DOJÔ KODOKAN – ACADEMIA “FORÇA E PERSISTÊNCIA”
O ESPÍRITO DO KARATÊ-DÔ
8º. Dan Karatê Shotokan - CBK/FPRK
4º. Dan Judo – CBJ/FPRJ
Prof. De Educação Física UFPR
Após muitos anos me atrevo a tentar explicar o Espírito do Karatê-Dô dentro do meu entendimento, depois de mais de 40 anos de prática, molhando de suor e gastando kimonos e faixas, inicialmente com a modalidade de Judô e na seqüência de karatê, o que ainda continuo fazendo.
Além de que, graças a convivência no passado com Mestres e professores Japoneses ou de origem Japonesa, dos quais me tornei amigo de luta e de mesa, conversando de sabor e saber. Mesmo que, suas atitudes e comportamentos me causassem muitas dificuldades de entendimento devido ao meu pensamento Ocidental com referência ao DÔ, extraído da palavra Chinesa TAO e que tem muitos significados, mas que pode ser resumido com uma palavra simples de entender que é FILOSOFAR.
Visto que para muitas pessoas sou considerado professor ou mestre, e para muitas outras, não; talvez um intrometido na busca da verdade. Queira ou não, creio que a minha pesquisa pode ajudar tanto aqueles que me são favoráveis como àqueles que me são contra(?)” para que todos tenham um princípio de entendimento sobre o Espírito do Karatê-Dô, com o intuito de dar continuidade a esse pensamento.
Inicialmente, vamos ver o que se pretende alcançar com os cinco preceitos do Karatê que se diz serem de autoria do Mestre Satunuke Sakugawa, nascido em Shuri/Okinawa (1733 – 1790).
Os seguintes preceitos são encontrados em quase todos os Dojôs de Karatê como lemas (Dojo-Kum) a serem seguidos.
Preceito 1 – Aprimoramento do caráter; Bom Caráter
Preceito 2 – Seguir o caminho da verdade; Honestidade e lealdade
Preceito 3 – Respeito a tudo e a todos; Respeito / Benevolência
Preceito 4 – Desenvolver o espírito de luta; Persistência
Preceito 5 – Reprimir a coragem insensata. Auto-Controle
O Budô japonês, o autentico e verdadeiro, sempre se identificou um pouco com a religião, com isso os grandes mestres fundamentados nos preceitos acima alcançaram uma grande sabedoria. Quando dizemos religião, nos referimos, naturalmente, as religiões do Japão, pátria do Karatê-Dô, ou seja, ao Budismo e ao Shintoísmo. Efetivamente, o desenvolvimento do Karatê-Dô sempre foi paralelo a estas duas religiões. Seus motivos têm, como veremos, também numerosos pontos em comum que demonstram esse caminho paralelo. O Budismo criado por Buda, “o iluminado que foi Sidarta Gautama” desenvolveu-se na Índia no século VI A.C., abaixo de dogmas marcados pelo Brahmanismo, que não tem doutrinas fixas, mas que pode adaptar-se a cada ocasião segundo a inspiração, como é proclamado por mestres das seitas Zen Budista que dizem: “mil monges, mil religiões”.
O Budismo se baseia na meditação, e sua principal característica poderia ser o seu especial culto para o que vem depois da vida. No século XVI, ano de 1538 D.C., essa religião que já tinha passado para a China alguns séculos antes, o fez agora para o Japão, com enorme influência de Bodhidarma (Daruma) criador do Budismo Zen. No Japão já existia outra religião local, o Shintoísmo ou “Caminho dos Deuses” que dá caráter divino e sagrado à qualquer coisa, árvores, rochas, insetos, chuva, vento, etc. Enfim, reverenciando aos espíritos dos antepassados e dos mais velhos, e com o principal objetivo da harmonia com a natureza. Por isso, suas meditações, ritos purificantes.... tem como base elementos da natureza e lhe outorgam o caráter de “Kami”; isto é, algo divino. A ligação com a natureza era tão grande que ainda são encontrados templos em lugares remotos tendo em volta a natureza (Kami). Agora, o Shintoísmo não se preocupa com a morte, mas sim com a vida. Por isso, é muito comum que as pessoas no Japão recorram as duas religiões; ao Shintoísmo para momentos alegres (batizados, casamentos,...) e ao Budismo nos momentos de morte ou homenagem aos antepassados. O Shintoísmo faz culto à Natureza e busca a harmonia com ela.
O Karatê-Dô, desde o seu início, num passado longínquo, na índia e China, evoluiu na mão do Budismo e de Bodhidarma-Daruma. Desenvolveu-se na Índia, passou para China e mais tarde ao Japão. Porém essa comunhão não foi casual. Os monges Budistas, cujo objetivo era o desenvolvimento íntimo, o conhecimento do homem e de sua energia interior, necessitavam de uma base física sadia para exercer o seu desenvolvimento interno e espiritual. Essa base, ou seja, o corpo era cultivado para esse fim. Algo como “Men sana in corpore sano”.
A relação do atual Karatê-Dô com essas duas religiões não têm equívocos, porém a medida que o Karatê-Dô vai se desenvolvendo com o seu “DÔ”, seu objetivo já não é unicamente físico, talvez pela inevitável influência das religiões que por tanto tempo o acompanhou. Assim, o Karatê-Dô tem também um desenvolvimento espiritual, o equilíbrio interno como objetivo fundamental. Equilíbrio que traz consigo um estado de verdadeira paz e satisfação. Esse estado se denomina Estado Zen, em que se desfruta uma paz interior que os monges Budistas conseguiam com a meditação. Nesse Estado diz-se que o cérebro gera ondas chamadas Alfa. Curiosamente, comprovou-se que praticantes adiantados de Karatê-Dô as geram também na prática dos Kata.
Os treinamentos ministrados por Daruma aos Monges, com o intuito de alcançar a iluminação, eram muito rígidos e a maioria deles não conseguia suportá-los. O mesmo Daruma deu ênfase a preparação física com fundamentos de auto-defesa para fortalecer o corpo e o espírito, partindo do princípio de que os monges necessitavam de uma base física sadia para desenvolver uma força íntima e espiritual. Essa base, ou seja, o corpo era cultivado para esse fim.
Muitos mestres do passado definem suas respectivas artes como Zen
Os monges e os grandes mestres de Karatê-Dô usavam na busca desta energia interna algumas práticas especiais para a meditação. Uma delas por exemplo, permanecer embaixo da queda de águas de uma cachoeira para predispor o sistema nervoso ao desenvolvimento da energia interna. Outras práticas consistem na utilização de mudras, ou especiais posições dos dedos das mãos que atuam assim de maneira particular na circulação e aproveitamento da energia interna. A respiração, logicamente, também tem um papel especial para que o sistema nervoso estenda sua energia. Os “mantras” ou sons que ao ser pronunciados em voz baixa produzem determinadas vibrações sobre o sistema nervoso, ao tempo que ajudam a concentração durante a meditação, é um outro meio que, complementado com os demais, fará ao longo do tempo de prática, que a energia interna cresça. O Karatê-Dô é um estado que proporciona a meditação, dando equilíbrio mental, fazendo com que a pessoa adquira uma adequada personalidade, humilde e bondosa,.....e não caia no que os grandes mestres de Budô do passado chamavam de “os males do Budô”; o que infelizmente ocorre com alguns praticantes, como: arrogância, excesso de confiança, desprezo, maldade, raiva.....
A harmonia da mente e do espírito também proporciona que ante qualquer estímulo ou situação, possamos reagir com a resposta mais adequada instantaneamente. Isso é o que se conhece com o nome de “Fudochi” (espírito inabalável), com a mente livre e vazia de todo pensamento.
Muitos mestres dizem que se deve praticar o Karatê-Dô para chegar ao “Mushin”, o estado de mente vazia, sem pensamentos; nem bons, nem maus que o Mestre Guichin Funakoshi também denominou de “Kara”.
Uma mente livre e equilibrada sempre atuará dentro de uma moral e ética correta. As diferentes artes ou “caminhos” são muitos. Como sabemos, os grandes mestres praticavam mais de um “caminho”, conseguindo assim um resultado melhor com o único objetivo do desenvolvimento interno. É indiscutível a relação que o Karatê-Dô tem com o Budismo e o Shitoismo, podemos pensar que os katas de Karatê-Dô são como uma espécie de dança honrando os deuses, pois isso é comum nas religiões orientais, junto com rituais purificantes, meditações que levam ao contato entre o céu e a terra. Neste sentido é interessante mencionar e observar as primeiras fases de alguns katas, exemplo: Kanku-Daí ou Tekki em que se olha lentamente para o lado ou para cima e outros katas antes de iniciar as técnicas. Isso é para os grandes mestres uma forma de tomar contato com a natureza, conseguir equilíbrio e com isso sentir a unificação do universo, Shinto puro. A forma de olhar dos katas é uma maneira de ver todas as coisas, ver o que está longe como o que está perto, enfim, o contato com a natureza.
Todas as formas de Karatê-Dô se baseiam na natureza, inclusive na parte física de suas técnicas. Técnicas como Kumade, Washide, Tsuri Ashi, Nekoashi e outras formas de deslocamento e equilíbrio se baseiam nos movimentos de animais. Em todos os katas se deve enfocar o contato com a natureza.
O homem sempre se interessou sobre a sua existência de uma maneira profunda, procurando os porquês de seu objetivo na terra, etc. Entusiasmados por esse estudo criaram-se seitas, ordens, .... encaminhando-se à sua investigação. Para isso se formaram grupos de pessoas ilustres como Da Vinci, Galileo Galilei, Isaac Newton, Benjamim Franklin e muitos outros, da mesma forma, muitos mestres de Budô interessados nisso. Algumas dessas ordens estão diretamente relacionadas com o Budismo e com o seu esoterismo e misticismo, estudando todos os aspectos do homem e seu conhecimento. Algumas são, por exemplo a Seita Exotérica Budista Shingon ou a antiga e mística Ordem Rosa Cruz. De qualquer maneira, seus estudos nos escapam um pouco. Visto que, os objetivos iniciais do Karatê-Dô, Shinto,....são encontrados sem procurá-los, somente se predispondo a eles e “abrindo-se”. Esses objetivos poderão ser diferentes para cada pessoa, pois “os caminhos” se adaptam a eles. Pois não tem dúvida que existem outros níveis, com o tempo a prática física chega a não satisfazer mais o karateca. Aí começa o seu verdadeiro “caminho” através do Karatê-Dô. O desenvolvimento físico chegara com os anos a um cume. O desenvolvimento espiritual não tem fim, devemos utilizar o físico como base e meio para crescer em busca do equilíbrio, paz e felicidade, durante toda a vida, inclusive como preparação para depois.
O “Dojô” é o lugar do “caminho” e o lugar da iluminação; é o lugar para concentrar-se, meditar e “buscar” essa iluminação. As maiorias dos Dojôs dispõem de “Kamis”, demonstrados através de ideogramas, fotos dos mestres, símbolos ou pequenos altares. Aí se demonstra o culto, se medita, se venera, se cumprimenta, se guarda respeito.... A cortesia é a expressão do espírito e também do coração, e isso é o importante. Depois de tudo isso, resultará mais fácil compreender como e porque alguns grandes mestres de Karatê-Dô consideravam que o mais triste que podia ocorrer a um budoca era ter que utilizar o Karatê-Dô para a agressão. Famosa é a frase do Mestre Funakoshi “Karatê Ni Sente Nashi” (o Karatê não foi feito para a agressão).
À solução dos problemas deve haver um diálogo sereno e lógico, mesmo que isso possa levar muito tempo; dias, meses ou anos. Ademais, o que se ganha pela força dura pouco, enquanto o que se ganha pela lógica e com o diálogo, dura para sempre. Devemos desenvolver então através do Karatê-Dô, um coração limpo e um espírito e mente impertubaveis, a predisposição para a vacuidade da mente (kara) será o caminho. O budô deve entender-se mais como um meio para “DETER” a guerra e não para prepará-la. O ideograma “BU” tem esse significado. Desta forma, entenderemos melhor que o Karatê-Dô não é um combate contra os outros, mas sim contra si mesmo. “Gi-Shin-Tai” é a frase japonesa que expressa em síntese os meios do Karatê-Dô: corpo – mente – espírito. O corpo físico nada mais é de que um meio utilizado.
Em muitos templos japoneses existe um portal chamado “Torii”. Diz-se que passar debaixo do Torii é o primeiro passo para a purificação; nada se consegue sem esforço. Nesse caso, o corpo é o “Torii”, ele deve ser moldado, treinado, esculpido e isso não se consegue sem esforço. Esse é o caminho a ser utilizado.
A parte física do Karatê deve dar caminho com o tempo ao entendimento do Karatê espiritual, alcançando paz e harmonia para si mesmo e paz e harmonia para a sociedade
Sensei Aldo Lubes.
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