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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

UMA PESCARIA MEIO CONTURBADA - Causos e Contos do Maga

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17 - UMA PESCARIA MEIO CONTURBADA

Naqueles primeiros tempos, depois que formamos a Federação Paulista de Caça Submarina, os clubes que intervinham nas diversas provas que constituiam o campeonato estadual da modalidade apresentavam equipes integradas por sete elementos, e cada prova desenvolvia-se nos dois dias de um fim de semana. Só alguns poucos competidores possuíam embarcações próprias, e assim o número elevado de integrantes das equipes era justificado, ajudava a diluir o custo de fretamento de barcos profissionais para conduzí-los à área de pesca. Só bem mais tarde, quando eu passei a presidí-la, as equipes seriam racionalmente reduzidas para apenas quatro componentes, o suficiente para cada lancha, e as provas decididas em um único dia de pescaria.

Tínhamos constituído, com a participação também de ex-alunos dos cursos que ministrava na Associação Cristã de Moços paulistana, outro clube de mergulho próprio nosso, o Grupo de Pesquisas Submarinas. Este era mais dirigido a atividades outras que não apenas o mata-mata de peixes, como o próprio nome indicava. Criamos para divulgar nossas notícias e objetivos uma modesta mas muito informativa revista, a “Delfim”, promovemos com inteiro sucesso exposições estaduais e nacionais de fotografia e cinema submarinos, então uma absoluta novidade no Brasil.

Também com o respaldo de nossa entidade registrei um efetivo método de aumento da capacidade pulmonar para propiciar apnéia demorada, método que foi comunicado à Associação Paulista de Medicina, e consta das apostilas do Serviço de Salvamento em Água do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo. Realizávamos no grande auditório da ACM concorridos jantares mensais, a que eram convidados palestrantes a discorrer sobre os vários aspectos do mergulho, principalmente aqueles de fundo técnico e científico.

Mas a caça submarina era ainda o que mais atraía os integrantes do clube, e certa vez preparamo-nos para participar de mais uma das provas estaduais, esta a realizar-se em Ilhabela. No sábado aprazado, lá estavamos nós, representados por duas equipes, uniformes bonitos confecionados especialmente para tais ocasiões, enfileirados na cerimônia de levantamento de bandeiras que sempre precedia a atividade de procura e captura dos peixes.

Captura é uma palavra ainda hoje designada eufemìsticamente na caça submarina para significar morte. Pode ser usada mais adequadamente para a pesca pròpriamente dita, que supõe o engodo do peixe com uma isca, e depois sua subida preso ao anzol. Mas caça submarina é outra coisa, o peixe é atravessado pelo arpão, apesar de que nas duas modalidades seu destino é o mesmo, a panela. Fica-nos a ressalva de que não enganamos o pobre bicho, estamos lá para resolver rápido seu passamento.

Ocorre que naquele específico campeonato estava ocasionalmente na ilha uma conhecida da beira da piscina do Esporte Clube Pinheiros, que, por coincidência, era também sobrinha do proprietário de um salão onde costumávamos nos reunir para desenvolver as atividades de nosso grupo de mergulho. Não que ela treinasse natação sèriamente como eu fazia na equipe campeã do Pinheiros, nem que, em verdade, se interessasse muito pelas excursões submarinas combinadas nas reuniões realizadas no salão do tio. Apenas gostava de frequentar esses ambientes, e, já que estava ali, cismou de acompanhar-nos na pescaria.

Eu tinha fretado antecipadamente uma grande traineira de pesca, que comportava as duas equipes de nosso grupo. Estariam a bordo catorze homens, mais os três profissionais da tripulação. Muito homem junto, e estaríamos empenhados desde a manhã até a chegada da noite na dura captura dos peixes, não poderíamos lhe dar atenção. E os recursos de habitação que o pesqueiro dispunha resumiam-se num sanitário tosco, o fogareiro diminuto em que os tripulantes preparariam nossa comida, e uns poucos estrados no porão, suficientes para o sono da reduzida tripulação. Mais nada. Então, a presença de uma mulher a bordo numa pescaria de dois dias era perfeitamente inadequada.

Inda mais, pensei, tratando-se de uma jovem tão atraente e vivaz como ela. Tão bonita era, fruto de mistura feliz de pai germânico e morena típica brasileira, que acabou seguindo a carreira artística, tornou-se mais tarde atriz de sucesso em novelas televisivas e peças teatrais. O próprio presidente da federação esportiva que organizava a competição derramava-se em atenções sobre a moça, ressaltava frequentemente comigo os dotes físicos que resultaram dessa união de raças distintas. Até o ligeiro estrabismo de seus olhos constituiam um “it” epecial para ele, não cansava em me repetir isso.

Tentei demovê-la, em vão. Não houve argumentação que a convencesse a desistir da idéia, e eu, pela amizade que tínhamos, não poderia negar consentimento ao seu embarque. Assim fomos todos em direção à área designada como pesqueiro permitido pela direção da prova, a costeira externa e distante, batida pelas ondas oceânicas, da grande Ilha de São Sebastião, mais conhecida como Ilhabela.

Nesse primeiro dia a presença solitária de uma mulher a bordo não influiu decisivamente no desempenho de nossos caçadores submarinos. Todos se encantaram com a moça auto-convidada, alguns mais que outros, mas a produção ao fim dessa etapa da prova até que foi razoável. Verdade é que, durante meus mergulhos, notei um retorno muito frequente de meus companheiros ao barco, de onde a jovem nos observava. Mas atribuí isso à pouca experiência e menor preparo físico dos colegas. A pausa seria para um descanso talvez necessário, aquecer-se um pouco ao sol, mastigar um sanduiche revigorante.

E chegou o crepúsculo. Navegamos para um local abrigado, o Saco do Eustáquio, onde o barco fundearia com mais segurança e não balançaria tanto durante a noite. Jantamos aquela comida simples mas apetitosa preparada pelo mestre da embarcação, e veio a hora do repouso. Como já esclareci, o barco não oferecia nenhum conforto a quem se acostumara a camas macias de sua residência paulistana. Apenas uma grande lona, estendida de bordo a bordo sobre uma verga, prevenia precàriamente uma molhadeira geral, se acaso chovesse. Mas felizmente o tempo estava firme, o céu límpido coalhado de estrelas. Debaixo desse toldo e sobre o chão de madeira do convés fedendo a peixe, foram estendidos os colchonetes de meus companheiros.

Já que não se anunciava chuva, eu preferi esticar meu colchonete junto à proa, ao lado de uma pilha de amarras não utilizadas. Ali teria a visão das constelações solares. Visão romântica, concordo, mas sempre preferi em tais ocasiões dormir ao ar livre. Fazia isso desde criança, quando seguidamente recebia reprimendas de minha mãe, por escapar de minha cama e dormir em noites estreladas no chão do terraço descoberto contíguo a meu quarto.

E a jovem companheira? Não, ela não trouxera colchonete nenhum, e era evidente que não conviria que dormisse no porão do barco, isolada junto aos três tripulantes. Não conviria, mesmo que sobrasse ali algum estrado para ela, junto ao compartimento de gelo que preservava o pescado já arpoado. E a noite, por outro lado, com o céu assim aberto logo esfriaria, ela trouxera cobertor? Também não.

Restou-lhe compartilhar ambos comigo, colchão e cobertor, e pareceu-me na ocasião que ela antecipou isso desde o início de sua aventura, suposição que para mim soava bastante animadora. Só não sabia que essa antecipação a levara a prevenir-se de uma forma tão definitiva em relação ao que poderia suceder nessa divisão noturna de colchão e cobertor.

Ora, a situação prenunciava o que ia acontecer, ou não acontecer. Apesar de que nosso relacionamento anterior sempre se limitou a uma simples amizade, ninguém poderá me culpar pelo que inevitàvelmente sucedeu. Afinal, sou humano. Mais que humano, era então também jovem, solteiro e desobrigado de limitações e convenções. E cheio de testosterona.

Enrolados no meu cobertor, o contorno perfeito de suas formas contra meu peito, sua respiração e seu batimento cardíaco sentidos alternando-se com os meus, os meus bem mais acelerados, já após alguns minutos iniciei a tentativa de promover uma fusão mais completa de nossos corpos.

Só não contava com a preparação prévia que fez para a contenda esperada. Ela vestira, no banheirinho de bordo, um macacão inteiriço de malha preta, desses que, ao que me parece, usam às vezes as bailarinas de dança clássica. Justo em seu corpo, pareceu-me a princípio ainda mais convidativo que o biquini que usara durante o dia.

Mais convidativo? Estava redondamente enganado. Aquele agasalho frágil mostrou-se, ao longo da luta que se seguiu, uma verdadeira armadura medieval, uma daquelas que, séculos atrás, pais zelosos e maridos preocupados obrigavam filhas e esposas a vestir em sua ausência, e lhes passavam cadeado.

Não havia nele fresta alguma que eu descobrisse às apalpadelas aflitas, não havia ponto naquele supostamente delicado tecido que deixasse de resistir às minhas tentativas de penetração. Nem sei como ela entrara nele, talvez pela gola junto ao pescoço. Lembrando tudo isso depois, achei que o que me faltara, naquele intenso ataque, fora uma simples lâmina, uma simples meia gillete que gentilmente, com segurança, vencesse as paredes inexpugnáveis daquela fortaleza que a protegia.

E os demais companheiros, espalhados em seus colchonetes ao longo do amplo convés, percebi logo que eles não estavam ferrados no sono como imaginara. A cada investida minha, de esguelha percebia cabeças aqui e ali se erguendo em nosssa direção, imaginando, imaginando. Eu cansava, dava-me e a ela uma trégua, argumentava, adocicava, procurava convencer a companheira à abertura das portas tão almejadas, e as tais cabeças também baixavam, pareciam aquietar-se. Toda essa alternância de investidas e descansadas eram seguidas ansiosamente pelas cabeças imaginativas de meus companheiros.

Enfim, tudo isso só terminou lá pelo meio da noite, quando terminaram também minhas esperanças, paulatinamente substituídas pela exaustão. E só então pudemos dormir. Ela, eu, todos.

Na manhã seguinte, mal rompido o sol, lá estava ela novamente em seu biquini sobre o maravilhoso corpo bronzeado. Afável, sorridente, como se nada diferente houvesse acontecido no embate noturno. Acho que ela estranharia se não tivesse ocorrido a tentativa frustrada. Talvez isso lhe abalasse um tanto a fé em seus encantos. Ou talvez ela pensasse mal de mim se não tentasse tão desesperadamente, sei lá.

Após o café, levantamos ferro em busca de outros locais adequados à caça. Sabidamente, o peixe é mais abundante nas pontas rochosas mais salientes, batidas pelas ondas, mais perigosas também ao mergulho. O risco de sermos atirados às pedras, ou de acabarmos presos a uma toca pela entrada súbita de uma corrente forte, era compensado pela probabilidade de arpoarmos peças maiores.

Mas o mar lá fora havia virado, um começo de ressaca vinda de Sueste, turvando as águas na costeira exposta a ela, levou-nos a retornar às proximidades do Eustáquio, abrigadas de seus efeitos. Nossa jovem companheira nadou até a pequena praia que existe ali, para esticar-se na areia junto ao arvoredo, e nós nos deslocamos mais para o lado da ponta externa do Saco, a tentar os peixes que, embora não tão numerosos e pesados, ainda existiam naquele local quase nunca frequentado.

Pouco depois, a surpresa. Minha arma se inutilizou. Os anéis de borracha do pistão volante, que seguravam o ar comprimido que impulsionava o arpão, sùbitamente deixaram escapá-lo. Não me precavera, como passaria a fazer no futuro, com pistões de reserva, nem com arma de reserva. E os companheiros também não os tinham. Fiquei algum tempo no barco, desolado, a acompanhar de longe a faina dos colegas. Depois, nada mais me restando fazer senão esperar a chegada da tarde, quando teríamos de voltar à cidade de Ilhabela a tempo do horário de pesagem dos peixes conseguidos, nadei para a praia, a fazer companhia à minha amiga.

A pescaria dos colegas naquela manhã não foi grande coisa. Talvez pela pobreza do pesqueiro, talvez pelo cansaço de uma noite que foi, suponho, também para eles mal dormida.

Nossas equipes se classificaram mal, bastante mal. E, naquele ambiente esportivo em que todos se conheciam, logo correu a explicação. Explicação que me prejudicava, prejudicava minha situação de dirigente do clube, diretor da federação promotora do evento, futuro presidente dela. Eu, o mais experiente, o mais tarimbado da equipe, teria abandonado o campeonato, largado meus companheiros, para dedicar-me integralmente à companhia tentadora, etc., etc., de nossa atraente acompanhante.

Não consegui reunir argumentos que desfizessem essa estória inventada para justificar nosso natural insucesso. Natural, pois meus ex-alunos eram todos principiantes no affair, e eu próprio não tinha aquela gana de matar, aquela ânsia de arpoar e arpoar que faz um exitoso caçador submarino.

Mesmo sendo assim, mostraria no futuro que não me saia mal em disputas, sempre as levei a sério, apesar da descrença do momento. Até cheguei a vencer algumas poucas provas de campeonato estadual e outra numa disputa nacional, realizadas em pesqueiros difíceis como as ilhas de Alcatrazes e Queimada Grande, e em condições de mar péssimas, minha especialidade .

Mas só o tempo desfaria aquela estória saborosa de uma jovem escultural a bordo de um barco cheio de marmanjos em Ilhabela, na competição de caça submarina daquele ano. Sobrou-me só isso, a estória inventada que me atingia. Não tive infelizmente a ganhar, dos fatos acontecidos e aqui fielmente descritos, senão isso. Senão isso.


Com Autorização do Maga

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