Emoção, não a velocidade...
O prazer, não a pressa....
Quem precisa provar a quem?
E o que precisa ser provado?
O maior exemplo de luta em um Brevet do Audax, não vem absolutamente de quem faz 200 km em 6 horas e pouco. Curiosamente o maior lutador é aquele que vem se arrastando com a bicicleta, que geralmente não é nenhum top de linha.
O lutador, o guerreiro, é o que vem pedalando para a prova, que não pergunta o que vai ter de lanche no PC e cujo apoio é ele mesmo. É aquele ciclista que passa imperceptível diante das speed, verdadeiras máquinas italianas, ou das mountain revolucionárias em fibra de carbono.
O lutador, o guerreiro é o que desfila sua humildade, é o que passa e cuja sombra não é percebida. Ele não é ameaça para ninguém, simplesmente porque ameaçar não está nele. Ele simplesmente faz parte da paisagem e às vezes nem isso.
Quem ouviu um “gringo” falando com seu sotaque característico e pedalando uma GTS, na prova de ontem? Pouca gente...
Pois este foi o guerreiro do Brevet 200 km de 31.03! Seu nome é Elias Polanco Benavides, Guerreiro, por minha conta, sem risco.
Parque Barigüi – PC4 – 18h30
Começo a me preocupar com o pessoal que ainda não chegou, a prova encerra em uma hora e são 19 por chegar. Fávaro, o incansável funcionário da Rodonorte e eu seguimos comboiados pela van de resgate em busca dos guerreiros. Um a um vamos contando e diminuindo dos que faltam, faltam dois só. Achamos a figura característica do Feitosa, exausto. Pergunto a ele se tem mais alguém para trás e ele responde: - Tem. Um chileno...
Percebem, como dos guerreiros pouco se nota?
A van de resgate sumiu enquanto falávamos eu e o Favaro com o Feitosa. Telefono para o diretor da prova e peço a ele que ponha alguém na rodovia, no ponto onde fecham os 200km. Em seguida, ligo para o Romualdo, o bonachão motorista da van. E aí, onde está você, pergunto. E ele – Estou acompanhando um moreno, gringo que está lutando para chegar. Imediatamente seguimos para onde está Romualdo, que neste dia foi meu escudeiro.
19 horas - Estamos em frente ao posto da Polícia Rodoviária, a 5 km da chegada.
O que vejo, é uma cena impressionante. Um ser que não respira, arfa! Que triste vê-lo assim, guerreiro! A luta está difícil, mas nunca perdida!
Começo a reanimá-lo para que não desista, sei como é isso, já passei por situação semelhante em 2005, em Porto Alegre.
Ele me pede calma e tenta achar ar para encher os pulmões, mas a tensão de ter andado só com seus fantasmas por horas a fio, no escuro, não o deixa respirar. Falo para ele respirar empurrando o estômago para frente. Finalmente ele começa a encher os pulmões. Começa a caminhar e eu caminho a seu lado. Ele empurra a bicicleta e o Fávaro fecha com o carro da Rodonorte as saídas da pista enquanto o Guerreiro sobe na bicicleta e começa a pedalar. Torto e desajeitado. Tastaveando como diriam os gaúchos. E vai...
Ao subir na van, vejo a bicicleta da minha mulher no reboque. Tiro de onde está, com ajuda do Romualdo e começo a carga de Quixote e Sancho contra o último moinho.
Um dois, FORÇA, um dois, FORÇA, um dois, FORÇA! Gritamos até minha garganta doer e sentir minhas lágrimas correr pelo meu rosto. Neste momento, o tempo era tudo que tínhamos que vencer - Um dois, FORÇA! Um dois, FORÇA...
Alguém grita de dentro de um bar. Vão pro inferno seus loucos... Sim, somos dois loucos, ou melhor quatro loucos. Um guerreiro e três escudeiros afastando tudo do caminho, da trajetória da bicicleta do Guerreiro.
A descida, finalmente estamos chegando... Estamos no quilômetro 200. Digo a ele – ACABOU!
O Guerreiro então se desmonta! Chora convulsivamente, o choro da vitória, E que sabor tem esse choro!
Digo a ele: Você venceu, vamos pôr as bicicletas no reboque e chega de luta. Ele olha para mim e diz:
- Quero cruzar a linha de chegada pedalando!
Coisas de Guerreiros...
A emoção, não a velocidade...
O prazer, não a pressa....
Quem precisa provar a quem?
E o que precisa ser provado?
N A D A!
por Roberto Coelho
http://audaxparana.com/Espírito.htm