitar aqueles funcionários específicos no que eles sabiam fazer melhor.

Só que, explicou, a tentativa revelou-se um aborrecimento constante. Um cliente queria a direção a bombordo, outro preferia a boreste. Havia os que exigiam uma caixa para iscas vivas aqui ou ali, outros pediam uma modificação no parabrisas, outros ainda preferiam desenhos de faixas e tons diferentes no casco ou no interior. Cansou logo disso, acabou abandonando os moldes do pequeno barco, e procurou utilizar aquela mão-de-obra cara, especializada em laminação, nas demais tarefas exigidas nas embarcações maiores, mesmo que em prejuízo.

As lanchas grandes, aqueles verdadeiros iates que fabricava, para os interessados nelas havia uma fila de espera de cerca de dois anos, contou. E não era permitido aos que as encomendavam opinar sobre o complexo arranjo interno, nem sequer sobre a motorização ou o equipamento, que eram escolhidos e fornecidos por ele mesmo. No máximo, podiam sugerir a côr dos interiores e o estilo dos móveis à sua arquiteta encarregada do setor. O resto saía tudo de sua cabeça, de sua grande experiência náutica, era padronizado, não lhe dava trabalho. E nem por essa rigidez diminuía a fila dos ansiosos futuros compradores. Sem propaganda alguma além daquela feita pelo desempenho e acabamento das próprias lanchonas já entregues.

Tinha mais. Ao invés de estar se aporrinhando para obter um lucro diminuto com a venda das lanchinhas de quinze pés, se havia necessidade de dinheiro telefonava para algum dos compradores de seus iates, e pedia o aporte de mais uma parcela do preço, presumìvelmente uma quantia fabulosa. Sem qualquer dificuldade, ao máximo no dia seguinte esse numerário já estava à disposição em sua conta bancária.

E terminou com aquela frase, aquela frase meio dura mas verdadeira, quase lapidar: “Se você quer ganhar dinheiro na vida, trabalhe com quem tem dinheiro. Se trabalhar com quem não tem, dividirá sua pobreza”.

Não aproveitei o conselho amigo do amigo. Continuei a dedicar os anos mais produtivos de minha vida profissional, aqueles anos que deveriam ser os mais lucrativos, a vender, com ganho modesto, os bons motores marítimos que representava, e demais implementos náuticos profissionais, aos pequenos pescadores da região. Homens simples do mar, que não tinham nada a dividir comigo senão o prazer do convívio. Não me arrependo do caminho escolhido, mas também não esqueci jamais aquela sua frase, repetida por mim ocasionalmente.

À época dos fatos contados atrás, que quebraram de forma tão contundente a paz centenária de Barra do Sahy, eu costumava sair para o mar, ocasionalmente, na lancha desse mencionado amigo, ele também ex-aluno de meu cursinho de mergulho na ACM paulista. Durante certo período o Ernest foi companheiro constante nas incursões de caça submarina nas ilhas do litoral paulista e nos campeonatos da modalidade, e iria mais tarde me ajudar, apenas em seu início mas de forma importante, na formação do pequeno clube náutico que idealizei criar em Ubatuba.

Sua própria lancha nesse tempo ainda não era uma daquelas luxuosas e modernas que depois fabricaria, mas um bom barco de madeira construído pela Carbras-mar, com pouco mais que metade do tamanho delas, e evidentemente nenhum luxo desnecessário. Baseado no Iate Clube de Santos, no Guarujá, nele fomos, já no final de semana posterior ao intenso tiroteio narrado, mergulhar na Ilha do Montão de Trigo. Nada nos levava à proximidade, cerca de seis ou sete milhas marítimas, do vilarejo praiano em que ocorrera o recente acontecimento guerreiro, além da vontade de visitar mais uma vez a bela ilha e seu rico pesqueiro.

O Milton Medeiros completava a tripulação. Companheiro na equipe de natação do clube Pinheiros, nós no entanto haviamos por bom tempo nos defrontado nas disputas universitárias, em particular na tradicional competição anual que reunia sua faculdade e a escola em que eu estudava. Também motociclista, e agora já médico recém-diplomado, a amizade formada levou-me certa ocasião a convidá-lo a dividir comigo os custos de meu pequeno apartamento na Consolação, no trecho dessa rua para além da Paulista. Um trecho arborizado e pouco transitado, onde essa via, movimentada e cheia de comércio até atingir a grande avenida, inicia a descida em direção aos Jardins, e se estreita e acalma nos pequenos prédios de moradia que a ladeiam ali.

O amigo revelou-se um bom companheiro de moradia. Dividíamos também interesses pouco comuns à nossa idade. Coisa rara, e até esquisita em se tratando de rapazes solteiros, um assunto comum antes do sono não era o papaguear sobre as qualidades e “possibilidades” das garotas que conhecíamos, eram as dúvidas que me apareciam sobre os aspectos fisiológicos complexos da matéria que ensinava em minhas aulas de mergulho. Dúvidas que ele próprio esclarecia, ou buscava no dia seguinte a solução junto a um ex-professor da faculdade, que havia sido chefe do setor de escafandria do programa submarinista "U" alemão durante a última Grande Guerra.

Em não poucas ocasiões varávamos a noite lendo em voz alta, um para o outro, trechos de obras primas da literatura, como o conteúdo daquela edição rara de “Os Sertões” que me foi presenteada por um tio. Ou a ouvir boas gravações de óperas leves ou de música clássica, enquanto disputávamos partidas de poquer madrugada a dentro.

Tais interesses eram também estranhos junto à piscina do Pinheiros, nos intervalos dos treinamentos. Num ambiente esportivo de ponta era raro encontrar quem falasse de outras coisas além da atividade praticada ali. Mesmo assim, foi naquela mesma beira de piscina que um nosso colega de equipe e amigo, o jovem mas já intelectualizado Roberto Schwarz, hoje um dos maiores críticos literários brasileiros e confidente de nosso último Presidente, me introduziu à beleza dos escritos de Rainer Maria Rilke. E lá também tive com o Schwarz longas conversas sobre outros assuntos ainda menos leves, como aquelas em que discutíamos a existência de preconceito anti-semita no Brasil. Eu recém-saído da leitura do "Protocolos dos Sábios de Sião", na versão torta na qual Henry Ford tentou vingar-se de seus concorrentes, os donos judeus da General Motors. Um tiro que lhe saiu pela culatra.

O Milton, com seu caráter meio taciturno que lhe valeu a alcunha de Panca, não mostrava uma pendor especial para a caça submarina, mas aderiu a nosso então pequeno grupo de mergulho. E naquela madrugada descemos a Serra do Mar e encontramos o Ernest já ultimando os preparativos para a excursão em sua lancha. A viagem até nosso primeiro destino foi tranquila como usualmente, e bem mais rápida do que as que fizera em anos passados em minha canoa "Poisé". O dia amanhecera com um sol radioso, a água estava cristalina no Montão de Trigo, e os peixes foram embarcados na medida esperada.

Chegou a hora do almoço, e resolvemos comer na As Ilhas o repasto que o Ernest sempre se esmerava em preparar-nos. O nome diferente dessa ilha, situada a aproximadamente meio caminho entre o Montão e Barra do Sahy, explica-se pelo seu formato. Com duas elevações nos extremos, ligadas por uma faixa estreita e baixa que contém uma pequena praia, quando vista de longe a área baixa não é percebida, devido à curvatura da Terra. E então a impressão que se tem é de existirem ali duas ilhas próximas uma da outra, donde o toponímico.

Lá encontraríamos bom fundeadouro, com a vantagem de ter a pequena praia, sempre então deserta, à nossa inteira disposição, coisa que não existe no Montão de Trigo. Mas, estranhamente, percebemos já de longe uma movimentação na ilha.

Mal havíamos ancorado, uma grande canoa, saída da praia, aproximou-se de nosso barco. Um remador à popa, e sustentando-se de pé à proa, altaneiro, com seu imenso chapelão de palha a proteger o rosto sardento .... o próprio Oscar, o personagem central da Batalha do Sahy!

Com pose de almirante de esquadra, gritou em nossa direção, convidando-nos a ir à terra, onde um grupo que trouxera do Guarujá preparava um grande churrasco. Logo imaginei, era muita coincidência ele atrair esse pessoal de fora justamente na semana seguinte à batalha. Decerto a intenção fora fazer uma ação de presença, mostrar uma posição de força junto aos desafetos, aquela família de invasores de terra de Barra do Sahy, de onde haviam saído há pouco.

Eu conferenciava com meus colegas, a decidir se iríamos mesmo à praia, quando, repentinamente, uma enorme embarcação militar, com sua côr cinzenta, dobrou a ponta da ilha que antes a ocultava. Quase um pequeno navio, fora talvez colocado pela Marinha à disposição das forças policiais de São Sebastião. Decerto algum dos inimigos do Oscar conseguira chegar por mar até a distante sede do município, e narrou, certamente com exagêros, a intensa refrega acontecida em sua praia na semana anterior. A bordo, um sem fim de policiais militares, em seus uniformes característicos e fortemente armados, deixavam claro que a situação era grave.

Em instantes, sem ancoragem prévia nem qualquer conversa, o barco militar encostou na canoa do Oscar, que foi preso, algemado e conduzido para a praia junto com o canoeiro. E nós ficamos ali na lancha, ainda pasmos, a procurar entender a situação. Decidimos que eu e o Milton também desembarcaríamos, para dar apoio ao Oscar, e o Ernest, mais precavido, inclusive mais exposto pela sua nacionalidade alemã, permaneceria a bordo.

Quando chegamos à praia o clima era de extrema tensão. PMs armados por todo lado, cercando as famílias que preparavam o tal churrasco. Mulheres e crianças gritando, os pais tentando acalmá-las. E, gritando mais forte ainda, um branquelo alto e parecendo jovem para o cargo, o delegado de São Sebastião. Exigia que o Oscar e os demais lhe entregassem as armas, supostamente as armas que teriam sido usadas na Batalha de Sahy.

E o Oscar, ainda algemado, explicando, e logo eu o ajudando nisso, que aqueles cidadãos presentes integravam apenas um grupo de famílias, um grupo familiar pacífico que viera fazer piquenique na ilha. Nada a haver com o pessoal que participara dos acontecimentos bélicos do continente na semana anterior, esses haviam retornado logo depois para São Paulo. Mas nossas explicações sequer eram ouvidas, o homem estava possesso.

O tal delegado, cada vez mais irritado, determinou então uma vistoria geral na pequena ilha, a ver se achava o "depósito de armas". Alguns PMs encaminharam-se para a direita, outros para a colina à esquerda, e outros ainda, armados também até os dentes, foram enviados para o matinho atrás da cabana de pesca coberta de sapê diante da qual, junto à areia da praia, havia sido preparada pelos churrasqueiros uma longa mesa tosca de bambus, muito improvisada, onde se desenvolvia a comilança abruptamente interrompida..

Logo os policiais enviados pelas trilhas da ilha voltaram de mãos abanando, para frustração maior do delegado. Faltavam apenas aqueles dois que foram à descoberta do arsenal no mato atrás do casebre. E então eles também retornaram. Dois PMs baixinhos, atarracados, cara feroz, suas ameaçadoras metralhadoras Ina em posição de combate, aquelas armas inconfundíveis com seu grosso cano protetor todo furadinho. Em sua volta e atrás deles, alvoroçadas, um grande bando de galinhas caipiras. Vendo aqueles estranhos invadirem seu capinzal, pensaram ser os tratadores que o Oscar enviava à ilha regularmente, para distribuir um pouco de milho a elas, e acompanharam os policiais em seu retorno à praia, cacarejando alto, esperançosas.

A situação era tão ridícula, a cena dos dois PMs com suas metralhadoras e suas galinhas foi tão cômica, que todos puseram-se a rir, até mesmo alguns dos policiais cairam no riso. Menos o delegado, que, furibundo, não queria dar-se por vencido. Cada vez mais nervoso, ordenou a captura de todos os homens, de todos os piqueniqueiros do sexo masculino. Seriam levados a São Sebastião no barco, aprisionados, para lá responderem a processo pelos eventos recentes de Barra do Sahy.

E aí foi uma gritaria geral. Aqueles homens simples e inofensivos do Guarujá correndo para o arvoredo que cercava a praia, policiais correndo atrás deles e ameaçando atirar, e as esposas e crianças correndo também, procurando defendê-los. Um pandemônio. Um dos primeiros a ser apanhado foi o Zeca da Padaria, o já mencionado amigo fiel do Oscar. Foi nesse ponto que a situação engrossou para valer.

Ao vê-lo algemado, sua esposa desesperou-se. Em gravidez adiantada, esqueceu sua situação peculiar. Quase histérica, bateu-se, contorceu-se ante os policiais que procuravam dominá-la. E sùbitamente, inesperadamente, a coisa aconteceu. Naquele empurra-empurra, valendo-se de um cochilo do delegado, num gesto rápido puxou o próprio revolver dele, preso à cinta num coldre. E apontou-o à cabeça do homem, quase encostando o cano da arma nela, gritando que ia matá-lo, ia matá-lo, não permitiria que seu marido fosse preso e levado para longe da família.

Foram longos instantes de terrível suspense. A mulher a cada momento mais enraivecida, sacudindo a arma na cara do delegado, e ele mudo, gelado, mais pálido eu nunca vira ninguém antes. Os policiais em volta, sem saberem o que fazer. Atirar ali numa senhora grávida seria desastroso, as consequências imprevisíveis. A tensão aumentava, só tendia a aumentar, e o desfecho seria trágico.

Foi quando achamos que devíamos intervir. Eu e o Milton, como estranhos à situação, estávamos em posição melhor para dialogar com ela. Fomos falando em tom calmo, procurando tranquilizá-la. Mentimos, garantimos que seu marido não iria preso, afinal não havia razão alguma para isso. E finalmente o Milton conseguiu que ela lhe entregasse o revólver, logo passado a um dos policiais.

O delegado permaneceu imóvel, parecia estar ainda em choque. Mas a senhora foi então tomada por uma intensa convulsão, um ataque histérico que, em seu estado era extremamente perigoso. O Milton, já então pensando como médico, correu à água e embarcou no inflável que nos trouxera, para buscar a bordo sua sempre presente maleta de remédios. E eu joguei ràpidamente no chão os pratos e talheres arrumados sobre a mesa. Gritei aos policiais, e também aos churrasqueiros, cuja prisão parecia ter sido relaxada pelos sérios acontecimentos dos últimos minutos, que me ajudassem a carregar a pesada senhora, e a estendê-la sobre a mesa. Dada a adiantada gravidez, percebida pelo contorno de seu corpo, pensei que ela ia abortar ali mesmo, naquela ilhota desprovida de qualquer recurso.

Meu amigo voltou depressa com a maleta, aplicou-lhe injeções calmantes. Tomou-lhe o pulso, mediu seus batimentos, confortou-a com a segurança da profissão. O marido dela veio a seu lado, acalmando-a. Aos poucos ela foi se distendendo. Por precaução, foi mantida deitada na mesa, em repouso, até que voltasse completamente ao normal, talvez uma hora depois.

Foi então que, passado o susto, o Milton, sempre tão contido, explodiu. Nunca imaginei que ele pudesse falar tão grosso com uma autoridade policial. Gritou ao delegado que ele era um inconsequente, um imaturo, que sua prepotência colocara em risco todo um grupo de pacíficos cidadãos. Assegurou que a coisa não ficaria assim, que ia denunciá-lo perante seus superiores e encaminhar representação à Associação Paulista de Medicina.

Disse mais, se a senhora houvesse perdido o nascituro, ou se ocorresse nela qualquer sequela posterior, em consequência da atuação desastrada do delegado, ele próprio se encarregaria de buscar na Justiça sua punição. E o delegado a ouví-lo, sem qualquer reação, parecendo ainda aparvalhado com o risco real do qual escapara.

Não conheço ao certo todos os detalhes desse final de tarde n´As Ilhas. O Ernest, vendo a situação acalmada, resolveu voltar logo a Santos. Tinha um compromisso em São Paulo no dia seguinte, e queria aproveitar o resto de luz na viagem de volta. Só sei que o Oscar realmente foi levado a São Sebastião, para prestar declarações no inquérito instaurado sobre os sucesos em Barra do Sahy.

Tanto ele quanto meu ex-sócio na terra disputada tiros, o Maneco, foram absolvidos, por terem exercido um direito que a Lei permite, usar a força imediata contra o esbulho. A seu favor, pesou o tal Interdito Proibitório concedido prèviamente, que coibia a seus oponentes a entrada na área invadida, objeto de todos esses acontecimentos. E proibia também, evidentemente, que fosse posto fogo na casinha que eu tão diligentemente construíra.

O delegado, soube mais tarde pelo Oscar, foi removido do posto. Não sei se por sua atuação infeliz, mas pouco tempo depois foi designado para outra cidade.

Como já dito, depois de vender minha parte na sociedade pensara estar a salvo nesse imbroglio, inda mais que fôra perfeitamente contrário à expedição punitiva que o Oscar e o Maneco armaram em Sahy. No entanto, assim mesmo sobrou-me ser arrolado no tal inquérito.

Ao fim, a própria parte contrária não se opôs à exclusão de meu nome no processo, confirmando a intervenção a meu favor feita pelo advogado de meus amigos. E não acompanhei o desenrolar dos fatos judiciais posteriores, mas algum tempo mais tarde descobriria que talvez tenha ficado um pequeno resquício dessa situação toda, a empanar minha posição de honesto cidadão brasileiro.

Autorizado pelo Maga (Magalhães - Confraria do Mar)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Mário Quintana

Dicionário de Mário Quintana


Deficiente
... é aquele que não consegue modificar sua vida,
aceitando as imposições de outras pessoas, ou da
sociedade em que vive, sem ter consciência que
é dono de seu destino.

Louco
... é quem não procura ser feliz com o que possui.

Cego
... é aquele que não vê o seu próximo morrendo de frio,
de fome, de miséria, e só tem olhos para seus míseros
problemas e pequenas dores.

Surdo
... é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo
de um amigo, ou o apelo de um irmão, pois está
sempre apressado para o trabalho e só quer garantir
seus tostões no final do mês.

Mudo
... é aquele que não consegue falar o que sente
e se esconde por trás da máscara da hipocresia.


Paralítico
... é aquele que não consegue andar na direção
daqueles que precisam de sua ajuda.

Diabético
... é quem não consegue ser doce.

Anão
... é quem não sabe deixar o amor crescer.

E, finalmente a pior das deficiências que é ser
miserável, pois, "Miseráveis"
são todos aqueles que não conseguem
falar com DEUS.

Mário Quintana

UMA PESCARIA MEIO CONTURBADA - Causos e Contos do Maga

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17 - UMA PESCARIA MEIO CONTURBADA

Naqueles primeiros tempos, depois que formamos a Federação Paulista de Caça Submarina, os clubes que intervinham nas diversas provas que constituiam o campeonato estadual da modalidade apresentavam equipes integradas por sete elementos, e cada prova desenvolvia-se nos dois dias de um fim de semana. Só alguns poucos competidores possuíam embarcações próprias, e assim o número elevado de integrantes das equipes era justificado, ajudava a diluir o custo de fretamento de barcos profissionais para conduzí-los à área de pesca. Só bem mais tarde, quando eu passei a presidí-la, as equipes seriam racionalmente reduzidas para apenas quatro componentes, o suficiente para cada lancha, e as provas decididas em um único dia de pescaria.

Tínhamos constituído, com a participação também de ex-alunos dos cursos que ministrava na Associação Cristã de Moços paulistana, outro clube de mergulho próprio nosso, o Grupo de Pesquisas Submarinas. Este era mais dirigido a atividades outras que não apenas o mata-mata de peixes, como o próprio nome indicava. Criamos para divulgar nossas notícias e objetivos uma modesta mas muito informativa revista, a “Delfim”, promovemos com inteiro sucesso exposições estaduais e nacionais de fotografia e cinema submarinos, então uma absoluta novidade no Brasil.

Também com o respaldo de nossa entidade registrei um efetivo método de aumento da capacidade pulmonar para propiciar apnéia demorada, método que foi comunicado à Associação Paulista de Medicina, e consta das apostilas do Serviço de Salvamento em Água do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo. Realizávamos no grande auditório da ACM concorridos jantares mensais, a que eram convidados palestrantes a discorrer sobre os vários aspectos do mergulho, principalmente aqueles de fundo técnico e científico.

Mas a caça submarina era ainda o que mais atraía os integrantes do clube, e certa vez preparamo-nos para participar de mais uma das provas estaduais, esta a realizar-se em Ilhabela. No sábado aprazado, lá estavamos nós, representados por duas equipes, uniformes bonitos confecionados especialmente para tais ocasiões, enfileirados na cerimônia de levantamento de bandeiras que sempre precedia a atividade de procura e captura dos peixes.

Captura é uma palavra ainda hoje designada eufemìsticamente na caça submarina para significar morte. Pode ser usada mais adequadamente para a pesca pròpriamente dita, que supõe o engodo do peixe com uma isca, e depois sua subida preso ao anzol. Mas caça submarina é outra coisa, o peixe é atravessado pelo arpão, apesar de que nas duas modalidades seu destino é o mesmo, a panela. Fica-nos a ressalva de que não enganamos o pobre bicho, estamos lá para resolver rápido seu passamento.

Ocorre que naquele específico campeonato estava ocasionalmente na ilha uma conhecida da beira da piscina do Esporte Clube Pinheiros, que, por coincidência, era também sobrinha do proprietário de um salão onde costumávamos nos reunir para desenvolver as atividades de nosso grupo de mergulho. Não que ela treinasse natação sèriamente como eu fazia na equipe campeã do Pinheiros, nem que, em verdade, se interessasse muito pelas excursões submarinas combinadas nas reuniões realizadas no salão do tio. Apenas gostava de frequentar esses ambientes, e, já que estava ali, cismou de acompanhar-nos na pescaria.

Eu tinha fretado antecipadamente uma grande traineira de pesca, que comportava as duas equipes de nosso grupo. Estariam a bordo catorze homens, mais os três profissionais da tripulação. Muito homem junto, e estaríamos empenhados desde a manhã até a chegada da noite na dura captura dos peixes, não poderíamos lhe dar atenção. E os recursos de habitação que o pesqueiro dispunha resumiam-se num sanitário tosco, o fogareiro diminuto em que os tripulantes preparariam nossa comida, e uns poucos estrados no porão, suficientes para o sono da reduzida tripulação. Mais nada. Então, a presença de uma mulher a bordo numa pescaria de dois dias era perfeitamente inadequada.

Inda mais, pensei, tratando-se de uma jovem tão atraente e vivaz como ela. Tão bonita era, fruto de mistura feliz de pai germânico e morena típica brasileira, que acabou seguindo a carreira artística, tornou-se mais tarde atriz de sucesso em novelas televisivas e peças teatrais. O próprio presidente da federação esportiva que organizava a competição derramava-se em atenções sobre a moça, ressaltava frequentemente comigo os dotes físicos que resultaram dessa união de raças distintas. Até o ligeiro estrabismo de seus olhos constituiam um “it” epecial para ele, não cansava em me repetir isso.

Tentei demovê-la, em vão. Não houve argumentação que a convencesse a desistir da idéia, e eu, pela amizade que tínhamos, não poderia negar consentimento ao seu embarque. Assim fomos todos em direção à área designada como pesqueiro permitido pela direção da prova, a costeira externa e distante, batida pelas ondas oceânicas, da grande Ilha de São Sebastião, mais conhecida como Ilhabela.

Nesse primeiro dia a presença solitária de uma mulher a bordo não influiu decisivamente no desempenho de nossos caçadores submarinos. Todos se encantaram com a moça auto-convidada, alguns mais que outros, mas a produção ao fim dessa etapa da prova até que foi razoável. Verdade é que, durante meus mergulhos, notei um retorno muito frequente de meus companheiros ao barco, de onde a jovem nos observava. Mas atribuí isso à pouca experiência e menor preparo físico dos colegas. A pausa seria para um descanso talvez necessário, aquecer-se um pouco ao sol, mastigar um sanduiche revigorante.

E chegou o crepúsculo. Navegamos para um local abrigado, o Saco do Eustáquio, onde o barco fundearia com mais segurança e não balançaria tanto durante a noite. Jantamos aquela comida simples mas apetitosa preparada pelo mestre da embarcação, e veio a hora do repouso. Como já esclareci, o barco não oferecia nenhum conforto a quem se acostumara a camas macias de sua residência paulistana. Apenas uma grande lona, estendida de bordo a bordo sobre uma verga, prevenia precàriamente uma molhadeira geral, se acaso chovesse. Mas felizmente o tempo estava firme, o céu límpido coalhado de estrelas. Debaixo desse toldo e sobre o chão de madeira do convés fedendo a peixe, foram estendidos os colchonetes de meus companheiros.

Já que não se anunciava chuva, eu preferi esticar meu colchonete junto à proa, ao lado de uma pilha de amarras não utilizadas. Ali teria a visão das constelações solares. Visão romântica, concordo, mas sempre preferi em tais ocasiões dormir ao ar livre. Fazia isso desde criança, quando seguidamente recebia reprimendas de minha mãe, por escapar de minha cama e dormir em noites estreladas no chão do terraço descoberto contíguo a meu quarto.

E a jovem companheira? Não, ela não trouxera colchonete nenhum, e era evidente que não conviria que dormisse no porão do barco, isolada junto aos três tripulantes. Não conviria, mesmo que sobrasse ali algum estrado para ela, junto ao compartimento de gelo que preservava o pescado já arpoado. E a noite, por outro lado, com o céu assim aberto logo esfriaria, ela trouxera cobertor? Também não.

Restou-lhe compartilhar ambos comigo, colchão e cobertor, e pareceu-me na ocasião que ela antecipou isso desde o início de sua aventura, suposição que para mim soava bastante animadora. Só não sabia que essa antecipação a levara a prevenir-se de uma forma tão definitiva em relação ao que poderia suceder nessa divisão noturna de colchão e cobertor.

Ora, a situação prenunciava o que ia acontecer, ou não acontecer. Apesar de que nosso relacionamento anterior sempre se limitou a uma simples amizade, ninguém poderá me culpar pelo que inevitàvelmente sucedeu. Afinal, sou humano. Mais que humano, era então também jovem, solteiro e desobrigado de limitações e convenções. E cheio de testosterona.

Enrolados no meu cobertor, o contorno perfeito de suas formas contra meu peito, sua respiração e seu batimento cardíaco sentidos alternando-se com os meus, os meus bem mais acelerados, já após alguns minutos iniciei a tentativa de promover uma fusão mais completa de nossos corpos.

Só não contava com a preparação prévia que fez para a contenda esperada. Ela vestira, no banheirinho de bordo, um macacão inteiriço de malha preta, desses que, ao que me parece, usam às vezes as bailarinas de dança clássica. Justo em seu corpo, pareceu-me a princípio ainda mais convidativo que o biquini que usara durante o dia.

Mais convidativo? Estava redondamente enganado. Aquele agasalho frágil mostrou-se, ao longo da luta que se seguiu, uma verdadeira armadura medieval, uma daquelas que, séculos atrás, pais zelosos e maridos preocupados obrigavam filhas e esposas a vestir em sua ausência, e lhes passavam cadeado.

Não havia nele fresta alguma que eu descobrisse às apalpadelas aflitas, não havia ponto naquele supostamente delicado tecido que deixasse de resistir às minhas tentativas de penetração. Nem sei como ela entrara nele, talvez pela gola junto ao pescoço. Lembrando tudo isso depois, achei que o que me faltara, naquele intenso ataque, fora uma simples lâmina, uma simples meia gillete que gentilmente, com segurança, vencesse as paredes inexpugnáveis daquela fortaleza que a protegia.

E os demais companheiros, espalhados em seus colchonetes ao longo do amplo convés, percebi logo que eles não estavam ferrados no sono como imaginara. A cada investida minha, de esguelha percebia cabeças aqui e ali se erguendo em nosssa direção, imaginando, imaginando. Eu cansava, dava-me e a ela uma trégua, argumentava, adocicava, procurava convencer a companheira à abertura das portas tão almejadas, e as tais cabeças também baixavam, pareciam aquietar-se. Toda essa alternância de investidas e descansadas eram seguidas ansiosamente pelas cabeças imaginativas de meus companheiros.

Enfim, tudo isso só terminou lá pelo meio da noite, quando terminaram também minhas esperanças, paulatinamente substituídas pela exaustão. E só então pudemos dormir. Ela, eu, todos.

Na manhã seguinte, mal rompido o sol, lá estava ela novamente em seu biquini sobre o maravilhoso corpo bronzeado. Afável, sorridente, como se nada diferente houvesse acontecido no embate noturno. Acho que ela estranharia se não tivesse ocorrido a tentativa frustrada. Talvez isso lhe abalasse um tanto a fé em seus encantos. Ou talvez ela pensasse mal de mim se não tentasse tão desesperadamente, sei lá.

Após o café, levantamos ferro em busca de outros locais adequados à caça. Sabidamente, o peixe é mais abundante nas pontas rochosas mais salientes, batidas pelas ondas, mais perigosas também ao mergulho. O risco de sermos atirados às pedras, ou de acabarmos presos a uma toca pela entrada súbita de uma corrente forte, era compensado pela probabilidade de arpoarmos peças maiores.

Mas o mar lá fora havia virado, um começo de ressaca vinda de Sueste, turvando as águas na costeira exposta a ela, levou-nos a retornar às proximidades do Eustáquio, abrigadas de seus efeitos. Nossa jovem companheira nadou até a pequena praia que existe ali, para esticar-se na areia junto ao arvoredo, e nós nos deslocamos mais para o lado da ponta externa do Saco, a tentar os peixes que, embora não tão numerosos e pesados, ainda existiam naquele local quase nunca frequentado.

Pouco depois, a surpresa. Minha arma se inutilizou. Os anéis de borracha do pistão volante, que seguravam o ar comprimido que impulsionava o arpão, sùbitamente deixaram escapá-lo. Não me precavera, como passaria a fazer no futuro, com pistões de reserva, nem com arma de reserva. E os companheiros também não os tinham. Fiquei algum tempo no barco, desolado, a acompanhar de longe a faina dos colegas. Depois, nada mais me restando fazer senão esperar a chegada da tarde, quando teríamos de voltar à cidade de Ilhabela a tempo do horário de pesagem dos peixes conseguidos, nadei para a praia, a fazer companhia à minha amiga.

A pescaria dos colegas naquela manhã não foi grande coisa. Talvez pela pobreza do pesqueiro, talvez pelo cansaço de uma noite que foi, suponho, também para eles mal dormida.

Nossas equipes se classificaram mal, bastante mal. E, naquele ambiente esportivo em que todos se conheciam, logo correu a explicação. Explicação que me prejudicava, prejudicava minha situação de dirigente do clube, diretor da federação promotora do evento, futuro presidente dela. Eu, o mais experiente, o mais tarimbado da equipe, teria abandonado o campeonato, largado meus companheiros, para dedicar-me integralmente à companhia tentadora, etc., etc., de nossa atraente acompanhante.

Não consegui reunir argumentos que desfizessem essa estória inventada para justificar nosso natural insucesso. Natural, pois meus ex-alunos eram todos principiantes no affair, e eu próprio não tinha aquela gana de matar, aquela ânsia de arpoar e arpoar que faz um exitoso caçador submarino.

Mesmo sendo assim, mostraria no futuro que não me saia mal em disputas, sempre as levei a sério, apesar da descrença do momento. Até cheguei a vencer algumas poucas provas de campeonato estadual e outra numa disputa nacional, realizadas em pesqueiros difíceis como as ilhas de Alcatrazes e Queimada Grande, e em condições de mar péssimas, minha especialidade .

Mas só o tempo desfaria aquela estória saborosa de uma jovem escultural a bordo de um barco cheio de marmanjos em Ilhabela, na competição de caça submarina daquele ano. Sobrou-me só isso, a estória inventada que me atingia. Não tive infelizmente a ganhar, dos fatos acontecidos e aqui fielmente descritos, senão isso. Senão isso.


Com Autorização do Maga

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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O Realista

"O pessimista queixa-se do vento, o otimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas."

(Autor Desconhecido)

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Conhecer o Inimigo

Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas. (Sun Tzu, A arte da Guerra)

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O que é Audax?


A palavra "Audax" vem do latim, audacioso, corajoso, é o nome dado a este evento ciclístico não-competitivo e de longa distância, conhecido internacionalmente também pelo nome de "randonnees". O grande foco dos eventos Audax é a possibilidade de percorrer longas distâncias em veículos de propulsão exclusivamente humana no seu próprio ritmo, terminando o percurso dentro do tempo limite estabelecido.

Além do tempo estabelecido, deve ser observado o regulamento, que exige equipamentos de segurança a serem aplicados tanto no equipamento quanto usados pelo ciclista. (capacete, luzes dianteira e traseira afixadas à bicicleta, pilhas reservas e colete refletivo).

Além dos equipamentos, nos eventos promovidos pela Sociedade Audax de Ciclismo é exigido também um atestado firmado por profissional habilitado que declare estar o participante apto à prática de ciclismo de longa distância e longa duração. O atestado deverá ser apresentado quando da primeira participação do ciclistas, com validade de 6 meses.


O QUE É "BREVET"?

São os estágios reconhecidos pelo Les Randonneurs Mondiaux, e que levam à habilitação para a prova maior do Audax: Paris-Brest-Paris, de 1200 km.

O tempo máximo global para cada percurso é dado pela tabela abaixo, de acordo com a regras do LRM. Neste tipo de pedalada existem postos de controle com horário de abertura e horário de fechamento pré-determinados. Cada ciclista recebe um cartão de rota com o percurso a ser percorrido e localização dos postos de controle, onde deve carimbar seu cartão de rota e marcar o horário de passagem.

Distância
Tempo
Classificatório
200 km
13h30
Nenhum
300 km
20h
Brevet 200km
400 km
27h
Brevet 300km
600 km
40h
Audax 400km
1200 km
90h
Audax 600km


Resumindo:


Para participar do Brevet de 300km o ciclista devera ter feito antes (no mesmo ano) o Brevet de 200, para participar do Brevet de 400 deverá ter feito o de 300 (no mesmo ano) e para participar do de 600km deverá ter feito o de 400 no mesmo ano. A série completa é a qualificação para qualquer evento de 1200km LRM no mundo (no mesmo ano).


quinta-feira, 17 de setembro de 2009

LENDÁRIO VELEJADOR RUSSO

Eu, sabia que "aquele Russo que deu a volta ao mundo num pequeno barco à vela" tinha construido seu veleirinho em uma sacada de apartamento (já reformei muito barco em terra firme e imagino como deve ter "sofrido" para fazê-lo), eu, sabia que ele tinha dado uma volta ao mundo, eu, sabia que era com um barco muito pequeno (menor que um Marreco 16 - eu que já tive vários "Marrecos" e nem por sonho me via em alto mar com um barco desses, apesar de achar muito seguro e gostar muito do Marreco 16)), eu, sabia que ele havia falecido, mas nunca tinha me inteirado exatamente como?

Por ser um admirador desse notável velejador (que voltou no tempo ao inverter o progresso da navegação de cruzeiro, sem motor, etc), lendo um artigo em um dos sites que participo da Argentina (ADAN - La Asociación Deportiva Argentina de Navegantes), paginando por seus artigos, me deparei com esse "grande navegante" e acredito que muitos devam conhecer sua história, mas também acredito que muitos não o conheçam, porisso tomo a liberdade de narrar alguns fatos desse notável velejador,mais como uma forma de homenageá-lo, pois esse merece e ficarei muito feliz de compartilhar com aqueles que tem o espírito aventureiro e cheio de sonhos que nem eu.

Evgeny Gvoznev, um grande navegador em seu pequeno barco.

"O anúncio demorou muitos dias em se conhecer". Evgeny nunca foi de ocupar as primeiras páginas dos jornais e muito menos das revistas náuticas (apesar que faço menção da Revista Náutica ter publicado um artigo à respeito bem interessante na época).Seu sonho era de navegar em sua pequena nave, fazer amigos em cada porto (quem o conheceu, com certeza concorda), porém, infelizmente isso não é notícia, mas com certeza é um exemplo de vida.

Zarpou em Maio de 1999 e no dia 29 de novembro de 2008 (poxa, um dia antes do meu aniversário?), seu barco atual o Getan II, foi açoitado por um forte vendaval que quebrou seu mastro e a corrente o levou sobre as costas de Ostia, Itália no dia 30 de novembro (pô, no dia do meu aniversário?).

Evgeny se comunicou com seu amigo David Muhumaev de Makhachkala, sua cidade natal, comentando o sucedido e que se preparava para chegar ao porto mais próximo para reparar seu barco.

Infelizmente nunca chegou.

Uma fria crônica de um jornal em 2 de dezembro de 2008, comentou que fora encontrado por um carabinero seu barco o Getan II sobre a costa e a poucos metros dalí, jazia Evgeny sem vida, com uma ferida na cabeça.

Para a náutica é uma enorme perda. Evgeny era um modelo de navegante, tinha persistência, garra, determinação e sobretudo, muita humildade.

Seu exemplo, sempre estará presente em todos os navegantes.

Imagine você que veleja, partindo sozinho?

Agora imagine você, partindo sozinho e num pequeno barco à vela (e bota pequeno nisso)

É pessoal, temos que dar muito crédito à esse velejador solitário que partiu para navegar, mas com certeza, agora está navegando nos mares do céu.

evgeny gvoznev

Evgeny Gvoznev, homenagem a um grande!!!!

Sua história foi sendo conhecida com sua chegada a cada porto, com seu pequeno barco (lembrando que foi construído em uma pequena sacada de apartamento) na cidade de Makhachkala. Testou muitas vezes no Mar Cáspio e depois nos mares do mundo.

barco.balcon

Sacada onde construiu seu barco.(coisa de louco ou alguém perseverante)?

Navegou no mediterrâneo, cruzou o Atlântico e o Pacífico, assim foi como nos mares devorados por Evgeny. Sempre que chegava num porto, despertava a admiração, tanto por ele quanto seu barco que tinha somente 3,70 metros de comprimento e apenas 1,40 mts de largura (quando comparei acima sobre o Marreco 16, quem conhece sabe que tem quase 5 Mts), foi apenas para tentar imaginar o que seria velejar em um mar aberto num barco desse tamanho.

Aí pergunto ao amigo velejador? Você teria coragem de fazer isso?

Já teve velejador que fez e tem um brasileiro que quer fazer com um barco de 3,60 metros (desculpe, admiro, mas não lembro o nome (sobrenome Sr. Lee - não vou chamar de idoso, pois idoso está na cabeça e não nos atos), lembro que é bem experiente pois já deu a volta ao mundo no Lady Lee, um veleiro com mais de 100 pés).Tenho em meus arquivos, mas não procurei!!

yacht club argentino-darsena

Evgeny no Yacht Club Argentino (tenho artigos nos portos do Brasil também) e alguns já comentaram sobre ele neste site. Este foi seu primeiro barco, o Said (que quer dizer amigo em árabe) Já dá para imaginar o carater de alguém que coloca esse nome?.

evgeny y su barco

(Reparem no acabamento da fibra, no leme, etc?)

Algunas crônicas em sua jornada

cronicas a su paso

cronicas chilenas

said

O Said em Navegação

(Reparem no tamanho dele em proporção ao barco) Dá para encarar um marzão?

said

Pequeno barco, grande navegador!!!

getanII

O Getan II O barco de sua terceira volta al mundo, com o qual ele partiu desta para melhor.

evgeny

Imagem de uma agência Russa, (talvez a última....)

Como diz o mano Sombra: Ele com certeza deve ter se tornado uma estrela.

Evgeny, por onde navegues, sempre terá uma estrela clara em seu rumo!!!

Desculpem se fui muito extenso, mas com certeza, esse merece.

Abraço à todos e excelentes ventos

Roberto Rodrigues

terça-feira, 15 de setembro de 2009

O que você faria?

"E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terá de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência."

O que você faria?

Nietzsche

sábado, 12 de setembro de 2009

Há homens que lutam um dia e são bons,

Há homens que lutam um dia e são bons,
Há outros que lutam um ano e são melhores,
Há os que lutam muitos anos e são muito bons,
Mas há os que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis.

(Bertold Brecht)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O NAVIO NEGREIRO

O NAVIO NEGREIRO

Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!


Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!


Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!


Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...


Castro Alves

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Musashi

Miyamoto Musashi (1584-1645) foi o mais famoso samurai da história do Japão. Sua história é muito conhecida pelos japoneses, sendo considerado um de seus heróis nacionais.

Admirado por seu caráter, Musashi destacou-se por sua força e habilidade descomunais. Criou o estilo de esgrima com duas espadas (Niten-Ichi), uma em cada mão, e escreveu o livro Gorin-No-Sho (O Livro dos Cinco Anéis), sobre a arte da espada e estratégias marciais.


Musashi nasceu na aldeia de Miyamoto, província de Mimasaka, e se chamava Musashi Fujiwara. De seu pai, Shinmen Munisai, um pequeno fidalgo rural, teve as primeiras lições com a espada. Aos treze anos, travou seu primeiro duelo, vencendo o então famoso espadachim Arima Kibei.

Além de ter sido um duelista imbatível, Musashi também se dedicou a outras artes, como a caligrafia e a escultura, e chegou a escrever livros sobre esgrima e estratégia. Seu tratado mais conhecido é o Gorin No Sho (Livro dos Cinco Elementos).

Não faltaram a Musashi oportunidades para que ele mostrasse a sua habilidade no manejo da espada. Em honrados duelos, sua espada matou cerca de 60 homens.
Entre os seus mais impressionantes feitos, está o famoso "Episódio do Pinheiro", em que Musashi derrotou, sozinho, toda a academia Yoshioka de artes marciais, muito famosa na época. Em uma mesma madrugada Musashi aniquilou mais de trinta discípulos do clã e depois fugiu para poder sobreviver. Essa foi a primeira vez em que utilizou as suas duas espadas simultaneamente.



Também é lendário o episódio em que ele venceu o seu mais importante adversário: Sasaki Kojiro, um samurai muito aclamado. Kojiro era conhecido por sua afiada arrogância, sua habilidade nata e a sua peculiar espada de lâmina reta, que tinha aproximadamente 1 metro de comprimento, apelidada por ele de "Varal". O duelo se realizou na Ilha de Funashima, e atraiu uma grande multidão para o local, apesar da proibição oficial da presença de mais ninguém além dos duelantes e testemunhas.

O Dokudo

Musashi compilou uma lista de preceitos, que são conhecidos como Dokudo (o caminho da auto-confiança). A tradução abaixo apareceu no Japanese Sword Society/US newsletter. A tradução em inglês foi feita em 1965 pelo professor Giichiro Ikeda.

O caminho da Auto-confiança
  1. Eu nunca ajo contrário à moralidade tradicional.
  2. Eu não sou parcial com nada e nem com ninguém.
  3. Eu nunca tento arrebatar um momento de sossego.
  4. Eu penso humildemente de mim e grandemente para o público.
  5. Sou inteiramente livre de ganância em toda minha vida.
  6. Eu nunca lamento o que já fiz.
  7. Eu nunca invejo a boa sorte dos outros, mesmo estando com má sorte.
  8. Eu nunca aflijo-me por qualquer um, qualquer coisa ou qualquer tempo.
  9. Eu nunca censuro ninguém, ou me censuro para alguém.
  10. Eu nunca sonho em apaixonar-me por uma mulher.
  11. Gostar e não gostar de algo, é um sentimento que não tenho.
  12. Qualquer que seja a minha moradia, eu não tenho nenhuma objeção à ela.
  13. Eu nunca desejo um alimento saboroso.
  14. Eu nunca tenho objetos antigos ou curiosos em meu poder.
  15. Eu nunca faço purificação ou obstinência para proteger-me do mal.
  16. Eu não tenho apreço por nenhum objeto, exceto espadas e outras armas.
  17. Eu nunca daria minha vida por uma causa injusta.
  18. Eu nunca desejo possuir bens que tornem minha velhice confortável.
  19. Eu adoro deuses e budas, mas nunca penso em depender deles.
  20. Eu prefiro me matar do que desonrar meu bom nome.
  21. Nunca, nem por um momento sequer, meu coração e minha alma desviaram-se do caminho da espada.

12 de maio de 1645 - Shinmen Musashi