A MORTE DO AMIGO, REGATINHAS PIONEIRAS,
E AO FIM UMA CRONIQUETA SOBRE CERTA NOITE CARIOCA.
A morte prematura, inesperada, absurda do Jöerg (leia-se Iorgue, é como o chamávamos na intimidade, depois abrasileirado para Jorge) afetou-me profundamente. Soube dela no primeiro momento. Estava no amplo salão da redação da “Folha de São Paulo”, era o dia em que ia lá almoçar no apertado mas divertido restaurante interno, comer aquela comidinha barata e gostosa. Encontrar e papear com os amigos do jornal, e depois entregar ao Fininho, chefe do setor no qual colaborava, o material que preparara para a coluna semanal sobre mergulho que assinava nos jornais do grupo. Mas naquele começo de tarde havia algo diferente, alguma coisa nova e importante no ar. Um zumzum, repórteres se reunindo numa mesa, ora noutra, rostos tensos, numa movimentação unusual mesmo para uma redação de um dos maiores diários do país.
Perguntei a alguém o que havia, e veio a notícia. Um avião da Varig caíra nas proximidades do aeroporto de Orly, e pegara fogo. E logo a complementação, que até hoje, quando lembrada, não consigo evitar calafrios, sinto-os mesmo aqui, agora, sentado diante do teclado. Morrera muita gente, o avião estava cheio. Gente conhecida, contou. O cantor Agostinho dos Santos, o senador Filinto Muller, o .... E um esportista, um tal de Jorge Bruder ...
Eu sabia, sim, que ele estava
Contei sobre minha vontade de introduzir a Vela em nosso recém-criado clube, e ele comentou sobre outro veleiro que estava também em projeto de construção, um barquinho sem leme, com o mastro móvel abatendo-se para os quatro lados, para mudar o centro de aplicação da força do vento e assim conseguir determinar o rumo da embarcação. Alguma coisa como as pranchas de windsurf que depois se vulgarizariam também por aqui, só que maior e mais estável. Talvez esse fosse o barquinho adequado para começarmos ...
Combinamos que, retornado da disputa de mais um campeonato mundial de “Finn”, para a qual embarcaria logo mais e que certamente, mais uma vez, a quarta vez, devia vencer, ele desceria a Ubatuba num final de semana. Exporia ao nosso pessoal as coisas da grande Vela competitiva internacional, projetaria slides de suas viagens, e estudariamos juntos qual classe de monotipos seria realmente a mais apropriada para um início de implantação do esporte vélico em nossa associação e na região.
Isso fora dois dias antes. Apenas dois dias antes. Aí se explica o choque maior. Ainda estavam soando em meus ouvidos suas palavras, que me animaram num propósito a cada dia mais reforçado: voltar à Vela. Nunca a abandonara realmente, mas a falta de oportunidades mais frequentes para sua prática, e principalmente o trabalho de sobrevivência que me levara para o lado do mergulho, me afastaram um pouco dela --- e eu sempre soubera que velejar era para mim o mais importante da vida.
Passados os primeiros minutos de estupor, caí em mim, voltei ao Fininho e disse que gostaria de substituir a coluna que eu acabara de lhe entregar, queria deixar algo sobre a morte do amigo. Ele disse para eu pegar alguma das máquinas de escrever nas mesas vazias, eu sentei-me e preparei de arranco um texto lembrando aquele saudoso verão de 56, aqueles dois meses e meio que passáramos juntos navegando e pescando de mergulho nas águas do então pouco conhecido litoral norte paulista.
Emocionado, entreguei as laudas preenchidas ao Fininho, enfatizando que, pela primeira vez desde que fora convidado a colaborar no jornal, escrevera na primeira pessoa, era coisa muito pessoal, mas gostaria que não fosse nada mudado. Passei-as a ele temendo que a publicação não fosse aprovada, pois o inacessível Cláudio Abramo, diretor e redator-chefe (depois dele viria o mais simpático Boris Casoy), postado lá perto em sua grande mesa junto à parede do salão, não permitia que nós, simples colaboradores, nos afastássemos do tema específico que nos cabia. Mas ele leu o texto, respondeu que o achara muito bom e iria à impressão assim mesmo, sem mudar-se uma vírgula. Foi a pequena homenagem que prestei ao amigo que nos deixara de forma tão insólita, ainda tão jovem e com tantas perspectivas pela frente. Não fosse ceifado assim cedo traria muitas outras glórias à vela nacional. Imbatível, com sua versatilidade, sua adaptabilidade a qualquer classe e barco e seu estupendo preparo físico, seria talvez o maior velejador brasileiro de todos os tempos.
Assim, além do trauma da perda de um companheiro de tantas boas lembranças , das acampadas semanais à beira da Guarapiranga às posteriores viagens de barco e de motocicleta a Ubatuba, das caçadas submarinas e de outras ao sexo oposto nas noites praianas, a morte trágica do Jöerg Bruder me fez postergar a empreitada --- e foi realmente uma empreitada --- de procurar difundir a atividade veleira em nosso litoral norte.
Certo dia conheci o argentino Jorge Horácio Anël, que depois viria a se tornar um amigo. Ele fabricava de forma pioneira, num barracão em Diadema, nos arredores de São Paulo, um pequeno e interessante veleiro em fiberglass, material ainda novo por aqui, a que deu o nome de “Starfish”. Jamais fiquei sabendo se reproduzira as formas de um similar importado, ou copiara com pequenas modificações um barco parecido americano, o “Sunfish”, que constituía a classe mundial mais numerosa, com mais de cem mil unidades fabricadas. Mas gostei de seu barquinho, não custava muito e parecia ser o que precisávamos.
Esses “Starfish” foram então a base do desenvolvimento do esporte em nossa área. Ao longo de dois ou três anos encomendei ao Jorge Anël sessenta e seis unidades, mas apenas o casco nu, nada mais. Mastros e retrancas eram tubos de alumínio, eu os preparava pessoalmente em Ubatuba, e fazia também, a serrote e lixadeira, os lemes e bolinas de contraplacado de madeira. Ferragens eram preparadas na morsa, utilizando retalhos de chapas de inox comprados em ferro-velho e perfis de alumínio, aí incluídas as governaduras, garlindéus, cunhos e até os moitões de escotas.
A intenção era baratear ao máximo o barco, e mesmo que quisesse comprar prontas tais ferragens haveria dificuldades, sua fabricação era rara e também meio artesanal. Ao que sabia, na área náutica paulista apenas o Alfio, irmão do conhecido artesão de belíssimos barcos de madeira na Guarapiranga, o lendário Flório Zottarelli, os produzia. Mas os fazia bonitos, em material mais adequado e caro, e não primitivos, toscos, como os que saiam de minhas mãos. Que, porém, funcionavam a contento, tão bem quanto.
Já as velas eu as encomendava ao amigo de muito tempo, o estimado (Gunther) Renato Dombrowski. E não eram latinas como o Jorge Anël montava, usadas também nos “Sunfish” americanos, mas sim uma armação em eslupe, com uma grande presa ao mastro à maneira antiquíssima, com cabinhos atados a ilhoses, e mais uma vela menor na proa. Nada de brandais de aço inox, nem mesmo de galvanizado, eles encareceriam o produto final. As próprias adriças, de barato poliester, passadas e amarradas em simples furos abertos numa e na outra borda do barco, faziam esse papel, e a cordoalha de reforço da testa da velinha de proa, um vez ela envergada, sustentava também o mastro, à guisa de estai. Nada de olhais, nem passadores, nem esticadores. Simplicidade funcional máxima.
Visto lateralmente e de certa distância, ele lembrava bastante um filhote de “Snipe”, tinha linhas semelhantes, sugeriam elegância e velocidade. E o barquinho era mesmo rápido, principalmente nos primeiros tempos de uso, quando as velas de nylon, material barato mas inadequado pela sua fácil deformação anelástica, não estavam ainda embarrigadas.
Certa vez fomos procurados por um dos sócios da Coast Catamaran do Brasil, o Manfred Von Schafthausen, cujo estaleiro começara a produzir, sob licença, os famosos multicascos Hobie Cat
Na noite anterior à prova, o Manfred exibiu para nós assistentes deslumbrados, numa tela improvisada ao ar livre num recanto diante de nosso antigo e modesto barzinho-sede, um filme captado em águas americanas mostrando as maravilhas do seu afamado catamarã. Alguém, mais desconfiado, até juraria que o filme, colorido e
E chegou o dia da regata, uma única programada, de percurso relativamente extenso num triângulo montado na enseada fronteira ao clube. Para separar bem os barcos das classes disputantes, visando um controle mais fácil das classificações, e como os cats visivelmente seriam mais rápidos que as outras classes disputantes, seu tiro de partida foi dado três minutos antes dos “Starfish”. E noutros três minutos depois sairiam os poucos “Pinguins” de que dispúnhamos.
Soprava um vento médio e constante em direção, o que reduziu um tanto o fator sorte e possibilitou uma velejada mais interessante e rápida. Mas sua força foi suficiente para provocar, com a inclinação que os barcos tomavam nos travezes e contraventos, o escorregamento para a água da proeira de um dos barcos que eu montara, a própria filha do timoneiro. Nada preocupante. O pai atirou-se também à água, emborcou o barco e segurou-o até que a jovenzinha se aproximasse nadando. Desvirou então o veleiro e ajudou a menina a voltar para bordo, prosseguindo na prova alguns poucos minutos depois.
Ao final, a surpresa: os “Starfish” haviam recuperado bastante da distância que, na partida, os separara dos “Hobie-Cat”. Assim ameaçado durante o transcorrer da disputa, o Manfred, que encabeçava a flotilha, depois de cruzar a linha de chegada embicou seu cat na praia aliviado e exultante:
--- Ganhamos, ganhamos, exclamou-nos ao colocar os pés na areia. O que ele queria dizer, e normalmente seria o obvio, era que os barcos que fabricava venceram as outras classes participantes. Mas seu entusiasmo logo se transformou em total desaponto, ao ser lembrado de que, apesar de vencer entre os catamarãs e chegar um pouco à frente de todo o pelotão, perdera em tempo real de um dos “Starfish”, devido à diferença de três minutos entre os dois tiros de partida. E o barquinho em questão fora justamente aquele que gastara um tempo precioso com a queda da menininha à água!
Uma performance surpreendente dos modestos “Starfish”, nossos veleirinhos improvisados, simplificados, barateados. Mesmo considerando que o timoneiro vencedor, o Oswaldo Kemeny, nosso associado, era um bem sucedido participante de regatas de outra classe mais competitiva na Represa de Guarapiranga. Mas o Manfred, de sua parte, seria em tese ainda melhor velejador --- afinal já fora campeão continental de outra classe muito disputada, a “Lightning”. A explicação pode ser encontrada no desempenho fraco desses multicascos, desprovidos de bolina ou qulha, nos contraventos. Mas essa regata, de memória inscrita com minúcias nos informativos do clube, foi durante muito tempo comentada com humor quando surgia o assunto da velocidade dos catamarãs.
Passou-se o tempo, os “Starfish” do clube haviam envelhecido um tanto junto com seus donos, ocorria um decréscimo de interesse na atividade vélica. Precisávamos fazer alguma coisa para renovar a flotilha vélica do clube. Aí, em certa ocasião, visitando o Iate Clube do Rio de Janeiro, conheci o “Laser”, recém-chegado ao país. Suas linhas, modernas mas não exageradas, justificavam a fama que já haviam adquirido por aqui, e encantavam a todos os adeptos da Vela, sobretudo a safra nova, a moçada. Resolvi fazer força em sua venda, fui até São Gonçalo, cidade perto de Niterói, em cujas vizinhanças situava-se o estaleiro dos “Lasers”. Conversei longamente com os fabricantes, donos da Performance Sailcraft do Brasil, e saí ganhando sua representação em minha área geográfica.
Não que, como negócio comercial, lucrativo, valesse muito a pena vender esses barcos --- como também a montagem e venda dos “Starfish” não acrescentara nada, ou quase nada, a meus proventos. Movia-me apenas o prazer de ver todos aqueles veleirinhos com seus panos abertos em nossas águas ubatubanas, organizar regatas e passeios conjuntos a locais próximos. Chegamos a ter regatas muito numerosas, houve uma com cento e quarenta e nove veleiros monotipos cruzando na enseada fronteira ao clube, até hoje um recorde na região. E isso valia todo o esforço. A pequena comissão recebida da Performance pagaria apenas as despesas de transporte dos barcos até Ubatuba, e eu os traria a reboque, aos poucos, pois o frete em caminhão ficaria caro e poderia danificar os cascos e demais implementos.
Assim, desmontei minha antiga carreta, a que transportara os “Starfish” a Ubatuba, e utilizando os mesmos velhos eixos elaborei em madeira outra maior, com possibilidade de receber até quatro barcos em seus “andares”. Com mais outro que viria sobre o carro, buscava otimizar a operação de translado, barateando-a. Mas, se um “Laser” sobre minha pequena WW Brasilia já chamava a atenção dos policiais rodoviários da Rio-Santos, o arrastar aquela carreta monstruosa a reboque com todos aqueles barcos empilhados os fazia engulir o apito a cada vez que passsava num posto de controle.
Era parado várias vezes em cada percurso, sempre havia problemas com os policiais, apesar da documentação perfeita dos dois veículos, o meu carro e a carreta. Numa ocasião retiveram-me por muitas horas num posto rodoviário isolado, numa noite chuvosa, e o diálogo com meus aprisionadores foi tenso, muito tenso, não sou de meias palavras. Quando finalmente me liberaram fiquei com fundado receio de que, mais adiante, num barranco da estrada, fosse atirado montanha abaixo sobre as pedras da costeira. Não vou aqui estender-me contando todos os apuros por que passei nessas viagens, tanto na estrada quanto nas cidades que atravessava, todos os assaltos ou quase-assaltos, mas não é grande exagero afirmar que talvez os perigos que enfrentei foram maiores do que os que toparia se trouxesse os barquinhos velejando de Niterói até Ubatuba. Coisas do Brasil e de brasileiros, que fazer?
Essa tensão nas idas ao Rio e São Gonçalo aliviou-se um pouco quando me ocorreu fazer humor sobre a situação. Mandei pintar duas faixas largas de pano, que prendi a cada lado da alta carreta, com grandes dizeres anunciando: “JÁ FUI FISCALIZADO ...... VEZES”. E a cada viajem corrigia, preenchia pintando à mão o espaço deixado vazio: trinta e sete vezes, depois trinta e oito vezes, trinta e nove vezes, .... sessenta e sete vezes ...
O estratagema funcionou, os policiais achavam graça na coisa, o clima opressivo da fiscalização se quebrava, isso quando havia fiscalização depois das risadas. Fiquei conhecido pelos fardados do pedaço, dava eventualmente carona a eles, e quando um desses caroneiros soube, em conversa jogada fora, que em meu clube criava cães pastores, a informação se espalhou entre seus colegas, aí então não tive mais paz. Melhor dizendo, aí é que as pastoras do clube não tiveram mais paz, tinham que procriar direto, a cada volta do Rio eu trazia uma ou mais encomendas de cachorrinhos a serem presenteados aos novos amigos rodoviários.
Uma lembrança bem agradável guardei dessas viagens a São Gonçalo: o quibebe de gerimum que sempre me aguardava no estaleiro da Performance Sailcraft. Costumava almoçar junto com os funcionários, por oferecimento deles, no próprio local de trabalho. Comida gostosa, simples e gostosa. Aí a cozinheira do estaleiro, gorda e simpática senhora, encantou-se com meu encanto à primeira vez que me foi colocado um prato de quibebe à frente. E não deu outra, a cada viagem ela era informada antecipadamente de minha chegada, e o saudoso quibebe nunca me faltou.
Normalmente saía de Ubatuba pela manhã, num dia útil de meio de semana, e no início da tarde já estava num posto de gasolina da Avenida Brasil, próximo ao início da ponte Rio-Niterói, onde deixava a carreta até a manhã seguinte. Perambular com ela pelo Rio era problemático, e o hotel onde ficava mal oferecia estacionamento para meu pequeno carro. Hospedava-me geralmente no Único, no Flamengo, de poucas estrelinhas mas barato e a apenas uma quadra da praia. Na manhã posterior fechava a conta do hotel, buscava a carreta, atravessava a ponte para Niterói e ia comer meu quibebe
Com a repetição frequente dessas idas ao Rio e à Performance Sailcraft para buscar os “Laser”, e depois também à Trimar, o estaleiro do Jacques Mille e do Mário Besse, de onde passei a trazer os bons veleiros 445 de projeto francês, canoas canadenses e pranchas de Windsurf, veio-me a idéia de manter um veleiro à minha disposição na Marina da Glória. Pensava ficar um dia a mais no Rio a cada viagem, para aproveitá-la melhor divertindo-me um pouco. Dar umas velejadas na bela baía que só conhecera em duas regatas, uma na Escola Naval e outra no Rio Sailing Clube. Talvez comprasse um dos pequenos cabinados de madeira classe “Carioca”, cuja colocação na água não era difícil. Com sorte, poderia achar um barato, e daria até para dormir nele, dispensando o hotel. Eu já tinha um irmão morando no Rio, mas sua residência ficava na Barra da Tijuca, longe de meus interesses. Além disso, apaesar de seu oferecimento constante, não queria incomodá-lo em seu apartamento luxuoso onde não estaria tão à vontade --- apenas almoçei lá umas poucas vezes.
Com esse pensamento, dirigi-me ao escritório da Marina da Glória à busca de informações. Seu diretor de então, um velejador conhecido do qual não recordo com certeza o nome, esclareceu que não havia no momento vagas disponíveis, existia até uma pequena fila de interessados à espera que uma se abrisse. Mais: quando disse que residia em Ubatuba e expliquei meu intento, ele ajuntou que seria dada preferência a quem morasse no Rio. Para mim não seria problema, pensei, podia fazer a reserva em nome do irmão, mas deixei isso para mais tarde, queria avaliar melhor no assunto.
Comecei a me despedir, mas acontece, porém, que sentado ao lado do diretor em sua mesa estava uma figura, uma figura sorridente que me reteve um pouco mais. Talvez um pouco mais novo que eu, foi-me apresentado como Nelson. Pensei de início que fosse um funcionário da marina, mas não, era apenas um amigo do diretor,
Eu entendia bem do assunto, porque os primeiros barcos que atuaram na região conduzindo turistas pertenciam a amigos meus , e um deles, o primeiro, só entrara no ramo por insistência minha. Desenhei um panorama do tema para o tal Nelson, que entusiasmou-se, perguntou se eu não aceitaria operar sua embarcação em Ubatuba, dividiríamos os lucros. Ora, eu mesmo já estivera a ponto de comprar a maior escuna aqui existente, um belo barco, robusto e semi-novo. O “Tatiana”, vindo de Recife, de vinte e um metros de convés, que me foi oferecido com facilidades tais que apenas com o lucro de operação de dois verões eu o pagaria facilmente. Refugara o tentador oferecimento, por não dispor de tempo para envolver-me nesse negócio, apesar de sabê-lo bastante lucrativo. Dinheiro não era e nunca foi minha principal motivação. E então, se não quisera tocar meu próprio barco de turismo, é evidente que não aceitaria tocar barco alheio.
Mas não o desanimei na sua intenção, disse que buscaria entre pessoas de minha confiança algum interessado em operar seu barco, e ele passou-me seu cartão de visitas, pedindo que eu telefonasse tão logo encontrasse esse alguém.
Nas despedidas, um convite: sabendo que eu estava sozinho e de passagem, sugeriu que jantássemos juntos. Combinei encontrá-lo em seu apartamento no início da noite. Ficava numa travessa junto à avenida Nossa Sra. de Copacabana, paralela à praia. Quando subi no elevador, ele disse que estava aguardando a visita de uma pessoa, um conhecido, perguntou se eu não me incomodaria de esperar um tanto. Era ainda cedo para comermos, e seria até bom que o jantar saísse mais tarde, pois depois dele o anfitrião se propunha a me mostrar o que chamou de “a noite carioca”, e a noite carioca começa tarde, informou. Por deferência a ele não recusei a esticada proposta, apesar de enfatizar que não deveria dormir muito tarde, pois o dia seguinte seria trabalhoso e eu pretendia começar a viagem de volta a Ubatuba antes de escurecer.
Lá pelas tantas, tocou a campaínha do apartamento e um cidadão com aspecto meio que de alemão foi-me apresentado. Seu nome era Alexandre Von Baumgarten, era o visitante aguardado. Conversa mena sobre generalidades, o Nelson falou-lhe a meu respeito, e ele identificou-se como proprietário da revista “O Cruzeiro”. Eu nem sabia que sobrevivia aquele antigo e conhecido semanário, em cujos bons tempos pertencera ao senador Assis Chateaubriand e integrara o grupo editorial Diários Associados, como seu carro-chefe. O recém-chegado comentou uma coincidência, disse que pretendia fazer brevemente contacto com a prefeitura de Ubatuba, para oferecer uma reportagem promocional em sua revista.
Foi quando ajuntei que a coincidência era ainda maior, pois eu ocupava o cargo de Secretário de Turismo do município. Mas logo tirei-lhe a esperança de um acordo fácil: nossa prefeitura não tinha dinheiro para promoções na mídia, apenas uns trocados foram reservados em meu orçamento para pagar mensagens nos jornais locais no dia do aniversário da cidade e no Natal. Nada mais. Mas havia a possibilidade de custeio da reportagem pelo comércio hoteleiro, eu verificaria isso e lhe daria um retorno por telefone.
Depois de tratar com o Nelson o assunto que o trouxera, quando me manti adequadamente afastado, o cidadão despediu-se, maneiroso, e nós também depois de alguns minutos descemos ao térreo. Deixei meu carro no estacionamento do prédio, e fomos no do Nelson até o restaurante La Fiorentina, no Leme, bastante conhecido e frequentado. Jantamos, e bem jantados começou a via sacra que o Nelson me prometera.
Eu não era na ocasião, e não sou agora, pessoa especialmente interessada na chamada vida noturna. Apenas na mocidade e solteirice, muitos anos antes e por curto tempo, frequentara a noite paulistana, madrugava diariamente nos estabelecimentos noturnos da moda, graças às preferências e insistências de uma namorada da ocasião. Tirando esse período, apenas uma eventual, rara chegada a um restaurante dançante ou a um espetáculo teatral. Nada mais. Nem tinha dinheiro para gastar nisso. Meus hábitos sempre foram simples, e quando não trabalhei no período noturno também não perdi minhas noites em mesa de inferninhos.
Mas não posso dizer que a faceta da noite carioca apresentada por meu anfitrião pecou pela monotonia. Foi divertida, sim. E, fato estranho, logo no primeiro local em que paramos, notei uma deferência exagerada com que ele era tratado. O gerente em pessoa nos conduziu a uma mesa de pista especialmente montada na hora, serviu-nos bebidas como oferta da casa, recomendou ficarmos até o primeiro show, que começaria logo. Havia uma boa cantora, valia a pena esperar.
Saímos meia hora depois, meu cicerone não pagou nada, apenas agradeceu, e o gerente parecia agradecer mais ainda a sua presença. Fomos a outra boite, e depois a outra, e outra, e outras mais. Creio que percorremos todo o ciclo das casas noturnas existentes na orla depois do túnel de Botafogo e até a Barra. Mas em todas elas, não importa sua variedade, notei maitres e gerentes solícitos em demasia, e cansei de perceber olhares curiosos estirados em nossa direção e outros observando-nos respeitosamente de soslaio, de ouvir cantores e cantoras que pareciam cantar só para o Nelson. E sempre o mesmo, ficavamos meia hora, três quartos de hora, uns goles de bebida, mordiscávamos algo, mas nenhuma conta apresentada à saída, só agradecimentos obsequiosos da gerência pela nossa visita.
Quando, por iniciativa minha, e já quase clareando o dia, foi interrompido finalmente esse desfile a que o Nelson me conduzia --- aleguei cansaço depois da viagem longa e lembrei-lhe novamente meus compromissos da manhã seguinte --- ao voltarmos ao prédio em que residia ele ainda me levou a umas portas meio escondidas ao fundo do beco, uma reentrância onde eu estacionara. Pediu-me apenas mais essa visita, essa seria o fecho, a chave de ouro. E, num certo sentido, foi.
Era um pequeno e enfumaçado ambiente, o teto baixo, todos os presentes esquisitamente de pé, em volta de uma pequena pista central. Não dava para perceber o que estavam olhando tão fixamente, aproximei-me e espiei por sobre seus ombros. No chão, sobre um tapete felpudo, desenrolava-se o show da noite. Deitados no piso, ora um sobre o outro, ora outro sobre um, os artistas do espetáculo. Um rapaz esguio mas bem dotado no setor, e uma mulher muito bem torneada, cada um de côr de pele marcadamente diferente, marcadamente oposta., ambos completamente nus, praticavam sexo. Sexo explícito, muito bem explícito, todas as variações da prática do sexo, ao som de uma música voluptuosa e diante da assistência silenciosa, atenta, que os cercava a pouco mais que metro.
Fiquei estatelado, chocado. Não sou hipócrita, até que fiz lá minhas coisas, e as fiz bem e numerosas. Mas não estava acostumado a esse grau de exposição pública da intimidade do sexo. Sempre o preferi íntimo, bem íntimo. E jamais acreditaria, naqueles tempos de moral pouco permissiva, que um tal “show” fosse tolerado pela polícia. Formalmente não era, soube. Mas eles existiam em locais meio escondidos, eram discretamente ignorados pela autoridade, decerto corria algum para fechar seus olhos. Representavam muito como chamariz para turistas deslumbrados, que voltavam depois a suas terras de origem como arautos gratuitos das misteriosas atrações da cidade maravilhosa.
Depois de me livrar de uma morena, até que bonita morena, uma pecadora profissional que sussurava-me ao ouvido que podia fazer ainda melhor que os “artistas”, despedi-me finalmente do Nelson e fui ao hotel dormir. Na manhã seguinte, poucas horas depois, levantei da cama com dificuldade quando o pessoal da portaria telefonou para despertar-me, como pedido. A bebida que não consegui, por educação, evitar tomar em cada um de todos aqueles locais visitado na noite anterior, fizera seu efeito. Acordei cansado, as pálpebras pesadas demoraram a descolar, e meio zonzo. O embarque dos veleiros
Aquele projeto de manter um barco na Marina da Glória, que me levou a conhecer ocasionalmente os dois curiosos personagens, foi repensado ainda na viajem de volta, e decidi esquecer a coisa toda, estava mais complicada do que previra. E, retornado a Ubatuba, nos próximos dias comentei o oferecimento do tal Von Baumgarten com o meu prefeito, e a resposta foi a esperada. Não havia dinheiro, eu que me arranjasse com o comércio.
Procurei então contactar os principais hoteleiros da cidade, e mesmo alguns proprietários de restaurantes mais frequentados e caros. Como eu antecipara, uma eventual reportagem na revista do Von Baumgarten sobre os atrativos turísticos da cidade, a ser paga por eles, não despertou muito entusiasmo, mesmo eu afirmando que, além do retorno institucional, seus próprios estabelecimentos poderiam ser divulgados a preço mais baixo e suportavel.
A revista “O Cruzeiro”, àquela época, já não era mais nem sombra do que tinha sido anos antes, ficara parada no tempo e sua importância fora ofuscada pelo aparecimento de outros semanários com matérias mais atraentes e apresentação moderna. E assim nossos hoteleiros acharam que o investimento não compensaria. Além do que, estando já muito distantes os dias do último verão turístico, aqueles dois exiguos meses em que o comércio local conseguia arrecadar o suficiente para pagar dívidas atrazadas, e distante também o próximo período de festas de fim de ano e as sequentes férias escolares, não havia em suas contas bancárias dinheiro para investir em coisa menos palpável que a própria sobrevivência imediata.
Enfim, aqueles primeiros entendimentos com o cidadão não frutificaram. Para não dizer de chofre que nada havia conseguido, passei-lhe os telefones dos hoteleiros contactados, a fim de que ele próprio fizesse diretamente sua proposta, mas creio que nem chegou a usá-los.
Ouviria, mais adiante, notícias sobre ele, e notícias que me surpreenderam. Levei um susto quando, sentado na sala certa noite a ver os jornais televisivos, soube de seu assassinato. Com o tempo, viria a conhecer alguma coisa mais sobre sua história. Consta que era agente da comunidade militar de informações, e sua revista seria utilizada pelo SNI, que discretamente a manteria. Sua morte, a de sua mulher, e a do barqueiro que os levava a uma pescaria na Guanabara, causou muito impacto na mídia noticiosa, teria sido uma queima de arquivo determinada por gente poderosa do regime vigente. Muito se especulou e se especula ainda sobre o fato, até hoje nebuloso, envolto em mistério.
Quanto ao Nelson, ele telefonou-me dias depois, e disse que a vinda de sua escuna para trabalhar em Ubatuba estava dependendo apenas da solução de alguns problemas. Mantivemos esse contacto por pouco tempo, e isso também deu
Mas eu entenderia logo o porque de tantas mesuras e rapapés nos locais que ele me levou a visitar naquele entrevero noturno diferente. Ao olhar o cartão de visitas que me passara quando o conhecera na Marina da Glória, li distraído seu nome, Nelson Cândido da Motta Filho. Porém não o liguei de imediato ao personagem conhecido das rodas artísticas e mundanas. Descobriria isso em meu retorno.
Vejo-o de vez em quando na TV, em quadros culturais que dirige na Rede Globo, e ainda quando ele próprio é entrevistado sobre alguma de suas bem sucedidas atividades de escritor, empresário musical, jornalista, letrista, compositor. E a cada vez a figura simpática e bem-humorada do Nelson Motta me faz lembrar o anfitrião pressuroso que certa ocasião, num tempo já distante, guiou este matuto meio moralista nos atrativos e segredos espantosos da noite carioca.
Autorizado pelo Magalhães (Maga)
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