dependíamos para o sustento, andar por aí quando não tinha estrada. Quando
você vê um canoeiro remando em pé numa frágil canoa nas águas mansas do
canal de São Sebastião, é sinal que ali vai um caiçara”. A maré embala a
orla, onde repousam tranquilas estas coloridas senhoras. Engana-se quem vê
sua serenidade: quando necessário, conduzem seus hábeis tripulantes para mar
afora. Testemunhas de impressionante perícia, as canoas caiçaras são
originárias da arte indígena de se construir, com um único tronco escavado,
os meios de transporte para os nativos se deslocarem por todas as povoações
de marinha e pelas ilhas da região. Elas estão presentes até na Ilha de
Búzios, distante 24 quilômetros da costa.
“Esta região é conhecida, e antigamente o foi muito mais, pelas suas enormes
canoas, cavadas na madeira sólida; vi algumas de dimensões inacreditáveis”
Com o tempo, o caiçara aprimorou suas técnicas de feitura. Acrescentou a
vela, originando a canoa de voga, magnífica embarcação com grande capacidade
de deslocamento, único meio de transporte de muitos, levando a longínquos
destinos, como Santos e Rio de Janeiro, movidas a braço e vela. A propósito,
a destreza do comando nestas viagens era respaldada pela sorte, como vemos
no relato de um espantado engenheiro que visitou nosso litoral em 1906:
“Em geral estas vogas não levam apenas aguardente, embora constitua o
carregamento de maior monta. Frequentemente segue grande quantidade de
‘quitandas’, e é uma das cousas mais curiosas ver uma destas prompta para
partir. Há de tudo a bordo: limões, cocos, e outras fructas, cabritos,
perus, gallinhas, e patos, ovos, esteiras, e objectos de barro, enfim, uma
infinidade de productos diversos (...). Muitas vezes embarcam ainda
passageiros, de maneira a tornar-se um verdadeiro enigma como tudo aquilo se
arranja no caminho”.
Oferecem, em nossas areias, uma bela imagem, com o conjunto dos apetrechos,
o balaio, a rede e o remo. Atualmente, muitas canoas ainda circulam em nosso
canal, nas pescas, nos passeios, transporte de passageiros e no leva e traz
de mercadorias dos moradores de comunidades ainda isoladas, como a Praia do
Bonete,Baia dos Castelhanos,
foram modernizadas com motores, mas conservam ainda o antigo charme.
Batango na canoa BRASIL, Ilhabela - 1951
Nosso presente é construído sobre aquilo que
fomos no passado.
Jeannis Michail Platon, mergulhador, escritor
Original: CONFRARIA-DO-