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sexta-feira, 25 de maio de 2012

O ADEUS AO MS-DOS



Microsoft acaba com o programa que fez de Bill Gates o mais rico do mundo

Manoel Fernandes - 2003



Não houve cerimônia de despedida. Nenhum integrante de alta patente da Microsoft fez qualquer declaração e tudo se resumiu a um breve comunicado. No último dia de dezembro do ano passado, a empresa anunciou oficialmente o fim do MS-DOS, o sistema operacional presente nos primeiros computadores domésticos fabricados pela multinacional IBM na década de 80. Graças ao DOS, Bill Gates tornou-se o homem mais rico do mundo e os consumidores de todo o planeta descobriram que poderiam ter dentro de casa uma máquina capaz de realizar tarefas que antes só eram feitas pelos grandes computadores. “O DOS foi um marco na história da tecnologia”, afirma Alexandre Leite, gerente de Windows da Microsoft Brasil.
Quem tem mais de 25 anos descobriu o mundo da tecnologia através do DOS. Os primeiros jogos, editores de textos e planilhas de cálculo foram construídos com base nesse sistema operacional. “Sem o DOS levaríamos mais tempo para chegar ao atual estágio da computação doméstica”, afirma o professor do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco, Silvio Meira. A trajetória do DOS renderia um bom filme de Hollywood no qual Bill Gates seria o personagem central. Tudo começa em 1981, quando a IBM procurava um software para colocar nos seus PCs. A busca estava quase terminando quando os executivos da multinacional conheceram uma jovem companhia, a Microsoft. Na conversa, Gates e seus sócio Paul Allen garantiram ter o software que a IBM procurava para seus PCs. Eles não tinham nada. Foi um dos
maiores blefes do mundo corporativo. Quando os executivos da IBM saíram, Gates começou uma busca frenética pelo programa que terminou encontrando em outra pequena empresa. Pelo software, depois batizado de MS-DOS (Microsoft DOS), ele pagou US$ 100 mil em valores da época e cobrou da IBM US$ 60 por cada cópia instalada. Foi assim que nasceu a Microsoft. Foi assim que ela se tornou mais valiosa que a própria IBM. E foi assim que Gates construiu sua fortuna.

O DOS teve treze versões. A última vez que a Microsoft o trouxe ao mercado foi no lançamento do Windows 95. Desde então, a companhia de Gates não mais estimulou o desenvolvimento de softwares baseados no pré-histórico sistema operacional. O DOS passou para um segundo plano e as versões seguintes do Windows não o trouxeram mais. Com a chegada do Windows XP, o DOS foi varrido por completo da memória da Microsoft e de seus produtos. Ficou apenas o suporte para alguns poucos usuários e fornecedores. A decisão do final de dezembro acabou com toda essa estrutura e daqui em diante quem desejar ter algum software baseado em DOS precisará consultar pela internet um museu de dados montado pela Microsoft em seus computadores. 

domingo, 6 de maio de 2012

Zé Peixe, adeus a um SENHOR Prático

Ele passou a vida dentro d’água, buscando navios a nado. Conheça a incrível história desse velho do mar        por Marcia Bindo

Do alto do barco, dá para ouvir a imensidade de mar chamando. Uma voz macia, sussurrada. Ele apruma os pés na beirada, estende os braços para trás, estufa o peito e salta num vôo ligeiro. A água suaviza a queda, envolve-o com um abraço de boas-vindas. Está em casa. Logo os botos vêm chegando, como de costume, para fazer companhia na travessia.

Esta é a história de um peixe chamado José. Há mais de seis décadas ele passa a maior parte do tempo na água. Nada quase diariamente cerca de 10 quilômetros por dia, está habituado a saltar de navios de mais de 40 metros de altura e é capaz de façanhas homéricas no mar mesmo com seus 80 anos. Zé Peixe, como é conhecido em Aracaju, é reverenciado por marinheiros dos sete cantos por sua humildade, bravura e profundo conhecimento das coisas do mar.

Uma lenda viva.

E, como toda lenda, tem suas particularidades. Desde que começou a trabalhar no porto de Aracaju, Zé Peixe nunca mais tomou um bom banho de chuveiro. Para quê, se está sempre na água? Também quase não bebe água doce. Gosta mesmo é de dar uns golinhos de água salgada nos trajetos que nada. Faz um bem danado à saúde, diz ele.

Conhece como ninguém os segredos da Boca da Barra, onde o rio Sergipe se abre para o mar e bancos de areia se formam de uma hora para outra, colocando em risco as embarcações. Sabe a profundidade das águas pela cor e as correntezas pela variação de temperatura e direção do vento.

Zé Peixe é o prático mais conhecido do planeta. Prático é o sujeito que ajuda os comandantes a conduzir os barcos na entrada e saída do porto, orientando-os a manobrar com segurança. Sua presença é obrigatória em qualquer cais do mundo no momento de atracagem e saída dos navios. O que faz de Zé Peixe uma espécie rara é a maneira como trabalha: ele vai buscar o navio a nado, enquanto seus colegas recorrem a um barco de apoio. E, quando tira o navio do porto, em vez de voltar de barco ele zapt!, salta no mar. Faz assim: enrola a camisa, coloca junto com os documentos e os trocados em um saco plástico e amarra fi rme no calção; mergulha e volta para casa com braçadas elegantes, ritmadas, sem movimentar as pernas para não atiçar os tubarões. Se for uma distância mais ou menos, o importante é não se afobar. O jeito é não brigar com as ondas nem ir contra a correnteza, ele fala, sempre gesticulando suas nadadeiras.

Quando Zé Peixe chega ao porto é uma alegria só. Ele curva seu corpo para cumprimentar funcionários, marujos e capitães, como se os estivesse reverenciando. Não existe ninguém como ele, diz um. Uma fi gura lendária de Aracaju, afi rma outro. Peixinho é um ídolo, conta outro homem do mar.

É certo que o porto de Aracaju não é lá muito movimentado. Mas, por causa de Zé Peixe, ganhou fama internacional, espalhada por navegantes de fora que lá atracaram. Os gringos me chamam de Joe Fish, diz. Certa vez, um capitão russo de um cargueiro chegou a pedir que o detivessem quando estava para se lançar ao mar achou que ele estava se suicidando.

Zé é peixe miudinho. Tem apenas 1,60 metro de altura e 53 quilos. Mesmo franzino, já realizou muitas grandezas. A maior proeza foi quando socorreu o navio Mercury, que ardia em chamas em alto-mar, vindo das plataformas da Petrobrás e com funcionários a bordo. Zé pegou carona num rebocador, ligeiro chegou ao navio e conduziu a embarcação até um ponto onde todos pudessem saltar e nadar para terra fi rme. Eu só fiz o que tinha de fazer, compreende? Ele não gosta de falar muito de si mesmo. Por causa de sua condição física exemplar, ele conseguiu salvar inúmeras vidas, conta Brabo, o chefe dos práticos, que há 26 anos convive com Peixinho. Em 1941, ele e toda a população de Aracaju viram na praia os corpos de náufragos de três navios bombardeados por embarcações alemãs na Segunda Guerra Mundial. A partir daí, ninguém nunca mais se afogou perto dele.

Maré cheia

Desde menino novo, Zé dá suas pernadas no rio Sergipe. Os pais, dona Vectúria e seu Nicanor, que ensinaram. De sua casa, era só cruzar a rua de terra para dar no rio. Em tempo de maré cheia, a água vinha bater na porta. Moleque arretado, José Martins Ribeiro Nunes aprendeu a atravessar o rio para chupar caju na outra margem do rio. Aos 12 anos já nadava muito bem. Sua casa era vizinha à Capitania dos Portos e logo foi reparado pelos marinheiros. De observar a destreza do menino, um almirante o batizou novamente virou Zé Peixe. Quando chegou o tempo certo, com 17 anos, formou-se prático. Dos cinco irmãos, Rita era a única que acompanhava as peripécias a nado.. Naquela época, meninas não se banhavam no rio nem podiam sair andando com trajes de banho só ela, no meio da molecada. Zé lhe ensinou tudo sobre o mar. Ensinou também meus fi lhos e netos. Ele amarrava nos braços bóias de coco seco, que não afunda, diz Rita, uma década mais nova, que de tanto nadar com o irmão levou o sobrenome Peixe.

Zé nunca saiu da casa onde nasceu, umas das mais antigas de Aracaju. Nem mesmo quando se casou, há mais de 40 anos (está viúvo há 20 e não teve filhos). Ajeitou uma casa para a mulher, mas não arredou o pé de lá sempre estava cuidando de alguém da família, ora a mãe, ora um irmão enfermo. Vou morrer aqui, diz. Mas só quando o capitão lá de cima desejar.

Hoje uma avenida asfaltada o separa do rio. Quando não está no porto, Zé vai até lá para cuidar de seus três barquinhos de madeira ancorados. Se não tiver um barquinho pra brincar fico doidim. O casebre por fora é pintado de branco, mas dentro é todo azul. Está entulhado de cacarecos que juntou pela vida, entre eles títulos e medalhas. Não joga nada fora e não gosta que arrumem sua bagunça. Tudo remete ao mar: miniaturas de barcos espalhados pelos cômodos e desenhos de lápis de cor grudados nas paredes. E muitas imagens de santos católicos. Quem chega da família já vai pedindo a bênção. E tem também quem chega para pedir uns trocados. É que Zé costuma distribuir seu salário aos pedintes. Velhos pescadores que não podem mais trabalhar, desempregados e inválidos conhecem de perto sua bondade.

Espécie rara

Mesmo aposentado há mais de 20 anos, Zé Peixe continua trabalhando por gosto. Acorda cedo, com o escuro. Não tem hora certa para trabalhar. Depende do fluxo de navios no porto. E das marés. Acostumou seu corpo a comer pouquinho, porque barriga cheia não se dá com o mar. Dá gastura. De manhã, basta um pão com café preto. E, depois, só fruta. Quando passa o dia inteiro no porto, faz jejum. O doutor já confi rmou: Zé tem coração de menino. Nunca fumou nem bebeu. Seu vício mesmo é o mar.

Se não está a pé, está com sua bicicleta. Sempre descalço. Só usa sapatos aos domingos, para entrar na missa, ou em ocasiões especiais. Teve uma época que, para não fazer feio, o danado andava com um sapato. Um dia descobri que o sapato não tinha sola, confessa o amigo Zé Galera. Ele é o único que tem autorização para andar maltrapilho no terminal marítimo, sempre de bermuda acima da cintura e pés no chão. Por ser uma raridade, um cidadão totalmente fora do padrão, ele virou uma exceção às regras, conclui Galera, que aprendeu a nadar com ele aos 6 anos e hoje é seu companheiro na praticagem.

Ele é meu herói, diz o deputado Fernando Gabeira. Quando estava exilado na Alemanha, o deputado viu uma reportagem sobre Zé Peixe. A história do bravo nadador chamou sua atenção. Quando retornou ao Brasil, foi conhecer de perto o tal sergipano. É uma figura extraordinária. Tentei fazer um filme sobre a vida dele, mas ele não quis, conta.

Zé viveu numa época em que não havia carro nem televisão. Viu o manguezal sendo aterrado e os navios minguando com o impulso rodoviário da década de 50. Enquanto Aracaju é tomada por edifícios e shopping centers que vão transformando os horizontes da cidade, Zé Peixe ainda ensina aos sobrinhos e aos filhos destes os mistérios do rio e do mar. Dizem que o mar não estará para peixe em algumas décadas. Enquanto isso não acontecer, Zé Peixe continuará nadando por lá. E como sempre, ao emergir do mar, fará um pequeno sinal na testa, agradecendo por mais um dia na água.



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Assista o vídeo abaixo sobre o sepultamento de Zé do Peixe.

http://g1.globo.com/se/sergipe/setv-2edicao/videos/t/edicoes/v/corpo-do-pratico-ze-peixe-e-sepultado-em-aracaju/1923553/

Assunto: Zé Peixe, adeus a um SENHOR Prático

Pois é, o Zé Peixe faleceu dia 26/04, mas deixou uma bela lição de vida honesta e de amor à profissão. Que essa garotada deslumbrada com os salários de hoje tenham no Zé Peixe um exemplo de dignidade.

A minha homenagem a esse HOMEM DO MAR !!!

NUNCA MAIS VAI EXISTIR UM OUTRO IGUAL...

http://www.youtube.com/watch?v=VszrWX8g6Ik 



De:   

Enviado por: "maraberto" maroceano@terra.com.br   maroceano2003

Sáb, 5 de Mai de 2012 1:43 pm