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terça-feira, 6 de outubro de 2009

Um Churrasco - Contos e Causos do Maga

- UM CHURRASCO

Alguns anos atrás, comprei em Ubatuba um estaleiro à beira do rio Grande, junto ao centro da cidade. Foi uma pechincha, era amplo, e a intenção da compra tinha sido recomeçar a fabricar ali as pequenas baleeiras em fibra de vidro das quais tinha os moldes. Enquanto não surgia a oportunidade certa para laminá-las, comecei a alugar espaço ocioso para construtores de escunas e de barcos de pesca. Também cedi espaço, por um bom tempo, para o amigo Geninho, Eugênio Azevedo, sempre envolvido com fabricação de barcos, depois da fase Ubatuba trabalhou no Rio de Janeiro num projeto de enorme catamarã para milionários, mais adiante passou a fazer canoas polinésias para competição, e agora creio que está ainda no intento de popularização de outro barco tipo catamarã. Um sonhador, no bom e no não tão bom sentido, como todos os que se dedicam ao ramo náutico.

Em meu estaleiro, o Geninho estava construindo um veleiro de trinta e quatro pés, belo casco de curvas perfeitas conseguidas pela colagem paciente de estreitas tiras longitudonais de madeira, encaixadas umas sobre as outras. Para comemorar o final das obras externas foi programado um churrasco, e veio do Rio de Janeiro o Roberto de Mesquita Barros, o “Cabinho”, velejador muito conhecido e projetista desse e de muitos outros barcos, com sua filha e genro. Naturalmente apareceu também a patota vélica da cidade, ansiosa pela oportunidade de conhecer o ilustre visitante.

Na noite anterior procurei em minha biblioteca o livro "Do Rio à Polinésia", o primeiro escrito pelo nosso projetista maior. Queria reler o trecho da épica viagem de “Snipe”, tentada em sua mocidade, do Rio a Cabo Frio, viajem interrompida antes de seu término, mas que lhe valeu a simpática alcunha pela qual é mais conhecido no ambiente vélico nacional. Achava alguma semelhança com minha ainda mais desastrada experiência tentando ir de São Sebastião a Santos, encarando uma frente fria de agosto num pequeno “Pinguim” envenenado com três metros quadrados a mais de área vélica. Uma inconsequência que quase me custou a vida.

Bem, o que, surpreso, achei em minha biblioteca, foi não só meu exemplar ntigo, já lido e relido, mas dois, um deles novinho em folha. Algum tempo antes, ocorrera um incêndio criminoso no depósito da firma caioca Edições Marítimas, que publicava esse livro. O proprietário dessa editora, Jacques Mille, contou-me que perdera uma pequena fortuna em livros queimados, e junto viraram cinza os do Cabinho, que logo mais se esgotou.

O Jacques hesitava em reeditá-lo, cada exemplar era então uma raridade. Basta dizer que havia quem xerocasse o texto página por página . Soubera que nem o próprio autor tinha um, o seu sumira e não conseguiu adquirir outro. Eu os vendia, como outros do gênero, em minha loja náutica, e antecipando que no futuro não se conseguiria mais comprá-los, havia retirado de venda e enfurnado em algum lugar aquele último exemplar existente na loja, e talvez no país. E depois havia esquecido dele.

No dia seguinte, na festinha no estaleiro, sentados todos à volta da carne fumegante, fui até o Cabinho pedir-lhe dedicatória no meu exemplar. Depois, com ar muito solene, entreguei-lhe o outro, aquele novinho que descobrira, filho único de mãe viúva. Com dedicatória minha ao próprio e espantado autor, que de início nem percebeu a intenção e a brincadeira, achou que era apenas outro exemplar a colocar a sua dedicatória ....

Mas não era bem isso que eu queria contar aqui, e sim a conversa que se seguiu. Falamos de livros, veio o assunto do relato da decantada primeira circunavegação em solitário feita no "Spray" por Joshua Slocum, e eu então narrei ao cabinho e demais circunstantes um fato ocorrido há algum tempo :

“Um certo dia,” contei, “entrou em minha loja um fulano, não consigo lembrar quem era. Falou que estivera em Paraty a passeio, e apareceu por lá um veleiro francês, o "Silence". Ele, curioso por ver um barco vindo de tão longe, enrolou a lingua, a mímica ajudou, e saiu ganhando dos franceses um livro, exatamente o do Slocum. Mas não sabia ler francês e perguntou se eu topava trocá-lo por um dos livros em português que tinha na prateleira para venda.”

“Abri o livro que ele me oferecia . Era uma caprichada edição Chiron do "Seul autour du monde sur un voilier de onze mètres " , a bíblia universal dos velejadores de cruzeiro. Linda impressão em tinta azul, cada página trazia ilustrações a bico-de-pena de Léon Haffner, celebrado pintor de paisagens marinhas.”

“Uma preciosidade. Uma preciosidade. Senti-me mal com a troca proposta, parecia que estava enganando uma criança. Fiz um relativo compromisso com a honestidade, respondi “generosamente” que topava, e mais, que daria não apenas um, mas dois livros em troca...”

E então encerrei para os ouvintes a historinha :

"Se o fulano me pedisse dez livros na troca, juro que daria os dez para êle sem hesitar, na hora ! Na hora, na hora!"

E eis que, vinda de junto da churrasqueira, fez-se ouvir firmemente uma voz de timbre familiar :

--- Magalhães, você está me devendo oito livros!

O tal fulano, de quem não me lembrava, não conseguia recordar, era nosso anfitrião, o próprio churrasqueiro Geninho ...


Autorizado pelo Magalhães (MAGA)

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