A tarde estava amena, e o velho acomodou-se com dificuldade em sua cadeira, levada por familiares até a praia defronte à pequena casa. O barco fora puxado fora d’ água no dia anterior, o filho já raspara as cracas do fundo, serviço cansativo, e agora iniciava a demão de tinta venenosa, à espera da maré alta, no meio da noite, que permitiria à embarcação flutuar novamente. E ele gostava de ficar ali sentado, a ver essa atividade, ver apenas, já que seus membros cansados não lhe permitiam mais ajudar na faina.
Era um bom barco, divagou. Da melhor madeira, escolhida a dedo. Custara-lhe muito construí-lo, em anos perdidos no tempo. Não tanto em esforço físico no serrar as pranchas e tábuas, saúde para isso ele tinha, mas em juntar dinheiro para adquiri-las, e o mais necessário à feitura da embarcação. Dinheiro vagarosamente amealhado, com a venda do pouco pescado que conseguia trazer do mar em sua pequena canoa. Ela, levada pelos seus braços e por um pouco de pano quando o vento era favorável, não lhe permitia ir longe, atrás dos peixes maiores.
Conseguir o motor, aquele agora também velho motor, fora o mais difícil. O banco lhe recusara o dinheiro, dinheiro pedido contra a hipoteca de sua casinha. Para eles, ela não valia nada, disseram-lhe. Não tinha documentação, nem o terreno nem a construção. E por que teria? Recebera-a do pai, que a herdara do avô, a área era de sua família desde o começo dos tempos, com documento ou sem ele era sempre tida e aceita como de sua família!
Verdade é que, em sua meninice, o terreno era muito maior, a construção ladeada por um pomar onde as pitangas e jabuticabas faziam a delícia da garotada. Nunca se pensou em cercá-lo, em documentá-lo. E então, aos poucos, foi-se perdendo, invadido, o entorno da casa. Mas não pelos antigos vizinhos, gente da terra, respeitadora, que cederam à valorização provocada pelo turismo, venderam suas propriedades centenárias, logo demolidas. Foi tomado pelos recém-vindos, os veranistas compradores, que mostravam papéis que diziam legitimar a invasão. E sua casinha acabou espremida entre as novas e ricas residências, sem mais que alguns palmos de terra livre para plantar uma verdura ou algumas flores.
Não poucas vezes foi aconselhado a vendê-la também. Teria o dinheiro para o motor, e para comprar uma casa melhor, talvez no longínquo pé da serra, onde o terreno permanecera barato. Mas ele resistira, como resistira em fazer o que fizeram parentes e amigos, deixar a pesca e aderir a alguma das atividades bem mais rendosas e menos rudes que a chegada do turismo já propiciava. Nascera pescador, morreria pescador.
Finalmente, lograra um empréstimo com um amigo, e comprara o motor. E então a embarcação que construíra foi à água. Sua pesca passou a ser mais produtiva, não teve dificuldades em livrar-se da dívida. Por decênios trabalhara nela, primeiro sozinho, depois ajudado pelo filho. O barco sustentara a família que crescera, o filho casara, vieram os netos. Que estavam agora também ali à sua frente, mexendo no tabuleiro dos espinhéis, preparando-os para a próxima pescaria.
Era mesmo um bom, um robusto barco. Enfrentara com galhardia temporais que desmanchariam as tábuas de quaisquer outras embarcações. As lembranças daqueles dias foram aflorando, os episódios mais difíceis surgindo do passado, tomando forma, e uma angústia súbita lhe veio, prendeu-lhe a respiração. Como gostaria de sair para o mar aberto novamente, sentir novamente o perigo presente, o balançar doido do convés a seus pés na tormenta, o espirrar das ondas altas quebrando na proa, o cheiro forte e gostoso da maresia entrando-lhe pelas narinas…
Nunca mais. Não com sua saúde assim debilitada, os passos trôpegos que mostravam não poder mais suster-se a bordo, nem mesmo no arfar suave da embarcação em tempo bom. Nunca mais. Mas estava ali seu filho, e os netos ajudando-o na tarefa marinheira. Eles eram sua continuação. O amargor se foi tão depressa quanto viera. Pensou nas tentações que cercavam a juventude depois que fora construída aquela maldita estrada, a estrada que transformou a vila pacata numa cidade turística. No descaminho, para a marginalidade e para as drogas, dos filhos de tantos conhecidos, até de parentes. Sentiu-se realizado, fora poupado, conseguira manter seu filho junto ao mar, e os netos iriam segui-lo, já mostravam que iriam segui-lo. E eles estariam bem.
Eles estariam bem. Seu olhar afastou-se pela praia em direção ao centro da cidade, meia hora, a passo, adiante. Logo mais as luzes da avenida que ladeava o mar se acenderiam. Eram luzes fortes, muito fortes, que escondiam o brilho das estrelas, tiravam a graça da noite praiana. Mesmo assim, teimara em passear na areia com a mulher em noites enluaradas, como fizera desde que se uniram. Caminhavam de mãos dadas pela praia, descalços, sentindo nos pés a espuma fria das ondas mais atrevidas, nunca cansando de ver a ardentia formada no seu rebuliço.
Certa vez foi advertido pelo filho. Havia perigo, a cidade não era mais a mesma, as pessoas não eram mais as mesmas. E ele naquela idade não era mais o mesmo, podia ser assaltado no escuro da noite. Não deixou de fazê-lo, preferia morrer a deixar de fazê-lo. Mas foi sua companheira quem partiu antes dele, e com ela se foi também o encanto dos passeios noturnos, ficou só a saudade…
Saudade… É, o mundo mudara tanto, tanta coisa mudara… Lembrou o absurdo que assistira pela manhã, uma viatura com uns tais fiscais ambientais a ordenar que seu filho removesse para a água o barco, não poderia mais utilizar a praia para a manutenção semestral do velho casco … Não adiantou mostrar que havia um encerado estendido debaixo da carreta para aparar eventuais pingos de tinta, fizeram-lhe assinar documento comprometendo-se, sob pena de multa pesada, a tirar a embarcação da praia até o dia seguinte…
…daquela mesma praia onde ela fora construída, e tantas outras e outras também, mesmo antes que qualquer turista pisasse aquelas areias… antes que eles conspurcassem essas mesmas areias com suas latas de cerveja, suas embalagens plásticas, sua sujeira …
É, o mundo mudara, não o entendia mais…. Mas ele não mudara, e o mar também não, era sempre o mesmo, sua beleza a mesma, sua rara e também bela fúria a mesma. Só o peixe, mais escasso, precisava ser buscado cada vez mais longe, mais longe…
Saudade… Sentado em sua cadeira, o velho pescador foi vagarosamente cerrando seus olhos. Quando os fechou de vez, viu-se imediatamente sobre seu barco. Novamente sobre seu barco, segurando firme o leme de seu barco. O mar estava grosso, mas ele sabia que mais adiante baixaria, e era importante aproveitar aquele primeiro dia de navegação para atingir um bom pesqueiro, o melhor pesqueiro. Lá, com as águas mais amansadas, poderia pescar o suficiente, traria na volta à família pescado suficiente para mantê-los até seu próximo retorno do mar.
Terminado seu trabalho, o filho notou que o velho dormira. Era hora de voltar à casa, chamou-o, sacudiu-o. De longe, de muito longe, o pescador ouviu vozes aflitas chamando-o, chamando-o. Era sempre assim, quando ele deixava terra para pescarias mais demoradas. A companheira chorosa, o filho quando pequeno chorando também, querendo ir junto. Mas eles ficariam bem, até sua volta eles estariam bem…
Aos poucos a voz dos familiares foi ficando mais fraca na distância, e o velho pescador concentrou-se em seu rumo.
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NOTA DO EDITOR: O autor evidentemente não inspirou-se em O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway. Na verdade buscou inspiração em amigos seus caiçaras, que de um jeito ou de outro o remetem à idéia do homem primata do mar, tema do mês, na acepção mais nobre desta expressão que criamos aqui na Conversa no Píer. Mas encontramos essa foto de Gregório Fuentes, que foi o skipper do “Pilar”, barco de pesca de Ernest Hemingway, acompanhou o grande escritor e aventureiro por décadas, e o inspirou para escrever sua obra clássica, com a qual ganhou o Prêmio Nobel de Literatura O Velho e o Mar. Esta foto, na cadeira, foi clicada no famoso bar em Key West, Sloppy Joe´s, que por acaso tem uma história muito interessante de “primatas do mar”. Um dia nós a abordaremos aqui…
Autor:
Magalhães Netto - MAGA.