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terça-feira, 13 de outubro de 2009

O ESPIÃO QUE VEIO DO CÉU Contos e Causos do Maga

Naqueles tempos em que eu ensinava mergulho para reforçar meus ganhos limitados, a conclusão, o fecho das doze aulas teóricas e outras tantas práticas que ministrava em noites paulistanas acontecia no mar de Ubatuba, no litoral norte paulista. Mais precisamente na Rapada, a ilha agreste que ocupara anos antes e onde mantinha uma pequena casa de madeira. As várias milhas que a separavam do continente e a inexistência de riachos desaguando em seu contorno rochoso eram quase garantia de encontrarmos ali águas transparentes, propícias ao mergulho de principiantes. Acresce que a vida marinha era abundante, de forma a encher os olhos e entusiasmar os neófitos mergulhadores, que com essa excursão de encerramento de curso eram declarados aptos para continuar exercendo a atividade.

Apesar da necessidade, por razões de segurança, de supervisão de pessoas mais experientes no primeiro contacto real com o ambiente submarino, nem todos os alunos aderiam a tais provas de mar. As puxadas instruções em piscina já eram consideradas suficientes para alguns deles, daí para a frente se virariam sozinhos em seus mergulhos. Ou simplesmente parariam por ali mesmo, desistiriam, como às vezes sucedia, por se sentirem inadaptados ao desafio ou pelos custos da prática do mergulho no litoral distante.

Numa determinado curso, em especial, uns quinze deles animaram-se a descer a serra em direção a Ubatuba e a seu batismo de mar. Para o deslocamento até a ilha, eu costumava fretar uma embarcação de pesca de tamanho compatível com o número de alunos a transladar. Já possuía então uma lancha, minha primeira lancha, que me veio inesperadamente no primeiro sorteio de um grupo de consórcio da Carbrasmar, renomada construtora de barcos de lazer, a que aderira, relutante, por muita insistência das vendedoras. Era uma linda embarcação de 18 pés de comprimento, elaborada em madeira contra-placada, impulsionada por um também afamado motor Volvo a gasolina. Mas, pelo seu tamanho, inadequada para transportar aquele número de alunos.

Normalmente, em tal situação, eu deixaria meu barco ancorado em terra, e compartilharia com os alunos a embarcação fretada, lenta, de motor barulhento e desprovida de qualquer conforto. Pensando, porém, nas duas moças que faziam parte do grupo, e no intuito único de poupar-lhes as quase duas horas de viagem no pesqueiro, que poderiam inclusive fazê-las enjoar e estragar-lhes o passeio, decidi levá-las comigo na lancha, e os demais nos seguiriam no barco de pesca.

Assim foi feito, sem quaisquer protestos por parte dos rapazes, que compreenderam minha louvável intenção. Logo depois de embarcarem no pesqueiro, subi as jovens em meu barco, acomodei-as a meu lado no banco almofadado que se estendia de bordo a bordo, e rumei a Ilha Rapada.

A manhã estava linda, o mar quase espelhado, mas a velocidade imprimida à lancha a fazia saltar em qualquer pequena ondulação. O vento criado pelo deslocamento rápido também poderia, talvez, transmitir uma sensação de insegurança a minhas simpáticas e bonitas acompanhantes. E então, segurando o volante com a mão esquerda, estiquei cavalheirescamente o braço direito por sobre os ombros das moças, num gesto protetor.

Estávamos já próximos ao destino, dava para perceber os detalhes da topografia da ilha e de sua vegetação exuberante, quando, acima do zumbido, abafado pela sua caixa, do motor da lancha, percebi um outro ruído, ainda leve, vindo por bombordo. Olhei displicentemente à esquerda, e um pequeno ponto confundindo-se com a costa distante, deslizando velozmente a pouca altura sobre as águas, adquiriu em alguns segundos os contornos de um avião dirigindo-se retilìneamente em nossa direção. E em mais outros segundos o ruído transformou-se no ribombar tonitruante de um motor potente sobre nossas cabeças.

O avião, passando a não mais que uns assustadores vinte metros sobre a lancha, fez depois uma curva suave, e aí, tão ràpidamente quanto chegara, a aeronave sumiu em direção a Ubatuba.

Depois de acalmar-me com a retirada da súbita aparição, um pressentimento me veio para tentar explicar o fato inusitado . Um pressentimento preocupante, mas sobre razões improváveis, muito improváveis. E com o desembarque na ilha, a chegada posterior dos demais alunos, e os mergulhos agradáveis que seguiram, eu afastei o pensamento inquietante.

Mas, quando retornados no final da tarde, minha premonição se revelaria verdadeira. Um amigo, um bom amigo que possuía um avião particular apesar de fartar-se de voar em sua profissão de piloto comercial de grandes jatos, descera sem aviso prévio a me visitar em Ubatuba. Procurara-me em minha residência, minha esposa contou que eu acompanhara um grupo de alunos em um mergulho na Rapada. E ele convidou-a a voar até lá, para fazer-me uma surpresa.

E o infeliz fez-me mesmo a surpresa. Desculpou-se muito, disse que tão logo viu meu braço protetor sobre os ombros das moças, tão logo percebeu que sua acompanhante era uma presença inadequada à situação, afastou-se e retornou à cidade em seu indiscreto avião.

Mas o mal estava feito. E, pior que pedidos de explicação sobre aquele braço colocado em lugar errado, ou até sobre a simples presença solitária das jovens na lancha, pior mesmo foi o silêncio gélido que enfrentei ao retornar à minha casa. Um silêncio mais contundente que quaisquer cobranças ou admoestações.

Poderia até lembrar, se outro tipo de recepção me instasse a isso, um velho ditado. Maudit soi qui mal y pense, dizem os franceses. Maldito seja aquele que pensa mal. Mas não tive ocasião de exibir meus reduzidos conhecimentos da língua de Flaubert, e creio que eles não me teriam valido muito.

Autorizado pelo Magalhães (Maga)

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