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domingo, 4 de outubro de 2009

O ESPÍRITO DO KARATÊ-DÔ - De Sensei Aldo Lubes

DOJÔ KODOKAN – ACADEMIA “FORÇA E PERSISTÊNCIA”

O ESPÍRITO DO KARATÊ-DÔ

Sensei Aldo Lubes

8º. Dan Karatê Shotokan - CBK/FPRK

4º. Dan Judo – CBJ/FPRJ

Prof. De Educação Física UFPR

Dezembro – 2005

INTRODUÇÃO

Após muitos anos me atrevo a tentar explicar o Espírito do Karatê-Dô dentro do meu entendimento, depois de mais de 40 anos de prática, molhando de suor e gastando kimonos e faixas, inicialmente com a modalidade de Judô e na seqüência de karatê, o que ainda continuo fazendo.

Além de que, graças a convivência no passado com Mestres e professores Japoneses ou de origem Japonesa, dos quais me tornei amigo de luta e de mesa, conversando de sabor e saber. Mesmo que, suas atitudes e comportamentos me causassem muitas dificuldades de entendimento devido ao meu pensamento Ocidental com referência ao DÔ, extraído da palavra Chinesa TAO e que tem muitos significados, mas que pode ser resumido com uma palavra simples de entender que é FILOSOFAR.

Visto que para muitas pessoas sou considerado professor ou mestre, e para muitas outras, não; talvez um intrometido na busca da verdade. Queira ou não, creio que a minha pesquisa pode ajudar tanto aqueles que me são favoráveis como àqueles que me são contra(?)” para que todos tenham um princípio de entendimento sobre o Espírito do Karatê-Dô, com o intuito de dar continuidade a esse pensamento.

O ESPÍRITO DO KARATÊ-DÔ E A SUA FILOSOFIA

Inicialmente, vamos ver o que se pretende alcançar com os cinco preceitos do Karatê que se diz serem de autoria do Mestre Satunuke Sakugawa, nascido em Shuri/Okinawa (1733 – 1790).

Os seguintes preceitos são encontrados em quase todos os Dojôs de Karatê como lemas (Dojo-Kum) a serem seguidos.

Preceito 1 – Aprimoramento do caráter; Bom Caráter

Preceito 2 – Seguir o caminho da verdade; Honestidade e lealdade

Preceito 3 – Respeito a tudo e a todos; Respeito / Benevolência

Preceito 4 – Desenvolver o espírito de luta; Persistência

Preceito 5 – Reprimir a coragem insensata. Auto-Controle

O Budô japonês, o autentico e verdadeiro, sempre se identificou um pouco com a religião, com isso os grandes mestres fundamentados nos preceitos acima alcançaram uma grande sabedoria. Quando dizemos religião, nos referimos, naturalmente, as religiões do Japão, pátria do Karatê-Dô, ou seja, ao Budismo e ao Shintoísmo. Efetivamente, o desenvolvimento do Karatê-Dô sempre foi paralelo a estas duas religiões. Seus motivos têm, como veremos, também numerosos pontos em comum que demonstram esse caminho paralelo. O Budismo criado por Buda, “o iluminado que foi Sidarta Gautama” desenvolveu-se na Índia no século VI A.C., abaixo de dogmas marcados pelo Brahmanismo, que não tem doutrinas fixas, mas que pode adaptar-se a cada ocasião segundo a inspiração, como é proclamado por mestres das seitas Zen Budista que dizem: “mil monges, mil religiões”.

O Budismo se baseia na meditação, e sua principal característica poderia ser o seu especial culto para o que vem depois da vida. No século XVI, ano de 1538 D.C., essa religião que já tinha passado para a China alguns séculos antes, o fez agora para o Japão, com enorme influência de Bodhidarma (Daruma) criador do Budismo Zen. No Japão já existia outra religião local, o Shintoísmo ou “Caminho dos Deuses” que dá caráter divino e sagrado à qualquer coisa, árvores, rochas, insetos, chuva, vento, etc. Enfim, reverenciando aos espíritos dos antepassados e dos mais velhos, e com o principal objetivo da harmonia com a natureza. Por isso, suas meditações, ritos purificantes.... tem como base elementos da natureza e lhe outorgam o caráter de “Kami”; isto é, algo divino. A ligação com a natureza era tão grande que ainda são encontrados templos em lugares remotos tendo em volta a natureza (Kami). Agora, o Shintoísmo não se preocupa com a morte, mas sim com a vida. Por isso, é muito comum que as pessoas no Japão recorram as duas religiões; ao Shintoísmo para momentos alegres (batizados, casamentos,...) e ao Budismo nos momentos de morte ou homenagem aos antepassados. O Shintoísmo faz culto à Natureza e busca a harmonia com ela.

O Karatê-Dô, desde o seu início, num passado longínquo, na índia e China, evoluiu na mão do Budismo e de Bodhidarma-Daruma. Desenvolveu-se na Índia, passou para China e mais tarde ao Japão. Porém essa comunhão não foi casual. Os monges Budistas, cujo objetivo era o desenvolvimento íntimo, o conhecimento do homem e de sua energia interior, necessitavam de uma base física sadia para exercer o seu desenvolvimento interno e espiritual. Essa base, ou seja, o corpo era cultivado para esse fim. Algo como “Men sana in corpore sano”.

A relação do atual Karatê-Dô com essas duas religiões não têm equívocos, porém a medida que o Karatê-Dô vai se desenvolvendo com o seu “DÔ”, seu objetivo já não é unicamente físico, talvez pela inevitável influência das religiões que por tanto tempo o acompanhou. Assim, o Karatê-Dô tem também um desenvolvimento espiritual, o equilíbrio interno como objetivo fundamental. Equilíbrio que traz consigo um estado de verdadeira paz e satisfação. Esse estado se denomina Estado Zen, em que se desfruta uma paz interior que os monges Budistas conseguiam com a meditação. Nesse Estado diz-se que o cérebro gera ondas chamadas Alfa. Curiosamente, comprovou-se que praticantes adiantados de Karatê-Dô as geram também na prática dos Kata.

Os treinamentos ministrados por Daruma aos Monges, com o intuito de alcançar a iluminação, eram muito rígidos e a maioria deles não conseguia suportá-los. O mesmo Daruma deu ênfase a preparação física com fundamentos de auto-defesa para fortalecer o corpo e o espírito, partindo do princípio de que os monges necessitavam de uma base física sadia para desenvolver uma força íntima e espiritual. Essa base, ou seja, o corpo era cultivado para esse fim.

Muitos mestres do passado definem suas respectivas artes como Zen em Movimento. Muitos caminhos que levam aos mesmos objetivos têm forçosamente algo similar, pontos muito próximos ou partes coincidentes. Assim, a meditação ou o Karatê-Dô, para chegar ao equilíbrio interno e ao desenvolvimento da energia interior, são passos ou caminhos para um objetivo comum. O Karatê-Dô é um grande sistema de defesa pessoal já que ajuda a canalizar a agressividade da pessoa através da grande atividade física realizada, e é um imensurável sistema para o desenvolvimento físico, pois põem em jogo todos os sistemas do corpo, ampliando-os com o tempo, o que favorece todos os seus funcionamentos. Porém o principal, é que desenvolve a personalidade e o caráter do praticante, aumentando a confiança em si mesmo. Como dizia o mestre Gichin Funakoshi isso é o principal, o resto é secundário, apesar de que para alguns não é o que acontece, ficando presos, infelizmente, somente na parte física.. O desenvolvimento pessoal e espiritual do individuo, neste caso, através do Karatê-Dô, fará de que seja positivo para a sociedade. Se o Karatê-Dô é um meio de luta é o que é menos importa, o mais importante é o “DÔ” o caminho para conseguir, nesta ordem, paz e harmonia individual interior e, paz e harmonia da sociedade em geral. A harmonia é o principal para si mesmo e para o grupo, e que pode ser alcançado com o Karatê-Dô ou por outros “Caminhos”, como por exemplo: a meditação, a pintura ou outras artes mais. Mestres como Morihei Ueshiba (Aiki-Dô), Jigoro Kano (Judô), Otsuka Sensei (Wadô), Chojun Miyagi (Goju), Quenwa Mabuni (Shito), Gichin Funakoshi (Shoto), Chosin Shibana (Shorin) e muitos outros, todas grandes figuras físicas, pessoais e espirituais, e que se tornaram assim graças a dedicação a arte marcial praticada. Eles praticavam assiduamente a meditação como complemento e ajuda para o objetivo. Algumas das formas de Karatê (estilos) utilizadas são parecidas, outras diferentes, porém todas têm o mesmo objetivo que é o desenvolvimento do corpo e do espírito, que dará como resultado uma energia interior que, depois, com a qualidade desenvolvida no Karatê-Dô poderá ser aplicada em muitas facetas da vida.

Os monges e os grandes mestres de Karatê-Dô usavam na busca desta energia interna algumas práticas especiais para a meditação. Uma delas por exemplo, permanecer embaixo da queda de águas de uma cachoeira para predispor o sistema nervoso ao desenvolvimento da energia interna. Outras práticas consistem na utilização de mudras, ou especiais posições dos dedos das mãos que atuam assim de maneira particular na circulação e aproveitamento da energia interna. A respiração, logicamente, também tem um papel especial para que o sistema nervoso estenda sua energia. Os “mantras” ou sons que ao ser pronunciados em voz baixa produzem determinadas vibrações sobre o sistema nervoso, ao tempo que ajudam a concentração durante a meditação, é um outro meio que, complementado com os demais, fará ao longo do tempo de prática, que a energia interna cresça. O Karatê-Dô é um estado que proporciona a meditação, dando equilíbrio mental, fazendo com que a pessoa adquira uma adequada personalidade, humilde e bondosa,.....e não caia no que os grandes mestres de Budô do passado chamavam de “os males do Budô”; o que infelizmente ocorre com alguns praticantes, como: arrogância, excesso de confiança, desprezo, maldade, raiva.....

A harmonia da mente e do espírito também proporciona que ante qualquer estímulo ou situação, possamos reagir com a resposta mais adequada instantaneamente. Isso é o que se conhece com o nome de “Fudochi” (espírito inabalável), com a mente livre e vazia de todo pensamento.

Muitos mestres dizem que se deve praticar o Karatê-Dô para chegar ao “Mushin”, o estado de mente vazia, sem pensamentos; nem bons, nem maus que o Mestre Guichin Funakoshi também denominou de “Kara”.

Uma mente livre e equilibrada sempre atuará dentro de uma moral e ética correta. As diferentes artes ou “caminhos” são muitos. Como sabemos, os grandes mestres praticavam mais de um “caminho”, conseguindo assim um resultado melhor com o único objetivo do desenvolvimento interno. É indiscutível a relação que o Karatê-Dô tem com o Budismo e o Shitoismo, podemos pensar que os katas de Karatê-Dô são como uma espécie de dança honrando os deuses, pois isso é comum nas religiões orientais, junto com rituais purificantes, meditações que levam ao contato entre o céu e a terra. Neste sentido é interessante mencionar e observar as primeiras fases de alguns katas, exemplo: Kanku-Daí ou Tekki em que se olha lentamente para o lado ou para cima e outros katas antes de iniciar as técnicas. Isso é para os grandes mestres uma forma de tomar contato com a natureza, conseguir equilíbrio e com isso sentir a unificação do universo, Shinto puro. A forma de olhar dos katas é uma maneira de ver todas as coisas, ver o que está longe como o que está perto, enfim, o contato com a natureza.

Todas as formas de Karatê-Dô se baseiam na natureza, inclusive na parte física de suas técnicas. Técnicas como Kumade, Washide, Tsuri Ashi, Nekoashi e outras formas de deslocamento e equilíbrio se baseiam nos movimentos de animais. Em todos os katas se deve enfocar o contato com a natureza.

O homem sempre se interessou sobre a sua existência de uma maneira profunda, procurando os porquês de seu objetivo na terra, etc. Entusiasmados por esse estudo criaram-se seitas, ordens, .... encaminhando-se à sua investigação. Para isso se formaram grupos de pessoas ilustres como Da Vinci, Galileo Galilei, Isaac Newton, Benjamim Franklin e muitos outros, da mesma forma, muitos mestres de Budô interessados nisso. Algumas dessas ordens estão diretamente relacionadas com o Budismo e com o seu esoterismo e misticismo, estudando todos os aspectos do homem e seu conhecimento. Algumas são, por exemplo a Seita Exotérica Budista Shingon ou a antiga e mística Ordem Rosa Cruz. De qualquer maneira, seus estudos nos escapam um pouco. Visto que, os objetivos iniciais do Karatê-Dô, Shinto,....são encontrados sem procurá-los, somente se predispondo a eles e “abrindo-se”. Esses objetivos poderão ser diferentes para cada pessoa, pois “os caminhos” se adaptam a eles. Pois não tem dúvida que existem outros níveis, com o tempo a prática física chega a não satisfazer mais o karateca. Aí começa o seu verdadeiro “caminho” através do Karatê-Dô. O desenvolvimento físico chegara com os anos a um cume. O desenvolvimento espiritual não tem fim, devemos utilizar o físico como base e meio para crescer em busca do equilíbrio, paz e felicidade, durante toda a vida, inclusive como preparação para depois.

O “Dojô” é o lugar do “caminho” e o lugar da iluminação; é o lugar para concentrar-se, meditar e “buscar” essa iluminação. As maiorias dos Dojôs dispõem de “Kamis”, demonstrados através de ideogramas, fotos dos mestres, símbolos ou pequenos altares. Aí se demonstra o culto, se medita, se venera, se cumprimenta, se guarda respeito.... A cortesia é a expressão do espírito e também do coração, e isso é o importante. Depois de tudo isso, resultará mais fácil compreender como e porque alguns grandes mestres de Karatê-Dô consideravam que o mais triste que podia ocorrer a um budoca era ter que utilizar o Karatê-Dô para a agressão. Famosa é a frase do Mestre Funakoshi “Karatê Ni Sente Nashi” (o Karatê não foi feito para a agressão).

À solução dos problemas deve haver um diálogo sereno e lógico, mesmo que isso possa levar muito tempo; dias, meses ou anos. Ademais, o que se ganha pela força dura pouco, enquanto o que se ganha pela lógica e com o diálogo, dura para sempre. Devemos desenvolver então através do Karatê-Dô, um coração limpo e um espírito e mente impertubaveis, a predisposição para a vacuidade da mente (kara) será o caminho. O budô deve entender-se mais como um meio para “DETER” a guerra e não para prepará-la. O ideograma “BU” tem esse significado. Desta forma, entenderemos melhor que o Karatê-Dô não é um combate contra os outros, mas sim contra si mesmo. “Gi-Shin-Tai” é a frase japonesa que expressa em síntese os meios do Karatê-Dô: corpo – mente – espírito. O corpo físico nada mais é de que um meio utilizado.

Em muitos templos japoneses existe um portal chamado “Torii”. Diz-se que passar debaixo do Torii é o primeiro passo para a purificação; nada se consegue sem esforço. Nesse caso, o corpo é o “Torii”, ele deve ser moldado, treinado, esculpido e isso não se consegue sem esforço. Esse é o caminho a ser utilizado.

A parte física do Karatê deve dar caminho com o tempo ao entendimento do Karatê espiritual, alcançando paz e harmonia para si mesmo e paz e harmonia para a sociedade em geral. Esse é o espírito do Karatê-Dô.

Sensei Aldo Lubes.

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