Caros,
Venho aqui dar meu depoimento sobre um fato que poderia ter se transformado em uma tragédia mas que, felizmente, teve como únicas consequências perdas materiais insignificantes e a NECESSIDADE de alertar a todos sobre o quanto a prevenção no mar e a manutenção de nossos barcos são importantes.
Semana retrasada tivemos a Patescaria em Paquetá, da qual participo desde os primeiros anos, sempre com muito prazer. É um evento único, uma oportunidade de ver em terra amigos que normalmente só encontramos na água e aqui, no fórum. Neste ano, porém, face à diversas demandas pessoais e ao mau tempo do sábado, me restou apenas a possibilidade de participar da regata, para mim um dos pontos altos da festa (ainda que seja apenas uma brincadeira entre amigos). Sem tempo para me dedicar ao barco, chamei um velho amigo, montamos o OaOa e partimos em direção à ilha no domingo de manhã (Para quem não sabe e para que este relato tenha melhor entendimento, o OaOa é um catamarã do tipo Day Dailer, cabinado mas de convés livre, com 28 pés). Tempo feio, céu escuro, vento acima do normal, o OaOa com os cascos imundos de cracas e sem bolinas, mas fomos assim mesmo, já que nenhum sistema importante estava inoperante. Chegamos à linha de partida com o apito de 4 minutos para a largada, ajustamos o barco para a orça, deixamos todos largarem bem na frente - pois a manobra do cat sem bolinas é "preguiçosa", requerendo bom espaço - e largamos com calma e segurança. Nesse intervalo para largar, prevendo os borrifos e o vento gelado que tomaria na cara até a Marina, acabei de vestir meu enxoval de mau tempo - uma jardineira, botas de borracha de cano longo, luvas e um casaco, tudo adequado (de uma famosa marca de roupas para velejar) ao que enfrentaria.
A regata, em si, teve seus momentos. Como era a segunda vez que corríamos no OaOa e dado estarmos sem bolinas e com os cascos sujos, andávamos menos do que podíamos, mas testávamos as reações (ótimas, considerando as condições) do barco. Orçávamos e o cat fazia entre 6 e 7 nós, às vezes passava de 8, mas derivando muito, de forma que nosso VMG seguia mais ou menos junto com a flotilha. No entanto, mesmo largando uns minutos atrasados, antes da Ponte já havíamos ultrapassado mais de meia dúzia de barcos. Também por conta da falta de orça decente, prevíamos que teríamos que subir bem acima do paredão da Escola Naval para cambar em direção à Marina da Glória, a linha de chegada. Só que o vento resolveu rondar bastante por lá - e para o lado que não interessava - o que nos fez desistir de cruzar a linha e rumar direto para o Jurujuba, nosso clube, pq não queria desmontar a tralha toda de noite. Eram, talvez, 16h30.
Meu amigo é um velho companheiro de velejadas, mas não é muito experiente em manobras em solitário.Como pretendia entrar no clube com os panos baixados e guardados para ter o convés livre para a manobra de atracação, ensinei-o como deixar o barco à capa, de modo a me ajudar a dobrar a genoa na proa, sobre a rede de proteção entre os cascos. Com duas pessoas e o barco praticamente parado, com a vela grande em cima e derivando sobre a alheta, foi uma faina dobrar a genoa com aquele vento, mas conseguimos dar cabo à tarefa. Lembro de meu amigo comentar o quanto é conveniente o cat se portar assim mesmo sob vento fresco, e eu comentei em cima que a rede de proa é extremamente útil para manobras como a que tínhamos acabado de fazer. Ainda observei que aquela que usávamos precisava ser trocada pq já havia dois ou três pontos de ruptura, mas que uma das vantagens de se usar rede em relação à tela era justamente a de ela "avisar" sobre sua vida útil, arrebentando aos poucos e não rasgando de uma vez, como a tela faria. Lêdo - e quase fatal - engano.
Desfizemos a capa e rumamos para o clube com a noite já se avizinhando. Talvez estivéssemos à meia milha do cais e a uns 400 metros do Morro do Morcego, no meio do canal da enseada, quando fui à proa passar o cabo do vai e vem, meu sistema de atracação. Os próximos passos seriam baixar a mestra, passar-lhe uns cabos, ligar o motor e atracar, coisa de 15 minutos no máximo. Estava em casa, toda a topografia ao redor tão familiar, tão querida, mesmo sob a moldura aquele dia feio. Estava na proa, sobre a rede, tinha acabado de passar a ponta da amarra na enora, terminava-lhe o lais de guia. Ajoelhei-me para melhor posicionar-me...e a maldita rede rompeu sob mim, de uma vez só.
Quem me lê, ative a câmara lenta. Só uma percepção anestesiada do tempo traz a noção do terror da cena.
Não fui para a água de imediato, pelo menos não acho que fui. Ouvia cada nó, cada quadradinho da rede abrindo, rompendo, rasgando, como se fosse uma longa rajada de metralhadora. Parei de cair, agarrado à rede, com uma perna na água, outra para o alto, um braço de cada lado do rombo, dedos crispados. Tentei me içar e nova série de rupturas ocorreu. Gritei para meu amigo, gritei de novo, mas ele não apareceu no convés, não senti o barco desacelerar seus 7, 8 nós, só de mestra, com o vento a favor. Não sei o que houve, porquê ele não me ouviu. Agora pendia com ambas as pernas para baixo, apenas um braço suportando o corpo sendo arrastado na água. Desse momento, me impressionou o silêncio que fazia sob a plataforma do convés, onde eu estava sendo arrastado. Nenhum silvo de vento, nem sequer marulho. Nada. A rede ia se rompendo cada vez mais, e o pod (carenagem hidrodinâmica do suporte do motor de popa) apontava para mim como um porto seguro, um local onde eu poderia me agarrar, talvez abraçar a rabeta do motor de popa, que jazia içada fora da água. Pensava nisso quando a rede finalmente me liberou - ou eu a liberei, não registrei bem. Estiquei os braços para o pod, mas antes que pudesse tirá-los da água o cat já estava a metros de mim. Acho que pouca gente imagina como pode ser veloz um barco quando se está olhando-o de perto, junto à sua linha dágua. Não dá tempo de nada e, mesmo que desse, o impacto poderia ter sido fatal. Creio que consegui alcançá-lo com uma das mãos, já que tive cortes nos dedos que não poderiam ter vindo de outro lugar senão o pod - exceto as cracas no fundo de um dos cascos, talvez.
O fato é que só após uns bons 20 metros e dois ou três berros foi que meu amigo me viu dentro dágua, flutuando razoavelmente. Levou ainda uns preciosos segundos para se dar conta da situação e outros tantos para repetir a manobra que meu anjo da guarda havia ensinado-o: pôr o barco à capa.
- Vem me buscar, manobre e vem!!
- Não consigo, o barco não camba!
- Vem me buscar, volte a velejar!
- Não vai! Não consigo!
E o OaOa, parado a uns 50 metros, parecia até bem perto. Umas braçadas e eu estaria lá...se estivesse de sunga ou de short. A roupa de tempo, enquanto seca, me deu alguns instantes de flutuação. No entanto, encharcando-se, me travava como se eu estivesse mumificado. E, claro, me afundava a ponto de eu não conseguir sequer boiar. Toda a flutuabilidade agora era conseguida à custa de pernadas e braçadas tão vigorosas quanto contidas pela roupa - e ainda havia de sobrar fôlego para ditar a manobra ao amigo desesperado;
- E agora, vc tem bóia?
- claro, no paiol de BB, na proa!
- E a retinida?
- Aí tb! Rápido, vem me buscar!!
- Calma!
- Rápido, porra, rápido!
Tentei manter o sangue frio e raciocinar. Tirar o casaco levaria tempo, pois estava fechado com velcro e zíper; as botas tb não sairiam, e eu não estava em condições de parar de respirar por 5 segundos que fossem para tentar. Buscava ar e tentava evitar as marolas que quebravam em meu rosto.
- Vem me buscar, amigo!
- Vem me buscar, porraa!!!
A boia circular apareceu, mas lançá-la de tão longe só ia acabar com mais uma chance de resgate.
- Não jogue, vai perder, não jogue, está longe!!
- Manobra, amigo, vem me buscar!
Não sei se ele me ouvia, mas eu não o ouvia mais; OaOa derivava devagar, para sotavento, o que tornava a comunicação verbal mais dífícil. Não sei se ele ouviu a pior parte, mas ouviu a melhor parte:
- Vem me buscar amigo, vou morrer!
- Vem me buscar, amigo, estou morrendo...
- Porra, liga o motor!!!!!O motor!!!Liga ele!!
Naqueles minutos eternos dentro dágua - nessa altura, 3 ou 4 - o Yamaha 15 jazia inerte na popa, abobadamente desligado e inútil. E eu, morrendo.
Dessa parte em diante o tempo ainda se deu ao mefistotélico luxo de ainda ficar mais lento. Inexperiente, o amigo salvador não conseguia baixar a rabeta, se enroscou com a trava do tilt.
- Levanta a alavanquinha preta ao lado do motor!
- Levanta a rabeta um pouco para liberar a trava!
- Vou morrer, vai rápido!!
Baixada a santa rabeta, faltava ligar. Meu motor pega de primeira SEMPRE, até mesmo depois de meses parado. Mas...
- Liga, amigo, liga, vou morrer, porra!!!
- Não pega!
- Liga!!
- Não pega!!
"Se o corta-corrente tiver saído da posição", pensei, "é o fim. Ele jamais vai conseguir ligar esse motor".
- Devagar, vai afogar!! (eu tb, aliás. Note que estou ficando irônico na hora de minha morte, por que lembrei que neste exato dia meu pai, com 86 anos, estava em seu 39° dia de UTI, com dois AVC´s e paralisado, sem se entregar. Será possível que eu ia chegar antes dele do outro lado, se é que existe um outro lado?)
- Vai, liga!
- Porra, não funciona!!!
As forças, finalmente, já me faltavam. Não havia mais ar que chegasse, os braços começaram a perder o vigor, as ondas lavavam meu rosto. Bastava engolir um gole e estaria tudo terminado.
- Amigo, estou morrendo...vem, porra!!
Foi quando a proa do OaOa, já a mais de 80 metros de mim, guinou em minha direção e veio célere, vela grande enfunada, uma das mais belas cenas que já vi de meu barco, meu amigo, Filho de Netuno! Mas...a talvez dez nós...
- Pára, Pára, vira!! Viraaaaa!!!!
As rodas de proa do OaOa, como todo cat Wave Piercing, tem menos de 2 cm de raio. Finíssimas, portanto. Se pega...um abraço. Verdadeiras facas.
Passou rente, me deixando por barlavento, mas deu para jogar a boia circular. O resto do relato, para não me alongar ainda mais, vcs imaginem. Passei outros 5 minutos na água só para recuperar meu fôlego e quase tive que ser icado pelo amantilho.
Lições (bem) aprendidas:
Seu barco FALA. Se algo não está 100% e isso representa algum risco, CONSERTE. A Lei de Murphy nunca falha. A rede que usei inicialmente no OaOa é uma rede de trapezista de circo, com carga de 500 kg m², de malha fina (3x3) e embora aparentemente segura, demonstrou pouca durabilidade sob o sol (menos de dois anos). As fixações dela são feitas por muitas alças de inox com parafusos passantes e varas maciças de fibra, que provaram ser adequadas. A rede JAMAIS deve falhar e romper e, se algo tiver que servir de fusível, que sejam ALGUMAS das fixações, pq nesse caso a rede se torna algo em quê se segurar em caso de falha. Um acidente como o meu já vitimou alguns velejadores de multicascos, inclusive o grande velejador Rob James, marido da tb famosa velejadora de multis Naomi James. A proxima rede será como definiu o Arnaldo Paes, da Cognac: cintos de segurança, entrelaçados. Carga de ruptura 1500 kg - por fita - e proteção anti-UV. Recomendo fortemente aos donos de multis que façam o mesmo.
Colete Salva Vidas tem esse nome, obviamente, porque SALVA VIDAS. No entanto, ainda é um trambolho que atrapalha a movimentação do velejador, em particular do esportivo. Mas é absolutamente necessário, especialmente se for sair sozinho. Note que a falha da rede poderia ter acontecido num belo dia de sol - não teve relação com o mau tempo. Quem usa coletes num belo dia de sol? Há modelos compactos e outros infláveis, menos ruins que os obrigatórios.
Vestuário TEM que ser levado em conta. Após passar anos e anos sofrendo de frio para velejar no inverno, tempos atrás me dei de presente uma roupa adequada, completa, que uso pouco mas que me é muito conveniente. De fato, como roupa de tempo, ela é excepcional, desde que FORA dágua. Dentro, dá uma bela mortalha e, no final, o cara do IML vai meter a faca nela de qualquer maneira. Assim, NUNCA caia na água - nem tentando salvar alguém!!! - de roupa de tempo sem colete. É absolutamente impossível nadar completamente vestido com elas. A opção é usar um bom neoprene com alguma roupa de malha por cima, para proteger (o neoprene). Esquenta tanto quanto uma boa roupa de tempo, mas tem flutuabilidade positiva e dá para nadar com elas. Tem outros inconvenientes - é frágil, não tem bolsos, os gordinhos ficam parecidos com o Sr. Incrível, etc - mas penso ser boa opção. Como o neoprene e botas vão te deixar parecido com o Peter Pan - só que de preto ao invés de verde, via de regra - o melhor são sapatilhas de neoprene, talvez protegidas por um bom mocassim tipo top sider um ou dois números acima.
Cinto de Segurança é algo extremente útil se vc está velejando com mais de uma pessoa à bordo. Fora isso, ele deveria ser tão curto que as manobras seriam prejudicadas, uma vez que se vc cair pela amurada e estiver sozinho, provavelmente estará em apuros se não puder se re-içar sozinho. Imagine-se estar sendo rebocado a 6, 7 nós por milhas à fio, sem ter ninguém que pare o barco? A possibilidade de beber água e de se afogar é grande. A solução para isso é DISCIPLINA: um cabo - Linha da Vida - esticado pelo barco e um cabo curto SEMPRE passado nela. E sempre lembrar do adágio "uma mão para o barco, outra para vc"
Treinamento de sua tripulação é FUNDAMENTAL, e por tripulação inclua-se vc. Teria sido apenas um susto se, desde o início, ainda antes de eu começar a afundar, meu amigo tivesse cambado em roda e feito a manobra de resgate ou, mais simples ainda, ter ligado rapidamente o motor. O que impediu a ele de manobrar o barco foi DESCONHECIMENTO da manobra MOB e falta de prática com o motor - que ele me viu ligar várias vezes, mas nunca tinha tentado sozinho.
Treine sua tripulação
Localize e deixe disponíveis os recursos de salvatagem
Converse sobre situações de risco, mesmo as mais improváveis (Vc sabe o que fazer em caso de fogo? Furo abaixo da linha dágua? Vazamento de gás? Criança ao mar?)
Capacite a sua tripulação a usar motor, rádio, a ligar a parte elétrica de seu barco SEMPRE
Condicione-se a ficar CALMO. Vc poderá ter que comandar um resgate, até o seu próprio, como eu fiz (não fui perfeito, só lembrei do motor quando a Luz Branca já estava se abrindo para mim, me chamando!!!).
Desculpem o longo relato, mas após brigar com a vaidade de ter 28 anos de vela sem ter tido um acidente, me rendi ao bom senso e decidi levar a vcs esta passagem na intenção de ALERTAR, CONSCIENTIZAR e fazer REFLETIR. Sei que cometi erros (sem colete, manutenção deficiente, etc.) mas aceito as eventuais críticas pensando em quem atiraria a primeira pedra quando o assunto é SEGURANÇA.
Um abraço e bons ventos a todos.
Fonte: Grupo Altomar
De:
marciociber@uol.com.br
Marcio Cibreiros
Catamarã OaOa
Rio de Janeiro / Niterói.